Ousar sonhar – as manifestações na Espanha

Do blog do Paraná

Algo de saramaguiano ronda o cenário político espanhol.

Há semanas uma verdadeira multidão ocupa praças em todo o país exigindo mudanças sociais, exigindo uma nova realidade, exigindo sonho e ousadia.

As utopias, claro, vêm da esquerda. Contra o neoliberalismo, contra as privatizações, contra a precarização do trabalho e flexibilização de direitos conquistados as custas do doloroso parto que é o processo histórico. Mas o que explica então a vitória esmagadora da direita nas últimas eleições regionais?

A resposta parece simples. Em tempos de crise e insatisfação a população voltou-se para o conservadorismo (ou à mudança conservadora) uma vez que o governo de centro-esquerda de Zapatero não deu conta de lidar com o abacaxi e empregou contra a crise as mesmas medidas econômico-sociais já clássicas entre a direita. Entre direita e direita, o povo espanhol votou na genuína.

Mas há o exército de abstenções, o exército de negação entre escolher pela falta de opção e a falta de opção. O resultado dessa força mede-se nas ruas da Espanha, não nas urnas. Trata-se de um grito, um chamado – desses que ainda se ouve no Oriente Médio e aos poucos reforça a corrente de inspiração política por um novo amanhã em todo mundo.

No mundo pós-muro sentenciou-se que à nossa geração não era permitido sonhar, que a nós bastaria emprego, família, estabilidade. Pois contra tudo e todos ousamos sonhar, ousamos lutar. Apenas começamos.

Abaixo, vídeo de mobilização da esquerda espanhola durante as eleições, com texto de ninguém menos que Eduardo Galeano. O chamado é pela não aceitação em decidir entre o mesmo e o mesmo. Em tempos de crise, o papel tradicional da esquerda é formular e propor; disputar um novo senso comum; não se curvar a suposta ditadura da realidade indigna. Que a lição se espalhe pelo mundo, que chegue em terras brasileiras.

Logo a frente, texto de Moysés Pinto Neto discute os desafios dessa geração descrente. E você? Vai continuar se impedindo de sonhar?


SOBRE A MINHA GERAÇÃO E A POLÍTICA

Por Moysés Pinto Neto

Minha geração tem medo de sonhar. Contardo Calligaris certa vez afirmou que cada vez mais constatava isso na sua clínica: uma geração com sonhos baixos – emprego, família, estabilidade, aposentadoria. Pouco para quem tem um horizonte de vida pela frente, pouco para quem tem a energia do desconforto com um mundo que ainda não aprendeu a se acostumar. No meio da nossa formação o Muro de Berlim caiu (eu tinha apenas 9 anos) e, com ele, todas as possibilidades de uma esperança radical em outro mundo.

Aprendemos, então, que era preciso sonhar baixo. O “Outro Mundo” não era possível. Tudo que não era a democracia liberal estaria coberto de sangue. Testemunhamos a sobrevivência dos radicais assim – como sobrevivência. Com um discurso aborrecido, nostálgico e que nos parecia fora do lugar, nos desindentificamos com os esquerdistas. Teríamos que sonhar baixo: melhorias pontuais, fazer o possível, pragmatismo político. Tivemos mestres respeitáveis – pensadores que, na defensiva, se recolheram diante da imposição onipresente do conservadorismo. Aprendemos a discursar para não desagradar ninguém – a meio-tom – sereno e sem problematizar. Perdemos o ímpeto desafiador, ganhamos o medo de errar. Passamos duas horas justificando o que não somos para, ao final, tentar – se algum tempo sobrar – dizer o que somos. Ganhamos pequeninos pontos entregando o jogo para o adversário.

Com o tempo, viramos cínicos. Passamos a rir da esperança. Abrimos mão de ideais abrangentes para ficarmos com nosso pequeno quinhão do todo, afinal, é inevitável. Vestimos gravatas. Aprendemos a falar de direitos humanos e um vocabulário neutro que nos garante uma isenção de “polêmicas ideológicas” tão forte que se tornou, no mesmo passo, anódino. Aprendemos a escrever textos sem cheiro. Não desagradamos ninguém; estamos no centro. Murchamos. Nos tornamos bons para todos. Aprendemos a falar sem ofender os fascistas. Falamos para fascistas, tentando convencer fascistas. E perdemos, com isso, tudo. Nos tornamos coniventes com os crápulas.

Para nossa sorte, existe o tempo. Tempo para perceber que a política ainda vive; um pouco adormecida, mas como que se recuperando de um luto necessário. Política que, na sua potência crítica, é a esfera das formas-de-vida, e não um apanhado de burocratas engravatados deliberando suas negociatas. Política que não se faz pela burocracia jurídica, por um parlamento corrompido, por um executivo comprometido. Política que se faz contra o poder, não para o poder. Política que, retomando o elo cortado pelo liberalismo, reata o nó originário com a ética que sempre manteve. Essa é a única política.

As multidões que são a rua querem política. Querem viver melhor, não entregar sua existência para plutocratas vulgares tomarem champagne nos seus iates enquanto criticam a gentalha. A multidão sabe que o que nos separa da felicidade é, antes de tudo, o medo. Multidão que assume a responsabilidade pela transformação, desafiando a violência do poder. Há quem torça contra tudo isso para confirmar suas hipóteses cínicas. Não será isso, no entanto, que apagará a chance que se apresenta, chance cujo tempo não para de renovar.

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Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é sociólogo e jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB, com período sanduíche na SOAS – University of London. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atuou como pesquisador-bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional (2015-16). Além de trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de Sociologia Econômica, Economia Política e Teoria Social, é autor do livro A finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016). Também publica intervenções sobre economia e política em sítios como Blog da Boitempo, Carta Capital, Congresso em Foco, Outras Palavras e Brasil em 5.

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