“No Shock Doctrine” – o caso inglês

 Por Laila Maia Galvão

No último mês surgiu um interessante debate público na Inglaterra a respeito das últimas medidas anunciadas por David Cameron, recém eleito em nome do partido conservador. O plano anunciado em maio desse ano tem como objetivo central reduzir o déficit público que atinge 11,1% do PIB do Reino Unido. O foco do plano são os cortes que, segundo David Cameron, vão afetar a “economia, a sociedade e o modo de vida dos britânicos”.

As medidas incluem um corte de 20% no serviço público, envolvendo a supressão de vagas e o aumento da idade de aposentadoria. A sociedade britânica, preocupada com a possibilidade de desmantelamento do sistema de “welfare” (bem-estar social), tem se organizado para combater a proposta de orçamento anunciada pelo novo governo. Para parte da população britânica, os cortes poderão ter resultados desastrosos caso ataquem o sistema de seguridade social construído ao longo dos últimos anos.

É interessante notar como essa questão tem sido pendular naquele país. Após um longo período de prevalência do partido trabalhista, em que medidas foram tomadas para restabelecer o sistema de welfare na Inglaterra, esse mesmo partido sofreu um profundo desgaste político que teve como conseqüência o resultado das últimas eleições. A vitória dos conservadores e o governo de coalizão liderado por Cameron e Clegg (Liberal-Democrata) foram capazes de demonstrar a insatisfação dos ingleses em relação às medidas adotadas pelo partido trabalhista recentemente.

Não obstante, o que se debate agora é o temor de que haja algo semelhante a uma Era Margaret Thatcher. A comparação é inevitável. Após a crise econômica de 1979, o governo de Thatcher aplicou na Inglaterra dos anos 80 um experimento econômico que trouxe resultados nefastos para boa parte da população, tais como redução da seguridade social e altas taxas de desemprego.

Cabe ressaltar, não entanto, que são dois contextos diferentes. O mantra repetido por Thatcher era o combate à inflação e também às “trade unions”, consideradas uma das culpadas do espiral inflacionário. Atualmente, o mantra é a questão do déficit (algo que não é exclusividade da Inglaterra, já que essa discussão tem estado presente em toda União Européia, com resultados mais visíveis na recente crise grega). Se nos anos 80 de fato havia um problema inflacionário que preocupava os ingleses, da mesma forma há um problema relativo ao déficit que não pode ser deixado de lado. O que se argumenta, no entanto, é a forma como lidar com esses problemas. Para muitos especialistas, tal como Paul Krugman, o estrago social que pode advir de medidas mais drásticas de corte de orçamento podem resultar em anos de estagnação, o que pode ser prejudicial à economia nacional.

Cameron afirmou em entrevista que essas decisões que estão sendo tomadas agora terão efeitos por vários anos e, provavelmente, por décadas. Segundo Cameron, isso irá fortalecer e unir o país. Nick Clegg, por sua vez, diz que não haverá repetição da “dureza” da política econômica dos anos 80.

Tendo em vista que os eleitores do partido liberal-democrata não querem a redução drástica dos serviços públicos, muitos organizaram uma campanha chamada No Shock Doctrine, que busca alertar os políticos para o perigo dos cortes previstos no novo orçamento. A partir dessa perspectiva, os gastos sociais são considerados essenciais para a construção de uma economia pujante. Muitos temem o aumento das taxas de desemprego.

O interessante é que o debate busca desnaturalizar a ideia de que há apenas uma solução possível. O reconhecimento dos problemas fiscais advindos das últimas administrações do partido trabalhistas não implica no apoio irrestrito às propostas do novo orçamento. Dessa forma, a questão orçamentária e as escolhas referentes à política econômica estão em permanente discussão. A tomada de decisão da população, portanto, não se dá apenas no momento do voto, mas sim ao longo de todo o governo.

Será preciso acompanhar de perto o desenrolar dessa discussão para observar se a mobilização contra os cortes de gastos sociais será capaz de resultar em uma reformulação da proposta de orçamento. É desejável que a proposta inicial seja revista para que a população mais carente não seja afetada de forma negativa e para que não haja um retrocesso na reestruturação do sistema de seguridade social e das organizações sindicais britânicas.

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2 respostas em ““No Shock Doctrine” – o caso inglês

  1. 1. O Partido Trabalhista de fato tomou medidas para restabelecer o sistema de welfare na Inglaterra? Quais teriam sido? Não conheço o assunto, mas o que se ouve falar é que a “terceira via” de Blair acabou se mostrando muito liberal.

    2. Será que de fato o déficit que existia era um problema? O professor James K. Galbraith afirma que isso é um mito: https://brasiledesenvolvimento.wordpress.com/2010/06/13/galbraith-pai-e-filho-deficit-publico-e-a-sabedoria-convencional/

    3. Curioso como sempre jogam a culpa do déficit no serviço público… A Inglaterra foi à guerra do Afeganistão e Iraque com os EUA, teve custos altos com isso, mas ninguém lembra disso nessa hora.

    4. Será que a melhor maneira de combater o déficit é com medidas recessivas? Existe a alternativa contrária, de estimular o crescimento da economia. Ou seja, não reduzir custos, mas aumentar a arrecadação pelo aumento do crescimento, com uma política de queda do déficit proporcional ao PIB ao longo dos anos.

    5. Além disso, outra possibilidade é aumentar arrecadação. Pode-se instituir imposto sobre grandes fortunas, por exemplo. Ou imposto sobre o sistema financeiro, que lucra horrores.

    • A questão é muito mais complexa e exige um aprofundamento que não cabe no espaço de um post! Mas vamos lá…. Os grandes pilares do welfare state na Inglaterra foram as reformas do National Health Service e o do National Insurance Act de 1946. Apesar de o Reino Unido contar com programas de pensão desde 1908, foi no pós-guerra e nas administrações do partido trabalhista, que o sistema público de seguridade social ganhou mais força.

      O processo pelo qual a Inglaterra passou nos anos 80 é conhecido: privatização de empresas públicas, elevação das taxas de desemprego, limitação das greves, a tentativa de implantação do poll tax etc.

      Já nos anos 90 o partido trabalhista passou por uma “modernização”. Tony Blair foi a grande referência desse processo. Ainda no início da década era um político jovem que acreditava que o partido deveria se reorganizar caso quisesse ganhar as eleições. A pauta do partido passou a ter cinco prioridades, levadas adiante ao assumirem o governo: educação, saúde, segurança, emprego e estabilidade econômica. Apesar de o partido trabalhista não ter atuado de forma tão ativa na ampliação do sistema de seguridade social, tal como nos governos anteriores, Blair conseguiu ampliar significativamente o número de postos de trabalho e fez grandes investimentos no NHS (National Health Service).

      Enfim. É claro que o governo de terceira via implementado de 1997 a 2010 não reestruturou todo o sistema que havia antes da Era Thatcher. Até pq a ideologia do partido era outra. O chamado “New Labour Party” tinha a perspectiva de “aplicar aquilo que dá certo” (não se apegar a uma “ideologia ultrapassada” para se ater às discussões de propostas concretas). As medidas adotadas, portanto, ficaram muito aquém do que se esperaria do “Old Labour”. Mas políticas como national minimum wage, por exemplo, ainda que recuadas, foram importantes para jogar a Inglaterra numa direção diferente. É só conversar com qualquer pessoa que morou na Inglaterra nessas últimas décadas para notar que a população inglesa reconhece os avanços sociais nos anos 90 e 2000.

      Quanto à questão do déficit, muito bons os apontamentos que você fez. Sempre me recordo da crise na Grécia e de quem realmente acaba sofre com esse tipo de contenção de gastos (a população!). Na campanha do no shock doctrine tem sido dito repetidas vezes que cortar os gastos públicos não é preciso e que tal medida pode ser bastante perigosa tanto no aspecto social quanto no econômico. Ao que parece, o plano apresenta aumento de impostos também. No entanto, esse aumento também tem sido criticado. A previsão de aumento do imposto será realizada via VAT, que é um imposto regressivo (sendo, assim, os mais pobres que irão pagar mais).

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