A indústria do tabaco e o mito da livre escolha

Por Edemilson Paraná

A indústria do tabaco não é uma indústria comum. Uma frase célebre da ex-diretora da OMS, Dra. Grau Brundtland, resume: “Os produtos do tabaco são os únicos produtos legais que matam cerca de metade dos consumidores quando usados como mandam os fabricantes”.

Se vários anos foram necessários para que políticas de antitabagismo fossem consolidadas em inúmeros países, a indústria descobriu muito cedo o potencial mortal de seu produto. Com informações privilegiadas, os fabricantes mentiram sobre aspectos de seu empreendimento e quando não puderam mais negar as evidências, passaram a argumentar que seus produtos não causavam dependência ou que os riscos não eram comprovados. A falência da estratégia reorientou a política corporativa. O foco agora é o bom e velho discurso liberal da livre escolha.

Nada mais oportuno. Partindo do argumento de que fumar é uma escolha pessoal e consciente, a indústria tenta fugir da responsabilidade pelos danos gerados por seu produto, individualizando o consumo e os malefícios dele obtido.

Difícil falar em poder de decisão quando viciados, mesmo depois de desenvolverem câncer ou terem membros amputados por conta do cigarro, não conseguem deixar o vício. Difícil falar em escolha individual diante dos comprovados malefícios do tabagismo passivo.

Toda relação de mercado é uma relação social. Ora, se dessa relação social -que é a produção e o comércio- a indústria obtém seus lucros, qual o sentido de individualizar o dano? Se a escolha individual é indiscutível, o consumo puramente individualizado não passa de um mito. Um mito que serve à construção de uma verdade retórica, de motivos, sabemos, escusos.

Mas se a disposição de verdadeiras indústrias jurídicas e a utilização de práticas dúbias de marketing continuam a acorrer, o propósito é claro: relativizar danos, aumentar lucros.

Sobre isso, nada mais oportuno do que um diálogo do filme Obrigado Por Fumar (2006). Na cena, um lobista da indústria do tabaco discute com seu filho. “Suponhamos que você defenda o sorvete de chocolate; eu, o de baunilha. Você dirá que o seu é a melhor coisa do mundo. Eu direi que a melhor coisa do mundo é poder escolher entre chocolate e baunilha.” E o menino diz: “Mas com isso você não me convenceu de que baunilha é melhor”.“Mas eu não quero te convencer, quero só provar que estou certo e você errado”, retruca o pai. Não por acaso, na cena seguinte, pai e filho tomam juntos sorvete de baunilha.

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Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é sociólogo e jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB, com período sanduíche na SOAS – University of London. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atuou como pesquisador-bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional (2015-16). Além de trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de Sociologia Econômica, Economia Política e Teoria Social, é autor do livro A finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016). Também publica intervenções sobre economia e política em sítios como Blog da Boitempo, Carta Capital, Congresso em Foco, Outras Palavras e Brasil em 5.

5 respostas em “A indústria do tabaco e o mito da livre escolha

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  2. Pessoal do B&D, Gosto muito do grupo de vocês e sempre acompanho as publicações, do Blog, e mesmo no twitter pessoal de alguns de vocês, que admiro muito.
    Vim então apresentar algumas ressalvas que tenho no atinente a idéia contemporânea que tem se manifestado em algumas atitudes “antitabagistas” que julgo bastante perigosas.
    Concordo inicialmente com o problema da lucratividade das companhias de cigarro na exploração de um vício de difícil libertação para os consumidores. Apenas acredito que o problema de tudo isso não está precisamente no cigarro, mas em uma mercantilização desse insumo que, obviamente, numa sociedade capitalista de mercado se manifesta em quase todos os níveis da vida.
    O grande problema da lógica que passo a chamar aqui de “antitabagista” é que ela caminha lado a lado numa perspectiva, como diria Foucault, “Medicalizante”. Não quero aqui defender a perspectiva do direito individual. Mas certamente temos que entender que essas medidas caminham para uma lógica disciplinar de exercício de poder sobre os corpos das pessoas.
    A campanha contra o tabaco gera efeitos colaterais bastante curiosos, por exemplo: discriminação contra os fumantes em diversos níveis do convívio social. Se partirmos para exemplos mais atuais, basta lembrar-se da lei anti fumo de SP. Não critico a lei por proibir o fumo em locais fechados, mas por instigar a delação na sociedade por colocar em todos os estabelecimentos um aviso: Denuncie 0800 7713541. Qual a intenção disso, impor uma sociedade de vigilância permanente? Tornar todo cidadão um paladino antitabaco? Dividir puramente a sociedade entre os que fumam e os que não fumam?
    Certamente defendo que a mercantilização de um vício é algo terrível, mas o meu problema não é com o vício, mas com a lógica de mercado em si. Certamente tudo que objetiva lucro usará de todos os meios disponíveis para ampliar o consumo. Com o tabaco não é diferente.
    Se limitar a uma crítica medico-sanitária na questão do tabaco não conduz a uma sociedade mais justa. Conduz apenas a uma sociedade quem sabe mais “limpa”, “saudável”, “pura”. Certamente adjetivos de sociedades idealizadas por alguns regimes de caráter duvidoso.
    Como o Foucault bem afirmava, o saber médico tem uma estranha pretensão expansiva, cada vez mais caminha em direção a uma intervenção direta no regramento jurídico. Basta ver o desenvolvimento Urbano francês para perceber como a medicina saiu dos hospitais para regular toda a política urbana. No direito penal não é diferente, com alguns famigerados laudos médicos que remontam a diagnósticos do medievo, tratando a criminalidade como patologia.
    Certamente o combate a mercantilização do tabaco não pode ser conduzida por esse viés, mas sim numa perspectiva ampla de um combate a essa “soberania de mercado”. Sem isso o combate sanitário do cigarro só levar a uma política de imposição de disciplina e a uma forma sanitária de política que remonta a uma perigosa lógica de controle médico da população.
    Acho que termino com uma frase de uma senhora que, fumava feito uma chaminé, e ao ser indagada sobre os motivos que a levavam a continuar fumando respondia: “Me recuso a viver em função da minha saúde, viver faz mal a saúde” (Hannah Arendt).

    Abraço
    Ivan Sampaio
    @IvandeSampaio

    P.s: desculpem pelo tamanho do texto e falta de clareza, qualquer coisa complemento depois.

  3. Caro Ivan,

    “Certamente o combate a mercantilização do tabaco não pode ser conduzida por esse viés, mas sim numa perspectiva ampla de um combate a essa “soberania de mercado”.

    Concordo plenamente. E eis que com essa frase vc delimitou a coluna vertebral do meu argumento.

    Basta observar que o argumento estruturante do texto centra fogo nas práticas da industria do tabaco; suas dúbias estratégias de marketing que visam, sobretudo, mercantilizar ainda mais um vício, sim, danoso à saúde. Tudo isso mascarado no velho discurso liberal da escolha individual.

    O que pretendo neste artigo, ao discutir o caso específico da industria do tabaco, é demonstrar que tal ideologia mascara e reforça os danos do hiper-consumo em todas as esferas.
    Basta notar que pouco me referi ao usuário. Vejo a questão, antes de mais nada, como sistêmica. O argumento que centra a discussão no usuário/consumidor, para mim, é falacioso e serve à lógica do consumo fetichizado.

    Em suma, enquanto a indústria colhe os bons frutos da mercantilização do consumo, o consumidor paga por todos os danos.

    O aspecto médico-sanitário em torno do antitabagismo não é tema deste artigo. Isso, por óbvio, não impede que seja iniciada um frutífera discussão sobre o tema.

    abraço

    • Edemilsom,

      A primeira vista eu já havia reparado que o tema central que vc tinha desenvolvido no post se referia lógica mercantil a que está submetido o cigarro. Obviamente a “industria tabagista”, como todo grande conglomerado econômico em nossa sociedade, não poderia se orientar por princípios que não os ditames do Capitalismo Liberal.

      Mas o que havia me “incomodado” um pouquinho era uma estranha sensação desse discurso médico nas entrelinhas do seu raciocínio. Por exemplo; vc inicia o texto afirmando: “A indústria do tabaco não é uma indústria comum.”, logo em seguida vc se baseia na máxima da OMS “Os produtos do tabaco são os únicos produtos legais que matam cerca de metade dos consumidores quando usados como mandam os fabricantes”, no mais a própria referencia a políticas antitabagistas como avanços também acho um pouco complicado.

      Nesse sentido o que quis foi apontar que, de forma estrutural, a industria tabagista é precisamente igual a todas as outra e esse é que é o problema. Também quis criticar essa idéia de politicas antitabagistas que, principalmente em decorrência da forma como são pautadas, são exemplos claros da idéia da “medicalização” enquanto forma de “normatizar”, e pior “normalizar” a sociedade.

      No mais gostei do texto, só quis mesmo trazer esse ponto, por que num geral as formas de imposição de “normatização” são muito sutis e normalmente passamos batido por elas. Também gosto muito do Filme Obrigado Por fumar, até tenho ele em casa.

      Desculpe pela chatisse.

      Ivan Sampaio
      No Twitter: @IvandeSampaio
      Meu Blog criado há poucos dias: \http://desmontadordeverdades.blogspot.com/

      P.s: Só uma sugestão, por que vcs não retiram a moderação dos comentários, num geral acho bem mais da hora um blog que não precise desse controle. Desculpe ficar me mentendo, é só um palpite.

      • Chatisse nada, rapaz.

        Os pontos são justos e necessários.
        Toda discussão é uma forma de aprendizado.
        Obrigado pela participação.

        abs

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