Einstein: por uma economia solidária socialista

Por João Telésforo Medeiros Filho

Eu não conhecia o interessantíssimo texto de Albert Einstein, de 1949, postado pelo Gabriel ontem aqui: “Por que Socialismo?“. Após identificar no capitalismo, na propriedade privada dos meios de produção (que “tende a se concentrar em poucas mãos”), “a verdadeira fonte dos males” da nossa sociedade, o homem que se tornou símbolo de genialidade no século XX aponta uma saída:

Esta mutilação dos indivíduos é o que considero o pior mal do capitalismo. Nosso sistema educativo como um todo sofre este mal. Uma atitude exageradamente competitiva se inculca no estudante, que é treinado para adorar o êxito da aquisição como uma preparação para sua futura carreira.

Estou convencido de que há somente uma forma de eliminar estes graves malefícios: através do estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educacional que seja orientado para fins sociais. Em tal economia, os meios de produção são propriedade da própria sociedade e utilizados de maneira planejada. Uma economia planejada, que ajuste a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho entre todos aptos a trabalhar e garantiria os meios de vida de todos, homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, além de promover suas próprias habilidades inatas, intentaria desenvolver em um sentido de responsabilidade por seu próximo, em lugar da glorificação do poder e do êxito em nossa sociedade atual.

Sem embargo, é preciso recordar que uma economia planificada não é todavia o socialismo. Uma economia planificada como tal pode ser acompanhada pela completa escravização do indivíduo. A realização do socialismo requer a solução de alguns problemas sócio-políticos extremamente difíceis: ‘como é possível, considerando a muito abarcadora centralização do poder, conseguir que a burocracia não seja todo poderosa e arrogante? Como podem proteger os direitos do indivíduo e mediante ele assegurar um contrapeso democrático ao poder da burocracia?’

Ter claras as metas e problemas do socialismo é de grande importância nesta época de transição. Dado que, nas circunstâncias atuais, a discussão livre e sem travas destes problemas são um grande tabu, considero a fundação desta revista um importante serviço público.

O socialismo defendido por Einstein, portanto, não é o socialismo de Estado, de tipo soviético. O modelo socialista proposto por ele assenta-se não num Estado centralizador potencialmente autoritário, mas em indivíduos livres que procuram planejar a atividade econômica para atender as necessidades de todos.  Solidariedade, responsabilidade por si (ignorada pelo paternalismo do estatismo exacerbado) e pelos outros (alheia ao sistema capitalista) seriam as propulsoras desse modo de organizar a economia.

Ora, esses são princípios fundamentais da economia solidária! A Wikipédia a define bem, de modo sintético:

“Economia solidária é uma forma de produção, consumo e distribuição de riqueza (economia) centrada na valorização do ser humano e não do capital. Tem base associativista e cooperativista, e é voltada para a produção, consumo e comercialização de bens e serviços de modo autogerido, tendo como finalidade a reprodução ampliada da vida. Preconiza o entendimento do trabalho como um meio de libertação humana dentro de um processo de democratização econômica, criando uma alternativa à dimensão alienante e assalariada das relações do trabalho capitalista.”

A economia solidária não pretende substituir a função do Estado de prover serviços públicos de qualidade para todos – saúde, educação, moradia, transporte, etc. Não se confunde com o chamado “terceiro setor”, ou com práticas de filantropia ou caridade para compensar efeitos nocivos do mercado capitalista. Seu ambicioso objetivo é romper com a busca do lucro, a competitividade, o individualismo e a alienação do trabalho assalariado, instaurando na prática um sistema de trabalho emancipado, autogestão do empreendimento pelos trabalhadores, cooperação com finalidade de atender as necessidades de todos e com respeito ao meio ambiente.

Talvez a economia solidária fosse a utopia de Einstein. Hoje, porém, não se trata apenas de um utopos, mas de uma realidade que existe e se expande, gerando emprego e renda, mostrando que é possível organizar a economia de modo alternativo: outra economia acontece!  Muitas dessas experiências são mapeadas e estimuladas pelo Fórum Brasileiro de Economia Solidária: http://www.fbes.org.br/(veja aqui os princípios do Fórum, que nasceu em 2001 sob a liderança do Paul Singer, Professor Titular de Economia da USP, e Secretário Nacional de Economia Solidária desde 2003).

Singer acredita que a economia solidária é revolucionária, por avançar na direção de um modelo econômico alternativo ao capitalismo, e oposto a ele em elementos essenciais. Reconhece, no entanto, que as experiências existentes encontram limitações importantes, pelo fato de serem (ainda?!) minoritárias em meio a uma economia hegemonicamente capitalista.

A tarefa da política, além de louvar essas experiências, é fortalecê-las. Como? Assunto para outros posts. Um novo modelo de educação, conforme propõe Einstein, é indispensável (exploraremos esse assunto aqui, futuramente).

Além disso, é preciso que as instituições incentivem formas inovadoras de produção econômica, mais capazes de valorizar e emancipar o trabalho, mais igualitárias e cooperativas – mais solidárias, em suma. Alguns posts aqui no blogue a esse respeito:

A emancipação pelos “commons”

Economia da sociedade em rede

Democracia empresarial

Outros virão…

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4 respostas em “Einstein: por uma economia solidária socialista

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