Os mitos e obstáculos no enfrentamento da violência doméstica contra a mulher

Por Mayra Cotta

Há diversos mitos e obstáculos que devem ser superados no enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a mulher, sendo necessário, para tanto, identificá-los e enfrentá-los. Apenas dessa forma, abre-se o caminho para a compreensão da complexidade do tema, possibilitando o entendimento das dificuldades encaradas por uma mulher em situação de violência doméstica e familiar, dificuldades estas que, muitas vezes, colocam a sua própria saúde física e psicológica em risco.

Na tentativa de se encontrar relações causais para a violência doméstica, muitas explicações simplistas foram sendo construídas, desconsiderando-se a complexidade do fenômeno. E, assim, surgiram os mitos, que constituem verdadeiros obstáculos ao enfrentamento da questão. O primeiro mito que se pode apontar é que a violência doméstica afeta uma pequena parcela da população. Ao contrário, diversas são as pesquisas que apontam para as dimensões alarmantes que este problema social possui, demonstrando que uma parcela considerável da população feminina já sofreu agressão física ou sexual por um parceiro íntimo na vida.

O segundo mito que cerca a violência doméstica, e talvez o mais insultante, diz que mulher sem situação de violência gosta de apanhar ou provoca o parceiro. Freqüentes são as manifestações nesse sentido, presentes não apenas no senso comum – reforçado por ditados populares e músicas – como entre os profissionais que lidam com este problema. Essa simplificação equivocada – para dizer o mínimo – não leva em conta os diversos e complexos fatores que podem levar à mulher a continuar no relacionamento. Em alguns casos, a mulher em situação de violência doméstica não possui condições para se sustentar por conta própria ou, ainda, sente-se eternamente comprometida aos votos do casamento. Isso sem considerar a ligação emocional que impede as mulheres agredidas de saírem facilmente de um relacionamento violento

As mulheres agredidas que permanecem num relacionamento violento não podem ser consideradas culpadas ou cúmplices, nem mesmo é possível dizer que consentem com a violência. Para que isso fosse verdade, as mulheres precisariam ter, no âmbito doméstico, o mesmo poder que os homens, o que não acontece. Além disso,  as mulheres freqüentemente não ficam passivas à situação de violência, mas reagem a ela, passando a maior parte de seu tempo tentando evitá-la. Com freqüência, inclusive, elas carregam a esperança de conseguir transformar seu relacionamento.

A pressão exercida sobre as mulheres no sentido de responsabilizá-las pela “harmonia do lar” acaba por gerar, em diversas situações, uma profunda culpa, que as mantém presas a uma dinâmica relacional violenta. No livro “As mulheres do tráfico”, MV Bill e Celso Athayde entrevistam a mãe de um “falcão” que recentemente havia sido assassinado por causa de um desentendimento com um grande traficante. Em sua fala fica evidenciada a culpa que as mulheres sentem pelos desastres ocorridos com seus familiares, ainda que decorrentes de circunstâncias alheias ao espaço doméstico e incontroláveis por sua vontade:

Mãe: As mães têm que aconselhar muito os filhos, ta mais presente, sempre que tiver em casa conversar mais com o filho, dar mais conselho. Porque hoje eu vejo que lutei muito pouco pelo meu filho. Eu tinha que ter lutado mais. Muito mais. Tinha que ter dado um jeito de ter ficado mais com ele, para dar mais conselho pra ele. (…) Eu fui o pai e mãe deles. Hoje eu vejo que eu não lutei nada pelo Diogo, porque ele morreu criança, não deu tempo de eu fazer muita coisa por ele. Hoje vejo que de certa maneira eu ajudei a matar o meu filho, e isso é o que mais me dói.

Da mesma maneira como este mito tende a psicopatologizar as mulheres, um terceiro mito pretende fazer o mesmo em relação aos homens, afirmando-se que o agressor é uma pessoa louca ou doente. Essa abordagem acaba por desresponsabilizar o homem por seu comportamento violento, corroborando desculpas para justificar as agressões, desculpas estas aceitas não apenas por ele, como também por sua companheira.

Neste caminho, surgem os mitos que trazem o álcool como a principal causa da violência. De fato, os episódios mais graves, em geral, parecem acontecer quando o agressor está sob influência do álcool, mas este não pode ser considerado como elemento causal da violência. Percebe-se que, de modo geral, outras formas de violência, especialmente a moral e psicológica, acompanham o cotidiano do casal, para além dos episódios de violência física que ocorrem quando há bebida alcoólica envolvida.

Outro mito bastante presente nas explicações simplistas acerca da violência doméstica contra a mulher aponta este fenômeno como reflexo da cultura da pobreza. Não se pode esquecer que as classes média e alta possuem formas bastante próprias e exclusivas para exercer a violência de gênero, como o uso do patrimônio e a ameaça de empobrecimento. Além disso, nas classes altas, em geral, busca-se a todo custo resguardar o status social, encobrindo-se sistematicamente a violência. Nas classes baixas, pode-se dizer que as mulheres agredidas não teriam tanto a perder com a publicidade de sua situação, o que as levariam a denunciar com mais freqüência.

Todos esses mitos precisam ser escancarados e superados, uma vez que, de forma velada, acabam influenciando o modo pelo qual a sociedade e os profissionais lidam com a violência doméstica contra a mulher. Certamente diversas são as omissões decorrentes destes estereótipos, que acabam se transformando em verdadeiros obstáculos para a solução das situações de conflito.

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6 respostas em “Os mitos e obstáculos no enfrentamento da violência doméstica contra a mulher

  1. sou totalmente contra a violência domestica pois tamb´´em somos seres humanos e trabalhamos por que necessitamos.
    estudo pedagogia mas no momento sou doméstica meus patrões são otimos,
    são verdadeiramente uma familia para mim.
    mulher ser vencedor e de cracter elevado,
    eu
    tenho orgulho de ser o que sou

  2. Sou mulher e me indigno contra qualquer violência seja verbal, física, sexual ou psicólogica vinda de seus companheiros. Nós mulheres já conquistamos nossos direitos na sociedade e está na hora de seguir a risca a lei que nos protege. Sou casada, não sofro agressões do meu companheiro mais tenho amigas que sofrem esse tipo de coisa e têm medo de soltar a voz . Isso é triste.

  3. Fico triste quando fico sabendo de alguma noticia referente a violência doméstica, pra mim não existe desculpas ou explicações, só existe maldade e falta de carater da parte do agressor.

  4. Sou toatalmente contra qualquer tipo de violência contra mulher saja ela verbal ou sexual seja qual for, mulher merece respeito, carinho e atenção. Temos que combater a violência, a cada dia que passa são inúmeros casos de violência e o pior é que além de bater eles matam destroem uma familia,vamos denunciar não acorbetar a violência o agressor tem que ser preso e pagar pelos ses atos.

  5. Não é possivel que,nós mulheres que já conseguimos conquistar o nosso espaço perante a sociedade,possamos admitir sermos desrespeitada nem de forma verbal,nem muito menos física,não podemos compactuar ou sermos coniventes com tais atitudes,DIGA NÃO A VIOLÊNCIA!!

  6. A mulher nasceu com todos os requisitos para ser vencedora. Só precisa tomar conhecimento do valor que representa a coragem de querer. Somos mulheres devemos lutar por nossos direitos.Cada defesa um ,GOL!

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