Gramsci e Freire, uma combinação necessária

Por Gabriel Santelli

Experimentando seu método pedagógico-político em Guiné-Bissau, o educador brasileiro Paulo Freire entrou em contato pela primeira vez com o pensamento de Gramsci. Nesse momento, diz ele que se deu conta de que era Gramsciano antes mesmo de saber.

A verdade é que o pensamento desses dois intelectuais se complementa em uma contribuição muito importante para nossa ação política voltada à transformação da realidade.

Primeiramente, ambos se baseiam na práxis, na união da filosofia à prática política. Ou seja, a filosofia contribui para a ação política da mesma forma como esta, no contato com a realidade prática, contribui para o aprofundamento do pensamento crítico-filosófico. A práxis foi fundamental para que Gramsci e Freire desenvolvessem pensamentos inovadores para os que buscam a transformação social.

A grande sacada de Gramsci foi a percepção da importância dos aspectos políticos e culturais para a transformação social, antes o pensamento marxista estava dominado pelo determinismo histórico-econômico do velho Marx. Com o foco na política, Gramsci percebeu que sem atingir uma transformação filosófica, política e cultural na sociedade civil seria muito difícil tomar o aparato estatal e, através dele, fazer a revolução desejada. Em sociedades capitalistas avançadas – como a nossa – a sociedade civil tem uma capacidade enorme de barrar a transformação de cima pra baixo. Mas o que seria essa sociedade civil? Todas as organizações capazes de influenciar o pensamento político e cultural da população, entre elas a Igreja, a escola, os meios de comunicação, entre outros, considerados por Gramsci uma extensão do Estado (Estado ampliado) na manutenção da hegemonia dominante.

Paulo Freire aprofunda o pensamento de Gramsci, complementando a noção de hegemonia na perspectiva de transformação e autonomia do povo como contra-hegemonia. Além disso, Paulo Freire amplia o conceito de Classe, passando de proletários ao que ele chama de esfarrapados, a quem ele inclusive dedica seu mais famoso livro, Pedagogia do Oprimido. Os esfarrapados para Freire são os sem-terra, os desempregados, os sem teto. Os esfarrapados estão excluídos do sistema, mas são tão ou mais oprimidos que os próprios proletários à que Marx se referia.

Com base nisso, Freire persegue a construção de um método de emancipação do povo por si mesmo. A libertação segundo ele é proporcionar o desvelamento da própria realidade, que só tem sentido se o objetivo for transformá-lo. Somente através do fortalecimento coletivo e autônomo o povo é capaz de romper as amarras da opressão que lhes é imposta. Nesse ponto, as idéias de Gramsci e Paulo Freire se sobrepõem, pois todo o trabalho que Freire busca esmiuçar é basicamente o conceito que Gramsci apresentara de “catarse”: a transformação do indivíduo passivo e dominado pelas estruturas econômicas em sujeito ativo e socializado capaz de tomar iniciativa e se impor com um projeto próprio de sociedade.

A catarse de que falava Gramsci era o objetivo de Paulo Freire desde o início, com seu famoso projeto de alfabetização como instrumento de emancipação autônomo do povo.  Esses dois militantes do século passado têm muito a contribuir com a ação política dos militantes do século XXI. Devemos ter como base a práxis para, através da catarse construir uma hegemonia capaz de realizar a transformação social na qual o povo se liberte da opressão.

Em um próximo texto pretendo falar do papel dos intelectuais nessa perspectiva da transformação popular com base também em Gramsci e Freire.

http://twitter.com/GSantelli

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2 respostas em “Gramsci e Freire, uma combinação necessária

  1. Lembrando do aspecto da ideologia que ambos colocavam. Que segundo Paulo Freire o Opressor habita o oprimido. Ou seja não é necessário smente se libertar da opressão q sofre materialmente, mas sim, e principalmente, se libertar da ideologia que conduz o opressor a pensamentos idividualistas e mesmo burgueses..

  2. Fantásticos! Humanistas e lúcidos, devem ser estudados á exaustão com o objetivo de compreender que enquanto não nos libertarmos do pensamento de valorização de hierarquias, não nos veremos como sujeitos de uma só história… a história de sermos seres humanos não por acaso, e que por isso devemos potencializar essa humanidade.

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