Consumo logo existo

Por Mayra Cotta

No livro Manifesto per la Felicità, o cientista político italiano Stefano Bartolini analisa o chamado “paradoxo da felicidade”, utilizado para se referir a uma possível correlação nula ou negativa entre felicidade e acesso a bens de consumo. De fato, a descoberta da possibilidade de se medir a felicidade, a partir do segundo pós-guerra, tem suscitado intensos debates nas ciências sociais e despertado um amplo interesse entre os economistas. Esses índices podem ser construídos de forma subjetiva – perguntando-se ao indivíduo se ele é feliz – ou objetiva – pela análise de dados relativos a taxas de suicídio, alcoolemia, drogas, distúrbios mentais, consumo de remédios psiquiátricos, etc. De modo geral, os índices sobre a felicidade apontam num mesmo sentido: a partir do segundo pós-guerra, a satisfação dos indivíduos pela própria vida não experimentou aumento significativo.

O publicitário suíço Frédéric Beigbeder deu uma declaração bem ilustrativa a esse respeito, ao afirmar que, em sua área de atuação, ninguém deseja a felicidade dos outros, uma vez que pessoas felizes não consomem. A própria mídia já vem analisando o paradoxo da felicidade, tendo o jornal The Economist defendido a atual organização econômica por meio do argumento segundo o qual a conquista do capitalismo é expandir o acesso aos bens de consumo, não tornar as pessoas mais felizes.

Ao longo do livro, Bartolini explora as possíveis causas para a infelicidade contemporânea, propondo, ao fim, algumas sugestões para superá-las. De acordo com o cientista político, o cerne do problema está no declínio da qualidade das experiências relacionais dos indivíduos, pois a felicidade sofre um impacto negativo maior pela pobreza relacional do que um impacto positivo pela riqueza dos bens de consumo. De fato, o dinheiro oferece muitas formas de proteção – reais ou ilusórias – da pobreza de relações pessoais: se temos poucos amigos e a cidade está perigosa, podemos nos divertir em casa como um home-entertainment; se o clima frenético e insuportável das nossas vidas e das nossas cidades nos angustia, podemos sair de férias para algum paraíso tropical; se brigamos com o vizinho, podemos contratar um advogado para resolver; se nos sentimos inseguros, podemos proteger nosso bens com alarmes, blindagem e segurança privada.

O autor ainda analisa o papel do aumento das horas de trabalho na configuração do paradoxo da felicidade. Afinal, por que trabalhamos cada vez mais se mais dinheiro não parece trazer mais felicidade? Essa questão aparece também no filme A História das Coisas, que mostra de forma bem interessante o círculo no qual as classes que mais consomem estão presas: trabalhar muito, assistir propagandas, consumir os produtos das propagandas, trabalhar mais para poder ter mais dinheiro, assistir mais propagandas, consumir mais os produtos das propagandas. Se nos sentimos mal, insatisfeitos, podemos buscar um alívio no consumo, no sucesso profissional, no trabalho. As nossas angústias são resolvidas no ato da compra: consumo logo existo.

Essa perspectiva apresentada por Bartolini não deve ser vista como uma ode à pobreza ou como um hipócrita argumento segundo o qual é melhor ser pobre do que ser rico, pois ao menos se é mais feliz.  É importante entender, contudo, que a expansão do acesso a bens de consumo, sustentado por um modelo de desenvolvimento ligado à idéia de crescimento econômico, é um caminho que precisa ser questionado. Isso porque, na lógica capitalista, a ampliação da capacidade de consumo, além de ter um custo social alto, aprofundando as desigualdades na distribuição deste consumo, e exigir uma exploração irresponsável de recursos naturais, também não aumenta a satisfação das pessoas em relação às suas próprias vidas. Necessário, portanto, pensar em como desenvolver o bem-estar para muito além do aumento da capacidade de consumir.

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