“José Serra está sem saída”

Abaixo entrevista realizada por mim há duas semanas com professor David Fleischer para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento.

Mais interessante do que a análise da disputa eleitoral, em que Fleischer decreta a falência final de José Serra, é o intrigante prognóstico que o especialista aponta para o futuro político do Brasil. As fotos são de Maíra Morais.

“José Serra está sem saída”

Por Edemilson Paraná

O candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra liderou as pesquisas de intenção de voto durante oito meses seguidos (setembro de 2009 à maio de 2010). Aos poucos, o tucano viu sua larga vantagem encolher até ser ultrapassado de vez por sua principal concorrente. A menos de um mês das eleições, o cerco parece se fechar definitivamente para ele. “Há 80% de chance da candidata do PT, Dilma Rousseff, ser eleita já no primeiro turno”, aposta o analista político e professor emérito da Universidade de Brasília, David Fleischer. Em entrevista exclusiva à Gestão Pública e Desenvolvimento, Fleischer apontou os problemas da candidatura de José Serra e traçou previsões para a disputa política em um eventual governo Dilma.

Para o especialista, além do apoio do presidente Lula, a imagem de gestora pública eficiente atribuída à Dilma Rousseff tem sido fundamental em seu desempenho eleitoral.

Um dos mais renomados cientistas políticos do Brasil, David Fleischer é especialista em política eleitoral, pós-doutor em Ciência Política pela State University of New York, com 21 livros e inúmeros artigos publicados na área. Foi professor visitante na UFMG, University of Florida, SUNY-Albany e The George Washington University.

GP&D – As pesquisas apontam um cenário em que a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff obtém larga vantagem diante do segundo colocado, o tucano José Serra. A eleição já está de fato resolvida no primeiro turno?

Fleischer – O que nós estamos vendo agora no início de setembro é um retrato que as pesquisas eleitorais trazem do momento. Pode haver mudanças nas próximas semanas até o dia da eleição, o que daria margem para outras possibilidades, porém a julgar pelas experiência anteriores, essa grande diferença entre os dois candidatos nas pesquisas prevê uma vitória de Dilma Rousseff logo no primeiro turno.

GP&D – Qual foi o maior erro de estratégia do PSDB nesta campanha?

Fleischer – Vários analistas observam que o grande erro do PSDB foi escolher um candidato paulista para a disputa, o ex-governador de São Paulo, José Serra. O Brasil inteiro tem uma certa restrição política em relação ao Estado de São Paulo. Mas fora esta observação, acredito que o PSDB poderia ter canalizado melhor a disputa interna pela candidatura à Presidência com a realização de eleições prévias para a escolha de seu candidato, como queria o (ex-governador de Minas) Aécio Neves. Esse processo possibilitaria uma pré-mobilização que ajudaria a fortalecer e orientar o partido, que está um tanto perdido atualmente. Para além disso tudo, o grande problema é encontrar a estratégia certa para fazer frente ao bem avaliado governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva e a candidata que o representa. É difícil fazer oposição contra um governo e um presidente com índices de aprovação tão altos.

GP&D – Para forçar um segundo turno, José Serra aposta crescer entre os 10% do eleitorado que ainda está indeciso. O que ele precisa fazer para atrair este eleitorado?

Fleischer – A tendência natural é de que esse contingente de indecisos se divida entre todos os candidatos na mesma proporção já definida nas pesquisas de opinião. É realmente bem difícil mudar o quadro atual, sobretudo porque grande parte desses eleitores indecisos avaliam positivamente o presidente Lula, que apóia publicamente Dilma Rousseff. Uma possibilidade alternativa de levar a disputa para o segundo turno seria o crescimento da candidata Marina Silva (PV), mas isso também parece bastante improvável. José Serra está realmente sem saída. Há por volta de 80% de chance de Dilma ser eleita já no primeiro turno.

GP&D – Por que Marina Silva não consegue romper a faixa dos 10% nas pesquisas? O quê fez com que ela se estabilizasse neste patamar?

DF – O partido dela, o Partido Verde, e mesmo ela como candidata, são tidos como a expressão de um enfoque de políticas públicas muito estreito, que é o meio ambiente, o desenvolvimento sustentável. Para ser candidato à Presidência da República você tem de ter um leque muito grande, um elenco reconhecidamente amplo de assuntos e propostas. Outra explicação se deve ao fato de que praticamente desde 2002 a política está se bipolarizando entre o PT e o PSDB. Então para um terceiro partido ou candidato conseguir romper essa bipolaridade não é fácil, sobretudo porque cada um desses pólos aglutinou em torno de si várias outras legendas e apoios. Marina Silva e o PV não fazem parte de uma coligação nacional. A candidatura dela é vista como estreita tanto do ponto de vista das propostas como das alianças eleitorais.

GP&D – Em que medida a imagem de boa gestora da candidata Dilma Rousseff influenciou em seu desempenho eleitoral?

Fleischer – Eu acho que de uma certa maneira tem um grande peso. Discute-se muito, nesta eleição, assuntos relacionados à gestão e políticas públicas. A experiência de Dilma na elaboração e implementação de políticas públicas, seja no governo do Rio Grande do Sul, seja no governo Lula deu a ela uma boa bagagem nesta área, com desempenho reconhecido e atestado publicamente pelo presidente. Este é um fator determinante que ela usa muito na campanha e que tem favorecido seu desempenho.

GP&D – Com a larga vantagem de Dilma Rousseff nas pesquisas, os partidos da base aliada já começam a discutir o rateio dos cargos. Essa disputa pode atrapalhar um possível governo Dilma?

Fleischer – Sendo que aparentemente Dilma vai ganhar no primeiro turno, o assédio destes partidos e seus políticos para obter um quinhão do bolo é muito grande agora no início de setembro, e isso só tende a crescer. Se ela for de fato eleita no primeiro turno, terá outubro, novembro e dezembro para organizar seu novo governo. Não sabemos exatamente quais representantes de quais partidos estarão nos ministérios nem como Dilma irá lidar com isso. Sabemos de nomes dentro do PT que podem ser recrutados e de nomes do PMDB, que é um partido que deve aumentar sua influência neste governo. Há também outros partidos como o PSB, que quer três ou quatro ministérios e também o PDT, que fala em obter mais de um, talvez dois ministérios, sem falar nos demais partidos da coligação que também apresentarão suas demandas.

GP&D – Como será a correlação de forças no Congresso Nacional em um eventual governo Dilma?

Fleischer – A Dilma vai assumir, caso eleita, em situação bem mais confortável do que a de Lula, tanto em 2006 quanto em 2002. A maioria parlamentar dela deve ser mais ampla. É importante lembrar que no último mandato, Lula não obteve maioria constitucional no Senado e teve problemas com isso. A Dilma possivelmente terá maioria nas duas casas e, se a previsão se confirmar, isso facilitará as coisas para o seu governo. No entanto, manter essa coalizão não é fácil, sobretudo porque no presidencialismo de coalizão que é o Brasil, as alianças são mantidas na base do fisiologismo, às custas de distribuição de cargos e emendas do orçamento. Ela vai precisar de bastante habilidade para lidar com esta situação.

GP&D – E como fica a oposição? Que papel desempenhará neste governo?

Fleischer – Vai ser uma oposição diminuída, encolhida, menor do que foi no governo Lula. As bancadas do PSDB e sobretudo as do Democratas na Câmara e no Senado tendem a diminuir. O partido Democratas talvez veja sua bancada na Câmara Federal cair de 57 para 40 ou 45 deputados. No Senado, onde é mais forte, o DEM também deve encolher.

GP&D – Analistas políticos apontam a possibilidade do partido Democratas deixar de existir. Qual o futuro do DEM?

Fleischer – Veja, há várias hipóteses. A primeira delas seria uma fusão de DEM e PSDB em um único partido, que estaria na oposição ao governo Dilma. Uma segunda análise levanta a possibilidade de Dilma atrair para o seu lado o PSDB para equilibrar, contrabalancear o grande peso político que o PMDB terá no seu governo. Isso isolaria ainda mais o DEM. A terceira hipótese é de que seja criado um novo partido capitaneado pela força política de Aécio Neves. Essa nova legenda abrigaria dissidentes de vários partidos, entre eles DEM, PSDB, PMDB, PR e outros, e tenderia a se aproximar aos poucos do governo Dilma, compondo a base aliada.

GP&D – E qual dessas três hipóteses é a mais provável?

Fleischer – Para mim a terceira, a criação de um novo partido com a liderança de Aécio Neves. Isso seria um modo de articular uma coligação para lançar o nome de Aécio à Presidência em um futuro próximo.

Anúncios
Esse post foi publicado em politics e marcado , , , por Edemilson Paraná. Guardar link permanente.

Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é sociólogo e jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB, com período sanduíche na SOAS – University of London. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atuou como pesquisador-bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional (2015-16). Além de trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de Sociologia Econômica, Economia Política e Teoria Social, é autor do livro A finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016). Também publica intervenções sobre economia e política em sítios como Blog da Boitempo, Carta Capital, Congresso em Foco, Outras Palavras e Brasil em 5.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s