Guerra ao vivo… e 2.0

Do Blog do Paraná

Entre discussões, perfis, retwittes e trendind topings, já virou rotina para muita gente correr primeiro para as mídias sociais para só depois buscar portais e televisões. Esse é um caminho sem volta. O leitor-cidadão está ali e não aceita ser ignorado. Uma nova relação que exige um novo jornalismo.

No livro “Guerra ao Vivo” o jornalísta português Carlos Fino, com quem tivemos o privilégio de debater certa vez na UnB, apresenta as particularidades de uma guerra travada sobretudo através das lentes de grandes televisões. Fino, cobriu o início da guerra do Iraque, furando as gigantes CNN, Fox News e BBC ao ser o primeiro jornalista internacional a noticiar o início dos bombardeios pela estatal portuguesa RTP. Em seu livro, Fino apresenta com clareza porquê, como certa vez disse Hiram Johnson, “na guerra, a primeira vítima é a verdade”.

Mas se a afirmativa permance válida, o tempo de hegemonia do broadcasting – seja ele analógico ou digital – ficou para trás. Diferente de 2004, quanto não existia Twitter e o Facebook não chegava nem perto de seu atual alcance global, a morte do terrorista Osama Abin Laden foi um verdadeiro fenônemo midiático da web 2.0.

Comunicação e morte! Obama e equipe acompanham transmissão ao vivo da ofensiva contra Osama no Paquistão

Entre o fato mais notável, está a narração ao vivo da operação militar contra Bin Laden por um cidadão paquistanês no Twitter. Sem saber que se tratava de uma ofensiva contra o maior terrorista da história, Sohaib Athar, um morador de Abbottabad de 33 anos, descreveu em tempo real, no Twitter, o ataque que acontecia a poucos quilômetros de sua casa.

Ao fim da operação, o governo americano se apressou na divulgação. Dificilmente a informção poderia ser embargada por muito tempo; o rumor já corria na rede. Ao vivo, milhões de pessoas acompanharam a transmissão pela internet. Ao fim, uma chuva de comentários, análises de estudiosos, aforismos, piadas – um universo de produção de conteúdo para todos os gostos.

Os jornais, ah,  os jornais. Pobrezinhos. Feitos da dura materialidade do papel fechado nas redações, amanheceram com valor informativo baixíssimo no dia seguinte, isso claro, para aqueles que conseguiram alterar suas edições a tempo para imprimir o assassinato de Osama. O seu principal produto na era da web (e o que ainda o mantém vivo) – as análises, avaliações e reportagens de fôlego, com honrosas exceções, também não estavam lá. Faltou tempo.

Tempo. Eis a matéria prima da qual é feita a internet. Bastou que algumas redes de televisão divulgassem uma suposta imagem de Bin Laden morto para que o exército das mídias organizado na desorganização colaborativa da rede demonstrasse a fraude da foto e a grande barrigada das redes de TV. Ponto para a informação, ponto para o accountability forçado pelo grande alto falante cidadão na mão de cada um que ocupa as redes sociais.

Entre discussões, perfis, retwittes e trendind topings, já virou rotina para muita gente correr primeiro para as mídias sociais para só depois buscar portais e televisões. E esse é um caminho sem volta. Não por acaso, os principais jornalistas e empresas de comunicação já trabalham para aproveitar esse espaço. Mas dessa vez é diferente. O leitor-cidadão está ali e não aceita ser ignorado. Uma nova relação que exige um novo jornalismo.

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Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é sociólogo e jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB, com período sanduíche na SOAS – University of London. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atuou como pesquisador-bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional (2015-16). Além de trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de Sociologia Econômica, Economia Política e Teoria Social, é autor do livro A finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016). Também publica intervenções sobre economia e política em sítios como Blog da Boitempo, Carta Capital, Congresso em Foco, Outras Palavras e Brasil em 5.

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