Safatle: o que a esquerda deve propor?

Por João Telésforo Medeiros Filho

Segue abaixo um dos textos que podem servir como referência para a discussão que faremos nesta sexta à noite, na UnB, com Vladimir Safatle, sobre “O desafio da reconstrução da esquerda no Brasil”. Foi publicado na coluna mantida pelo filósofo na Folha de São Paulo, no dia 25 de janeiro deste ano.

Nele, Safatle identifica três grandes razões para que o Die Linke, partido de esquerda na Alemanha, venha conseguindo crescer e pautar o debate político: (i) capacidade de especificar suas propostas e processos de aplicação; (ii) pautar questões importantes ignoradas pelos partidos de centro-esquerda (talvez porque as considerem “radicais” demais); (iii) disposição para fazer alianças programáticas com os partidos social-democratas.

Ademais, Safatle, inspirado em proposta de Jean-Luc Mélenchon na França, sugere que uma dessas pautas, no Brasil, poderia ser a do salário-máximo.

VLADIMIR SAFATLE – Salário máximo

Falta uma oposição de esquerda no país. A última eleição demonstrou que todos aqueles que procuraram fazer oposição à esquerda do governo acabaram se transformando em partidos nanicos. Uma das razões para tanto talvez esteja na incapacidade que tais setores demonstraram em pautar o debate político.
Contentando-se, muitas vezes, com diatribes genéricas contra o capitalismo, eles ganhariam mais se seguissem o exemplo do Die Linke, partido alemão de esquerda não social-democrata e único dentre os partidos europeus de seu gênero a conseguir mais que 10% dos votos.
Comandado, entre outros, por Oskar Lafontaine, um ex-ministro da economia que saiu do governo Schroeder por não concordar com sua guinada liberal, o partido demonstrou grande capacidade de especificação de suas propostas e de seus processos de aplicação. Eles convenceram parcelas expressivas do eleitorado de que suas propostas eram factíveis e eficazes.
Por outro lado, foram capazes de abraçar propostas que outros partidos recusaram, trazendo novas questões para o debate político, como a bandeira da retirada das tropas alemãs do Afeganistão.
Por fim, não temeram entrar em coalizões programáticas como aquela que governa Berlim. Isso demonstra que eles são capazes de administrar e que sua concepção de governo não é uma abstração espontaneísta. Esses três pontos deveriam guiar aqueles que gostariam de fazer oposição à esquerda no Brasil.
Um exemplo de novas pautas que poderiam animar o debate político brasileiro foi sugerida pelo provável candidato de uma coligação francesa de partidos de esquerda, Jean-Luc Mélenchon. Ela consiste na proposição de um “salário máximo”. Trata-se de um teto salarial máximo que impediria que a diferença entre o maior e o menor salário fosse acima de 20 vezes. Uma lei específica também limitaria o pagamento de bonificações e stock-options.
Em uma realidade social de generalização mundial das situações de desigualdade extrema -outra face daquilo que certos sociólogos chamam de “brasialinização”-, propostas como essa têm a força de trazer, para o debate político, a necessidade de institucionalização de políticas contra a desigualdade.
Em um país como o Brasil, onde a diferença entre o maior e o menor salário em um grande banco chega facilmente a mais de 80 vezes, discussões dessa natureza são absolutamente necessárias. Elas permitem a revalorização de atividades desqualificadas economicamente e a criação da consciência de que a desigualdade impõe “balcanização social”, com consequências profundas e caras. Discussões como essas, só uma esquerda que não tem medo de dizer seu nome pode apresentar.


VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras nesta coluna.

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3 respostas em “Safatle: o que a esquerda deve propor?

  1. A pergunta que não quer calar? Por que a gente tem que (continuar) a olhar a Europa? Como dizia Spivak, há anos atrás, mas que serve ainda hoje: “Algumas das críticas mais radicais produzidas pelo Ocidente hoje são o resultado de um desejo interessado em manter o sujeito do Ocidente, ou o Ocidente como sujeito”.
    Ou seja, muita gente que se coloca no lugar de “crítico”, não faz outra coisa que não reforçar a Europa como sujeito da história, aquele que coloca as transformações em ação, e que deve ser seguido pelos outros.

  2. Pingback: Vladimir Safatle: o esgotamento da forma partido e o desafio de novas formas de governo « Brasil e Desenvolvimento

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