Sobre a revolução: Jacques Rancière

Por João Telésforo Medeiros Filho

Transcrevo abaixo trecho de uma das melhores entrevistas que li nos últimos anos. Com Jacques Rancière, para a Revista Cult, edição 139, de agosto de 2009.

O mote da conversa é o livro “Le spectateur émancipé” (“O espectador emancipado”), lançado em 2009 na França e em 2010 no Brasil. Publico aqui as partes que dizem mais respeito a um tema muito caro ao B&D: a revolução, a transformação profunda das estruturas sociais.

Eu postara essa entrevista no meu blog pessoal em setembro de 2009, e é interessante perceber como a mudança do contexto muda a forma como a lemos.

“O presente não é tão alegre”, dizia Rancière em 2009. A boa notícia é que temos algumas razões para nos alegrarmos: desde o ano passado, temos visto sinais dos “novos modos de palavra, novos meios de fazer circular a informação” manifestando-se na política – condições e sintomas de um momento revolucionário, segundo o pensador francês.

Assistimos a esse fenômeno recentemente no Egito e, com menor intensidade, na Espanha, em Natal (a “primavera potiguar” do #foramicarla), e também em Brasília – na revolucionária ocupação da Reitoria da UnB, em 2008, e nos atos do movimento Fora Arruda e Toda Máfia, em 2009-10. Merecem destaque ainda, entre os novos meios de fazer circular a informação, projetos como o Wikileaks e o Transparência Hacker.

“Criam-se cenas inéditas, aparecem pessoas que não eram visíveis, pessoas na rua, nas barricadas”, afirma Rancière. Isso tem acontecido. Do mesmo modo, a criação e  o emprego, na política, de novas formas de comunicação – espera-se que, à semelhança do que aconteceu com o movimento operário no século XIX, isso implique novos poderes e direitos para o povo. Tal como em 1968, vemos agora “surgirem de repente, em diversos lugares ao mesmo tempo, formas de contestação e de ação”.

Nosso desafio é seguir fomentando e participando desses movimentos que rompem com os limites aparentes do possível e instituem novas formas de fazer política. Porém, isso não é suficiente. Rancière aponta também “novas formas de economia” como típicas dos momentos revolucionários. Não basta inventarmos uma nova política, se não tivermos a imaginação necessária para fundar uma outra economia, diferente deste sistema excludente e desigual no qual vivemos. Precisamos transformar nossa indignação em mudança; imaginar para revolucionar, a exemplo do que têm buscado fazer os manifestantes nas praças espanholas.

Anotem-se as palavras de Rancière: “Os processos de emancipação que funcionam são aqueles que tornam as pessoas capazes de inventar práticas que não existiam ainda“. A nova política e a nova economia que precisamos inventar devem incrementar reciprocamente suas capacidades de inovação. Precisamos descobrir/inventar a riqueza e o potencial emancipatório das redes horizontais, não-hierárquicas, na economia, não apenas na política. Isso começa a acontecer, mas é preciso ir além: disseminar, aprofundar, radicalizar esse processo criativo.

Fiquem com a entrevista para a Cult.

“(…) CULT – O senhor rejeita a ideia de estetização da política que encontramos em Walter Benjamin. Como podemos interpretar a manipulação das sensações dentro do campo político? Por exemplo, o incentivo ao medo do terrorismo, a apresentação de políticos como mercadorias não seriam maneiras de estetizar a relação das pessoas com o poder político?

Rancière – (…) A estética e a política são maneiras de organizar o sensível: de dar a entender, de dar a ver, de construir a visibilidade e a inteligibilidade dos acontecimentos. Para mim, é um dado permanente. É diferente da ideia benjaminiana de que o exercício do poder teria se estetizado num momento específico. Benjamin é sensível às formas e manifestações do Terceiro Reich, mas é preciso dizer que o poder sempre funcionou com manifestações espetaculares, seja na Grécia clássica, seja nas monarquias modernas.
Há um momento em que é preciso distinguir duas coisas: de um lado, a adoção de certas formas espetaculares de mise-en-scène do poder e da comunidade. De outro, a idéia mesma de comunidade.

É preciso saber se pensamos a comunidade política simplesmente como um grupo de indivíduos governados por um poder ou se a pensamos como um organismo animado. Na imaginação das comunidades há sempre esse jogo, essa oscilação entre a representação jurídica e uma representação estética. Mas não creio que se possa definir um momento preciso de estetização da comunidade. Por exemplo, o nazismo, que é usado frequentemente como exemplo de política estetizada, na verdade também recuperou a estética de seu tempo. Pense nas demostrações dos grupos de ginástica em Praga nos anos 1930. Eram associações apolíticas ou absolutamente democráticas, com a mesma estética que encontramos no nazismo. Para mim, é preciso tomar distância da ideia de um momento totalitário da história marcado especialmente pela estetização política, como se pudéssemos inscrever isso num momento de anti-história das formas estéticas da política e das formas de espetacularização do poder. (…)

CULT – Se a mudança do mundo passa por reconfigurações da maneira de pensar e entender a realidade, então ela não passa pelas revoluções como as conhecemos?

Rancière – Podemos pensar nisso baseados nas revoluções que já aconteceram. Em primeiro lugar, uma revolução é uma ruptura na ordem do que é visível, pensável, realizável, o universo do possível. Os movimentos de revolução sempre tiveram a forma de bolas de neve.             A partir do momento em que um poder legítimo se encontra deslegitimizado, parece que não está em condições de reinar pela força, porque caíram todas as estruturas que legitimam a força. Criam-se cenas inéditas, aparecem pessoas que não eram visíveis, pessoas na rua, nas barricadas. As instituições perdem a legitimidade, aparecem novos modos de palavra, novos meios de fazer circular a informação, novas formas da economia, e assim por diante. É uma ruptura do universo sensível que cria uma miríade de possibilidades.            Não penso as revoluções, nenhuma delas, como etapas de um processo histórico, ascensão de uma classe, triunfo de um partido, e assim por diante. Não há teoria da revolução que diga como ela nasce e como conduzi-la, porque, cada vez que ela começa o que existia antes já não é válido.
Existe uma carta interessante de Marx, um pouco após 1848, quando os socialistas pensavam que as estruturas seriam abaladas mais uma vez. Ele diz que as revoluções não funcionam como os fenômenos científicos normais, são mais como os fenômenos imprevisíveis, os terremotos. Não sabemos como elas vão se comportar. Todas as teorias científicas, estratégicas, das revoluções demonstram isso.

CULT – Não podemos antecipá-las…

Rancière – Podemos prepará-las, mas não antecipá-las. A temporalidade autônoma de uma revolução, os espaços que elas criam não correspondem jamais ao quadro conceitual que temos no início.

CULT – A estratégia da esquerda tradicional é o confronto aberto, o que se opõe à sua teoria de reconfiguração estética da vida política…

Rancière – Temos de pensar na estética em sentido largo, como modos de percepção e sensibilidade, a maneira pela qual os indivíduos e grupos constroem o mundo. É um processo estético que cria o novo, ou seja, desloca os dados do problema.

Os universos de percepção não compreendem mais os mesmos objetos, nem os mesmos sujeitos, não funcionam mais nas mesmas regras, então instauram possibilidades inéditas. Não é simplesmente que as revoluções caiam do céu, mas os processos de emancipação que funcionam são aqueles que tornam as pessoas capazes de inventar práticas que não existiam ainda.        Não sou contra processos cumulativos, claro: se imigrantes ilegais têm capacidade de fazer greves e manifestações em condições perigosas para eles mesmos, isso define um alargamento não só do poder e das capacidades que temos, mas também do mundo no qual inscrevemos nossas ações e nosso pensamento.      A transformação dos mundos vividos é completamente diferente da elaboração de estratégias para a tomada do poder. Se há um movimento de emancipação, há uma transformação do universo dos possíveis, da percepção e da ação, então podemos imaginar como consequência também um movimento de tipo revolucionário, de tomada do poder. É claro que estamos falando do passado, porque o presente não é muito alegre.

CULT – Por que “o presente não é muito alegre”?

Rancière – O presente não é alegre porque não há esperanças fortes, digamos assim, que sustentem os movimentos existentes.           Por exemplo, a recente greve das universidades, que criou algumas formas de manifestação, digamos, particulares: cursos na rua, no metrô, invenções para deslocar para o campo da sociedade como um todo o problema que atinge o ensino superior francês.
Mas todas essas inovações foram completamente isoladas do ponto de vista da informação. O ano de 1968 existiu em parte porque o rádio cobria profundamente o movimento estudantil, sabia-se tudo que acontecia, havia uma geração de jovens repórteres de rádio que fez circular as informações.
Agora, aconteceu o contrário. A mídia aprisionou o movimento universitário numa espécie de paisagem hostil, gente que não entendia, que dizia coisas alucinantes. O partido majoritário de direita (UMP) criou associações de pais de estudantes exigindo o reembolso das inscrições porque os estudantes não tiveram aula. Isso era impensável há dez anos.     As forças da dominação e da exploração aumentaram consideravelmente seus meios de ação. Diante da crise financeira, não vimos nenhum discurso forte e sério contra o capitalismo, só esses pequenos grupos e partidos anticapitalistas com as mesmas ideias de décadas atrás. Nada que trouxesse esperança, movimentos com ideias alternativas a uma concepção hegemônica confrontada com suas próprias contradições.
O presente não é muito alegre porque as forças da dominação e da exploração fizeram progressos consideráveis. Estudei, por exemplo, o movimento operário do século 19, que criou novas formas de associação e de visão do mundo e que resultou em movimentos políticos que, como sabemos, falharam. Mas é certo que o universo dos possíveis foi amplamente reformulado. O povo em manifestação podia algo que não podia antes, diante da realeza.
No mesmo sentido, o operariado adquiriu novos poderes e direitos face aos patrões. As formas de comunicação se comunicam entre elas e criam um universo de circulação de energia, ideias, vontades. Foi muito marcante, em 1968, vermos surgirem de repente, em diversos lugares ao mesmo tempo, formas de contestação e de ação.

É claro que tudo isso caiu com o movimento, mas foi um momento em que os estudantes viram que podiam fazer o mesmo que os operários, e vice-versa. Criaram-se formas de ação completamente imprevistas. O que se transmite são aberturas do campo do possível, não do campo estratégico. (…)”

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7 respostas em “Sobre a revolução: Jacques Rancière

  1. recomendo a leitura da revista veja desta semana, reportagem sobre a UnB, página 112, acho. Por mais sensacionalista que seja, e de haver algumas inverdades ou, ponhamos assim, posições parcialíssimas, tal fato não implica a ausência de verdades na reportagem, cuja temática, como um todo, é fato verídico gritante para qualquer um com consciência minimamente (auto?)crítica que já percorreu algum corredor da UnB. Afinal de contas, que tipo de argumento é dizer: “esse artigo é deveras sensacionalista”? O que se conclui disso? Que é uma mentira? Certamente que não. Vocês deveriam imaginar e revolucionar seus ideais esquerdistas caducos e repensar toda essa “militância” fundada em devaneios, imaturidade e alienação (sim, pois: tão alienado quanto o divagante, o alheio, – ou mais – é aquele que vê a alienação dos outros, mas não percebe-se alienado, não se sujeita à crítica que ele mesmo propõe).

    • Quais seriam as verdades da reportagem e por que a “temática” como um todo seria “fato verídico gritante”? Isso simplesmente não corresponde aos fatos. Primeiro, o ambiente da UnB não é de perseguição ideológica sistemática. Alguns professores de direita ou de esquerda sendo eventualmente intolerantes uns com os outros, ou com alunos, isso pode haver, mas não é algo sistemático (eu, aliás, já testemunhei muito mais a intolerância da direita com a esquerda). Segundo, não sei se o pensamento de esquerda predomina na UnB. Nem mesmo nos cursos de “humanas”. Em Relações Internacionais, Economia e Ciência Política, a hegemonia certamente não é de esquerda. Mesmo em Sociologia, Weber é mais influente do que Marx (não quer dizer que weberianos sejam de direita ou não possam ser de esquerda, mas que não há correspondência à imagem que veículos como veja divulgam da UnB…). etc. Por fim, quais seriam os nossos “devaneios, imaturidade e alienação”? Sujeitamo-nos à crítica, estamos sempre abertos ao diálogo e à possibilidade de mudarmos de ideia. Porém, pra isso, é preciso que se aponte de qual ideia se discorda e se apresentem argumentos…

      • Professor, boa noite.
        Estou em fase final de redação de minha dissertação de mestrado e embora o questionamento que apresento não esteja diretamente relacionado ao post, gostaria de sua opinião sobre a seguinte questão:
        – É possível construir autonomia a partir de pressupostos ideológicos?
        Agradeço antecipadamente a atenção dispensada.
        Atenciosamente,
        Luiz Nogaroli

  2. “as forças da dominação e da exploração fizeram progressos consideráveis”. De que raios de forças metafísicas maléficas, infernais, causadoras de todo o mal do mundo vocês estão falando? Pelo amor…

    • Não são forças “metafísicas”. São processos e estruturas que impõem sérios constrangimentos não apenas sobre as condições materiais de vida das pessoas, mas também sobre sua liberdade. Veja um entre muitos exemplos aqui: http://daplanicie.wordpress.com/2011/11/03/a-flexibilizacao-precarizacao-das-leis-trabalhistas-e-o-custo-do-trabalho-no-brasil/

      Ao contrário do que muitos supõem, a “modernização” capitalista reproduz e até mesmo agrava problemas sociais, porque orientada para a acumulação de capital, o que muitas vezes se faz em prejuízo das condições de vida do trabalhador. Já assistiu ao filme “Tempos modernos”? Ali está uma mostra clara de “progresso das forças de dominação e exploração”, o avanço da alienação do trabalho. Hoje, novas formas seguem sendo produzidas. Os avanços tecnológicos podem potencializar as possibilidades de emancipação e libertação do ser humano, mas também podem amparar formas de exploração e dominação ainda mais eficientes. Cabe a nós pensar e atuar pela emancipação, mas sem ignorar que para isso é preciso combater um sistema que se organiza em torno do acúmulo de capital baseado na maximização da exploração do trabalho.

  3. João,

    muito bem lembrada a entrevista de Rancière à CULT.
    Nos textos dele, muitas vezes ficamos pensando se a política que ele imagina – o dano, a reconfiguração da partilha do sensível, a inauguração de novos possíveis, tempos e espaços – ainda é possível hoje.
    Acho que a primavera árabe – posterior à entrevista – mostra que sim, e é um exemplo fascinante de que uma revolução pode vir de onde menos se espera. Nem o próprio Rancière poderia imaginá-la, e tenho certeza de que ele se alegrou um pouco mais com o presente depois da Praça Tahir.
    Obrigado por me fazer voltar a essa entrevista, tão generosa, tão acessível.
    Um abraço!

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