Lulismo/Pemedebismo e o futuro político do país

Por Gabriel Santos Elias

Ainda não passou por aqui um debate importantíssimo para se entender a mudança política que ocorre atualmente no país.

Começou com um texto do André Singer na Revista Novos Estudos número 85, de dezembro do ano passado, chamado “Raízes sociais e ideológicas do Lulismo”, disponível aqui. Logo o artigo teve uma boa repercussão e saiu em versão mais light na revista piauí, disponível aqui

A tese de Singer, pelo que pude entender, é que o Governo Lula é um marco pelo realinhamento eleitoral que proporcionou, semelhante ao que ocorreu nos EUA com Roosevelt. Da eleição do primeiro mandato de Lula até a reeleição teria ocorrido a inclusão de setores excluídos economicamente, produzindo novas clivagens políticas. Mas de acordo com Singer esse realinhamento eleitoral, que deu enorme popularidade ao Lula e ao PT, também tornou a base eleitoral do PT mais conservadora em temas políticos, enquanto busca o progresso econômico. O fato de Lula não buscar se comprometer com a punição de torturadores em seu governo pode ser explicado por isso, ao mesmo tempo que explica também o comportamento de Dilma em relação ao aborto nas eleições, enquanto as questões econômicas, como bolsa família e aumento do salário mínimo acabaram se tornando consenso — incorporados também como bandeira pela oposição. Esse realinhamento eleitoral pode fazer do Lula e do PT uma força eleitoral enorme nas próximas décadas mudando completamente políticas públicas e relações políticas eleitorais.

Marcos Nobre, por sua vez, respondeu ao texto de Singer na Piauí aqui.

Nobre critica o economicismo de Singer que não considera a cultura política a que está submetida a mudança social e econômica que vem ocorrendo no Brasil. Nobre diz que Singer coloca o Governo Lula como um marco na história política brasileira, sendo que, de acordo com ele, Lula não rompe com um arranjo político que vem desde a redemocratização, o Pemedebismo. O Pemedebismo é mais que a hegemonia de um partido — que certamente não seria o PMDB. É mais a forma de fazer política que vem desde a transição democrática brasileira que dependia da inclusão máxima de todos contra a ditadura — no então MDB — e a redução dos conflitos internos ao bloco.

Para o funcionamento do bloco não poderia haver restrições aos participantes e todos teriam poder de veto sobre qualquer tema. Assim, ao longo desses 25 anos, pelo sistema de vetos, não foi possível avançar em temas polêmicos que não fossem minimamente consensuais na política brasileira sem que pudesse inclusive fazer um debate público aberto sobre esses temas.  O Pemedebismo viu a formação de uma polaridade limitada no Gov. FHC, com o PSDB de um lado e PT do outro, mas nenhum dos dois teria conseguido romper com o sistema de vetos. A aliança do PMDB com PT e o enfraquecimento do DEM e PSDB retomaria a lógica mais profunda do pemedebismo que refuta conflitos e busca incluir o máximo de atores. Nobre chega a dizer em uma entrevista mais recente que a Dilma teria sido escolhida para a sucessão justamente por que foi capaz de construir um modelo de gestão, ainda no Ministério de Minas e Energia, que incluiu o PMDB e o PT de forma harmoniosa e pouco conflituosa. Segundo ele, a presidenta não será capaz de romper com essa lógica, portanto teríamos aí pelo menos mais 4 anos sem perspectivas de mudanças concretas através das reformas importantes.

As duas visões, na minha opinião, se complementam muito bem para explicar a política atual. Enquanto Singer apresenta aspectos mais econômicos, Nobre apresenta outros mais histórico-políticos e culturais. A semelhança, acredito eu, está na constatação de que existe uma dificuldade para a polarização da política brasileira em geral. Para Singer a razão disso seria pela nova composição, mais conservadora politicamente, do eleitorado. Para Nobre, isso se daria pelo arranjo político conciliatório que se sustenta historicamente no Brasil desde a redemocratização.

Mas Singer não vê tanto problema na falta de polarização, uma vez que esse arranjo tem se mostrado capaz de garantir um desenvolvimento sustentado do Brasil nos planos econômico e social. Nobre, por sua vez, acredita que falta à democracia brasileira uma maior polarização entre projetos políticos.  Para que ocorra essa polarização em algum momento devemos passar pelo rompimento da aliança entre PT e PMDB, pelo fim do PMDB ou pelo surgimento de uma nova força que surpreenda a todos na formação de um contraponto político-social ao próprio PT e sua aliança conservadora.

A questão que fica e que é de fundamental importância é: qual é o melhor caminho para as transformações sociais que desejamos para o país?

O pemedebismo/lulismo pode sustentar ganhos econômicos e sociais pontuais mantendo uma estabilidade a longo prazo. Mas será capaz de promover abertura para mudanças estruturais mais profundas e necessárias? Afinal, temos que levar em conta também que a manutenção de um arranjo político conservador como esse ajuda a fortalecer o próprio conservadorismo na sociedade.

Por outro lado, não é só o banqueiro que se beneficia com a estabilidade econômica do país. Em tempos de instabilidade quem mais perde é justamente o mais pobre. E, aproveitando a comparação feita por Singer do período Lula com o Roosevelt nos EUA, devemos considerar a importância que a inclusão econômica de setores excluídos teve na reivindicação do movimento pelos Direitos Civis no país décadas depois. O que poderá acontecer no Brasil se mantida essa estabilidade com inclusão econômica sustentada por algumas décadas? Podemos prever uma reivindicação de inclusão também política desses setores já então incluídos economicamente?

São questões que ficam em aberto para nossa reflexão sobre o futuro que queremos para o país.

O NPTO (aqui) e o Politikaetc (aqui) já falaram sobre o tema também. Vale a pena conferir.

Twitter: @GSantelli

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8 respostas em “Lulismo/Pemedebismo e o futuro político do país

  1. Bacana o texto, Gabriel. Acho que você ponderou bem ambas as posições. Se fosse pra escolher entre a polarização, que deixa o sistema político mais dinâmico e acelera as transformações sociais, e esse “New Deal” tupiniquim, sei não, acho que eu ficaria com o primeiro. Mas queria saber o que o Marcos pensa do governo hoje, depois que o mínimo ontem foi aprovado com o apoio total do PMDB. Ao que parece o governo vem conseguindo dobrar os caras…

    Abraço,
    Rapha

    • Fazer o PMDB votar um mínimo mais conservador não me parece lá um grande feito… Quero ver o PT “dobrar” o PMDB e outros aliados quando estiverem em pauta assuntos que contrariem interesses da bancada ruralista, ou dos donos da mídia, ou do sistema financeiro, ou do conservadorismo moralista…

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