Às raízes da violência: consumismo e desigualdade

Por João Telésforo Medeiros Filho

Combine desigualdades sociais extremadas com uma cultura altamente consumista, e você fatalmente terá uma sociedade com elevados índices de violência e corrupção.

Creio que Aristóteles tinha razão quando disse, há alguns milênios, que a maioria dos crimes é motivada pela busca do supérfluo, e não por necessidades básicas de sobrevivência. Isso se torna ainda mais verdadeiro à  medida que o consumo do supérfluo se torna crescentemente vital à constituição da identidade social do indivíduo. Quanto mais consumista e desigual for uma sociedade, portanto, maior será o incentivo à criminalidade: se é preciso consumir  bens caros para ter valor, poder e status na sociedade (e inclusive para reconhecer a si mesmo como alguém de valor), a enorme massa de pessoas excluída economicamente dessa possibilidade ficará fortemente tentada a procurar a via da violência  – e da corrupção, umas de suas formas mais perversas – para conseguir obter os bens que lhe farão ser e sentir-se incluída segundo os padrões do sistema social hegemônico.

Compreender isso não é justificar qualquer crime, mas entender que a utilização do sistema penal – polícia, prisões, etc – para coibir a violência não pode ter um efeito senão superficial, pouco eficaz, diminuto, na melhor das hipóteses (pois talvez ela até agrave o problema, dado o caráter seletivo desse mesmo sistema, que reforça a estrutura de concentração/exclusão). É preciso, pois, atacar a questão em suas causas.

Não serei hipócrita de dizer que não vou chamar a polícia se roubarem meu carro. Porém, isso não resolve o problema, ainda que prendam o malfeitor: outros aparecerão. Acreditar que o sistema penal é solução é como supor que se pode fazer cessar uma enorme hemorragia usando-se um bandeide… Parece-me falsa a ideia de que a grande causa da violência seja a impunidade: a da corrupção, dos crimes de colarinho branco, pode até ser, sim. Porém, para outros crimes, não, porque o fato é que muitos sabem até do alto risco de acabar morrendo – com tiro de um concorrente ou de policial – ao optar pela vida criminosa, tem ciência, em certos casos, que provavelmente terão uma vida curta… Lembrem-se do documentário Falcão: meninos do tráfico, no qual um menino traficante de drogas afirma: “Se morrer, nasce outro que nem eu, pior ou melhor. Se morrer, vou descansar“. O problema não é de impunidade…

É preciso, pois, ir às raízes: combater a concentração de oportunidades, poder e riquezas, garantir iguais direitos a todos, e construir uma nova cultura, alternativa ao consumismo hegemônico. No próximo post, domingo que vem, levantarei algumas possíveis ações e políticas para avançarmos nesse sentido. Contracultura já!

http://twitter.com/JTelesforo

PS: ver também, sobre esse assunto, aqui no blogue:

A violência como fracasso da política

Punir mais agrava a insegurança

Serra: O Brasil pode mais. Mais presídios, mais do mesmo.

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