Governo Dilma à esquerda de Lula? Depende do PT.

Por Gabriel Santos Elias

Com forte possibilidade de ter a bancada no congresso fortalecida e diminuição do poder do PMDB, as chances de fazer um Governo mais à esquerda aumentam. Resta saber se o PT quer.

Três meses antes das eleições, Dilma está consolidada em primeira posição nas pesquisas de opinião. A desarticulação da oposição e o resultado positivo das estratégias eleitorais do PT geram um cenário quase perfeito para sua eleição. Ainda que em três meses muita coisa ainda possa mudar.

Com essa possibilidade duas informações me chamaram a atenção recentemente:

Primeiro, com a popularidade do Governo Lula, o PT bate o recorde de preferência do eleitorado. De acordo com levantamento feito pela Folha, a preferência dos eleitores pelo PT passou de 14% no auge da crise do Governo Lula para 25% quatro anos depois.  Pelo histórico feito pela Folha, a diferença entre a preferência do PT aferida pelo Datafolha e o percentual de votos do partido nunca superou 1,6 ponto percentual. Ou seja, se seguir essa lógica, o PT deve aumentar seus votos para os cargos proporcionais dos 15% de 2006 para 25% este ano.

Além dessa previsão, outro estudo feito pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) prevê aumento da bancada do PT no Senado dos atuais 11 senadores para por volta de 16 e prevê crescimento para partidos aliados de esquerda também, com redução das bancadas da oposição e do PMDB. Não bastasse a redução considerável da bancada do PSDB (de 13 para 8 ) e DEM (de 14 para 9 ), que deu trabalho ao Governo Lula, a redução da bancada do PMDB ainda que pequena (de 17 para 15) reduz a dependência parlamentar do PT às vontades desse partido conservador.

Essas duas informações dão esperança para os que crêem que o Governo Lula não conseguiu executar reformas estruturantes pela fraca base parlamentar. Com a base parlamentar forte, pode ser realmente que um possível Governo Dilma esteja mais à esquerda, com maiores e mais sustentáveis realizações. Agora, mais do que nunca, parece estar nas mãos do PT.

A questão é que um Governo não se faz apenas com números, mas com convicções políticas e compromissos políticos feitos no debate público e Dilma não tem mostrado exatamente o que pretende fazer com a maioria no congresso. Como lembrou bem o Alon, Obama, então candidato à presidência dos Estados Unidos, já havia dito quais reformas pretendia fazer em seu país. Hoje com a maioria parlamentar já conseguiu a implementação de duas importantes reformas, mesmo com fracos índices de aprovação de seu governo. O que o ajuda nas situações difíceis é dizer: “Fui eleito com essa plataforma, portanto estou legitimado pelo povo”. Mas com que plataforma Dilma será eleita (se for)?

Dilma tem a difícil tarefa de conciliar os interesses de seu partido, legitimados por um amplo processo interno, com os interesses dos partidos de Direita que compõem sua coligação. Inclusive, a negociação com o PMDB em cada estado foi em grande parte o que possibilitou o aumento da bancada petista e de partidos de centro-esquerda, basta ver o caso de Minas, em que cederam a disputa para o governo do estado à Helio Costa (PMDB) para consolidar a vaga do senado com Pimentel (PT).

A cobrança não é só por vagas. Está na mesa de negociação o discurso da candidata também. Já foram retirados, por exemplo, a defesa da redução de jornada para 40 horas semanais e o imposto sobre grandes fortunas, ao mesmo tempo em que foi defendida pelo PMDB a inclusão da possibilidade de cobrança de mensalidade em universidades públicas no programa.  Mas o resultado parcial dessa negociação é uma coisa meio amorfa, da qual só se pode ver o discurso de continuidade do Governo Lula, a defesa de seus resultados, números e tudo o mais. Precisamos de mais que isso, afinal o Governo Lula tinha uma base parlamentar fraca e não fez nenhuma reforma de fato.

Realmente espero que o próximo Governo seja melhor que o último. Acho que todos os brasileiros sempre vamos querer isso. Mas eu acredito que se Dilma pretende fazer um Governo melhor e aproveitar a possibilidade de ter uma maioria parlamentar como presidente, ela deve formalizar seus compromissos com a sociedade. Por isso a importância do debate público no processo eleitoral.

Se empurrar essa tarefa com a barriga e não assumir as pautas de esquerda durante as eleições, vai ser um problema bem mais sério querer fazer isso em um Governo compartilhado com a Direita.

Atualização 10/8, 16:53 – Eles fazem exatamente o contrário: Novo programa de governo de Dilma fica ainda mais genérico.

Twitter: @GSantelli

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