Os intelectuais e a transformação social

Por Gabriel Santos Elias

Quando falamos de intelectuais nos vem a imagem de pessoas iluminadas, com extenso conhecimento formal vindos de anos de longas leituras das obras mais clássicas – ou nem tanta leitura, mas pelo menos um vocabulário extenso de palavras difíceis revestidas de conceitos, e uma aparência nobre.

Para trabalharmos a importância dos intelectuais em uma condição de profunda transformação social temos que buscar outra idéia de intelectual. Devemos ir muito além das instituições acadêmicas formais: notas, currículos, títulos.

Para Gramsci, intelectual italiano que melhor teorizou sobre esse aspecto, “todo homem, fora de sua profissão, desenvolve uma atividade intelectual qualquer, ou seja, é um ‘filósofo’, um artista, um homem de gosto, participa de uma concepção do mundo, possui uma linha consciente de conduta moral, contribui assim para manter ou para modificar uma concepção do mundo, isto é, para suscitar novas maneiras de pensar.”[1]

Não há um tipo único, universal, de intelectual. Cada grupo social forma e deve formar seus intelectuais. São os intelectuais orgnânicos. O problema é que geralmente os demais grupos sociais se submetem e reproduzem o pensamento e a forma de se pensar do grupo social hegemônico.

A grande contribuição de Gramsci nesse sentido é de ampliar a ideia de intelectual incluindo nela o que hoje chamamos de conhecimento popular, aquele que é adquirido através das próprias experiências pessoais e acumulado ao longo da vida. Assim, as classes populares formam e devem formar seus intelectuais de forma autônoma. Para isso, o intelectual não necessariamente é formado nos espaços formais da sociedade, mas deve levar consigo o pensamento crítico a respeito da realidade com a perspectiva de transformação, para a qual a Práxis[2] é um elemento essencial.

E qual é o papel do intelectual nessa perspectiva transformadora? Para Gramsci esse papel seria de formar o Bloco histórico, unindo a super-estrutura à estrutura. Ou seja, levar os verdadeiros problemas da sociedade (que segundo ele eram as relações econômicas de exploração) ao debate político e cultural na construção de uma contra-hegemonia. Assim, os intelectuais são mobilizadores e sua função deve ser fazer com que seu grupo social seja capaz de formar mais e mais intelectuais.

Paulo Freire mais uma vez adiciona elementos que contribuem muito para a atualização do pensamento de Gramsci. Acredito que o conceito de diálogo seja o melhor deles. Em sua prática pedagógica libertadora, Freire diz que ninguém se educa sozinho, da mesma forma que ninguém simplesmente educa o outro. O processo pedagógico é dialógico Se aprende junto. Para isso o reconhecimento da importância conhecimento popular, o conhecimento gerado pela própria classe explorada, como disse Gramsci, é essencial. Por que não adianta crer que o seu conhecimento, ou sua ideologia, são os fundamentais para a mobilização das pessoas com as quais o intelectual pretende trabalhar. No processo dialógico o reconhecimento do outro como sujeito é essencial. Assim, você não leva conhecimento, mas constrói coletivamente o conhecimento através da reflexão e da prática política inserida na práxis.

O próprio Gramsci já reconhecia a importância desse método: A elaboração de uma visão organizada de mundo não se faz arbitrariamente em torno de uma ideologia qualquer, vontade de alguma personalidade, de grupos fanáticos filosóficos ou religiosos. A não adesão ou adesão da massa a uma ideologia demonstra a crítica da racionalidade histórica dos modos de pensar. As construções arbitrárias são as primeiras a serem eliminadas na competição histórica; já as construções que correspondem às exigências de um período histórico complexo e orgânico terminam sempre por se impor e prevalecer.”[3]

Portanto, temos que ter claro em nossa formação a atenção que deve ser dada aos problemas da nossa sociedade, com a perspectiva de transformação. Além disso, temos que ter claro que, sozinhos e com nossos livros apenas, não será possível ter a compreensão exata desses problemas. Essa transformação social, que ainda parece tão abstrata, deve ser elaborada coletivamente, reconhecendo o outro também como sujeito dessa transformação. Aqui não cabem lideres messiânicos e personalistas. O papel do intelectual é o papel mobilizador. Ele não deve buscar se diferenciar com qualquer eloquência em busca de brilho e prestígio. É papel do intelectual contribuir para a formação de mais e mais intelectuais, capazes de desenvolver uma perspectiva crítica, com o objetivo de transformação da nossa realidade.


[1] Gramsci, Antonio. Cadernos do cárcere. Ed. Civilização Brasileira, v. 2, 2001, Pág. 53

[2] A união do pensamento crítico filosófico à prática política.

[3] Gramsci, Antônio. Introdução ao estudo da Filosofia. A Filosofia de Benedetto Croce. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. Pag 111

http://twitter.com/GSantelli

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