Jogue fora a roupa velha

Por João Telésforo

O Daniel Vargas está em Harvard fazendo doutorado, mas segue com a mesma angústia que o levou a ser um dos fundadores do B&D, em julho de 2008. Essa ânsia por pensar e debater publicamente novas ideias para a transformação social o impulsionou, agora, a criar o blog “Jogue fora a roupa velha”.

Vale a pena conferir:

http://jogue-fora-a-roupa-velha.blogspot.com/

Segue abaixo o seu post de estréia. Chamo a atenção para a sua defesa da economia de mercado, ao mesmo tempo em que afirma a necessidade de transformá-la. Ponto que não é consensual no B&D, e pelo qual me interesso bastante: é possível algo como o socialismo de mercado? Trarei algumas ideias sobre essa questão em breve aqui no blog.

Sim, o B&D já chega aos três anos de existência. Para onde vamos, agora? Para onde nossa angústia vai nos levar?

Perguntas que nos fazemos… Vocês, leitores e leitoras, têm alguma sugestão?

A minha angústia

Uma angústia me incomoda, às vezes me confunde o pensamento, às vezes provoca excessos em mim e descontentamento nos outros, mas essa angústia também me inspira, me constrói, me impulsiona.
Quem não se angustia só consegue ver as coisas como são. Olha para o mundo tentando se ajustar, mas sem incomodar. Enxerga um preço nas coisas do presente, como se esse valor estivesse esculpido em pedra e nunca mais pudesse mudar.
Quem não se angustia não consegue se indignar ao ver uma criança passando fome na rua (repito: uma criança passando fome na rua!), reclama do pedinte na porta do trabalho, admira os negócios e ignora quando são condescendentes com injustiças sociais (ex: trabalho escravo).
Quem não se angustia tem noção de sucesso quantitativo. Mais é sempre melhor que menos. Muito é sempre melhor que pouco. Quanto mais zeros à direita do primeiro algarismo na conta bancária, melhor.
Quem não se angustia acha que quem se angustia é uma figura menor, um sujeito que não entende o jogo de interesses no mundo, um rebelde sem causa, um inocente sonhador, uma pessoa barata e manipulável.
Eu me angustio.
Eu me angustio sem perceber, quando vejo um filme sobre pobreza na favela, em que traficantes mobilizam jovens de 5 ou 6 anos de idade para trabalhar no tráfico.
Eu me angustio quando leio um livro sobre trabalho escravo no interior do Brasil, relatando as condições de vida de gente simples, sofrida, que se subjuga às condições mais desumanas para sobreviver.
Eu me angustio — muito — quando vejo um talento intelectual gastar toda a sua energia tentando provar que não há razão para se angustiar no mundo. Chego a pensar que diabos motiva um sujeito desses…
Mas eu me angustio, sobretudo, por opção. Porque quero me angustiar. Não porque eu aprecie seus efeitos — é chato, corrói por dentro, e às vezes machuca os amigos. Não sou masoquista.
Eu me angustio porque tenho fé.
Porque acredito que quando dizemos que a velocidade da luz é 300.000 km/s, temos fé em nossa capacidade de compreender o mundo (ou alguém foi a Marte medir a velocidade da luz por lá?). Lembre-se de David Hume e William James…
Porque quando acreditamos na democracia, temos fé que é melhor viver em um mundo em que todos tenham iguais condições de participar — ou alguém já leu algum estudo que prove estatisticamente que a democracia necessariamente torna as pessoas mais felizes ou mais ricas ou melhores?
Porque quando valorizamos o poder do mercado, acreditamos que ao deixar as pessoas perseguirem seus objetivos, estamos também organizando a colaboração social de uma forma aumentamos o bem-estar de todos os cidadãos. Ou alguém já viu uma bola de cristal que mostre que as pessoas no futuro vão se comportar do mesmo modo que no passado?
Eu me angustio porque da mesma forma que fiz a opção de acreditar na capacidade humana de realizar descobertas espetaculares, como fizemos durante os últimos séculos, também quero acreditar que podemos fazer muito, muito mais.
Eu me angustio porque acredito que é possível mudar o mundo, acabar com a miséria humana, educar as pessoas, mudar o mercado, criar regimes políticos mais harmônicos e generosos com todos nós.
Eu me angustio porque tenho fé no poder da razão, da ciência, do conhecimento e da moral. Porque tenho fé na capacidade individual de se reinventar, de perseguir, de fazer mais e melhor. E porque tenho fé no ser humano — imperfeito, precário, mortal — mas a coisa mais bela que este planeta já produziu.
Eu me angustio porque acredito no poder de todo homem também ter fé — de enxergar onde os outros não enxergam, de fazer o que os outros não fazem, de lutar pelo inexistente, até que o impossível se torne banal (Schopenhauer).
Eu me angustio porque a história foi feita por pessoas angustiadas por opção. Que tinham fé. E com fé, acreditaram. Acreditando, inspiraram. E inspirando, moveram o mundo em direção ao ‘impossível’.
Onde vejo uma pessoa angustiada, encontro um amigo.
Onde vejo duas, enxergo um movimento.
Onde vejo três, a chance de uma revolução.
Mas se vejo mais de 3 pessoas angustiadas, imediatamente viro soldado.

Postado por Daniel Vargas

Quarta-feira, 29 de junho de 2011

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