Eu é outro

Gustavo Capela

Arthur Rimbaud, em carta escrita a Paul Demeny, em Maio de 1871, cravou que entender a si próprio é entender o outro da mesma forma que entender o outro é um processo de auto-entendimento. Apesar de já passados mais de um século, parece que a mensagem não foi bem ouvida.  É comum, por exemplo, que grupos e facções ideológicas usem de uma suposta autoridade para blindar argumentos dos outros, para impedir e anular a existência e o consequente  fazer-se do outro. Se Rimbaud estava certo, e suponho que estava, a execução de um outro, sua eliminação, é sempre um ato de auto-flagelo. Isso é ainda mais verdadeiro em uma democracia. A democracia é um ambiente político no qual o entendimento do outro é seu escopo principal, onde minha verdade é tão verdadeira quanto a minha vontade de expô-la ao debate público.

Assim, é interessante lembrarmos com frequência o que buscamos quando exigimos entendimento sem empenho, sem percepção e, principalmente, sem abertura ao outro. Nem sempre falamos o que pensamos estar falando, nem sempre passamos a mensagem que queremos passar e nem sempre estamos tão certos quanto nossa convicção. Um sistema político que constrói seu ambiente público a partir da premissa de que é necessário permitir e respeitar, antes de tudo, a própria abertura à existência do plural invoca um mundo com menos desigualdes e mais solidariedade com o próximo. Acredito que, no fim das contas, esse conto-de-fadas é algo a se almejar para que possamos impedir que a ignorância (desprezo pela inclusão do diferente) perpetue a troca de uma ditadura por outra.

Dizia Rimbaud:

Com efeito, EU é outro. Se o cobre acorda clarim, a culpa não é dele. Para mim, é evidente: assisto à eclosão do meu pensamento: fito-o escuto-o: dou com o golpe de arco no violino: a sinfonia tem um estremecimento nas profundidades ou salta de súbito para a cena.

Se os velhos imbecis não tivessem encontrado do Eu apenas o significado falso, não teríamos que varrer esses milhões de esqueletos que, há um tempo infindo, acumularam os produtos da sua inteligência vesga, proclamando-se seus autores!

Informações sobre Arthur Rimbaus retiradas de: http://www.lunaeamigos.com.br/poetadomes/arthurrimbaud.htm

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