O Medo como anti-proposta.

Por Gabriel Santos Elias

“Eu tenho medo”

Quem não se lembra dessas desprezíveis palavras proferidas por Regina Duarte nas eleições de 2002? Ela usou o medo para inflar o sentimento preconceituoso da classe média brasileira em relação ao candidato que viria a ser o primeiro operário eleito presidente da república.

Passados 8 anos, nessa última semana fui ao CONCLAT, evento organizado pelas principais centrais sindicais brasileiras que contou com a presença de 23.000 pessoas no estádio do Pacaembu, em São Paulo. Das palavras dos representantes sindicais, os maiores nomes do sindicalismo brasileiro, tudo o que ouvi foi o discurso do medo. “Nâo podemos deixar que os tempos de FHC e Serra voltem ao Brasil”, foi o que mais ouvi. Não consegui identificar nos discursos o que querem realmente os trabalhadores brasileiros. Um bom conjunto de propostas organizado pelo DIEESE ficou em segundo plano.

Concordo que, do ponto de vista dos movimentos sociais, é extremamente temerosa a idéia de que regressemos ao nível de criminalização e restrição de direitos a que fomos acometidos no período anterior a Lula. Concordo também com a avaliação de que, com a vitória de Serra, há uma chance real de que boa parte desses aspectos voltem a dominar a relação do Governo com os movimentos sociais.

A pergunta que faço, no entanto, é a seguinte: O máximo que a esquerda brasileira e os trabalhadores do país querem são os limitados avanços do Governo Lula? Devemos nos contentar com o modelo agrário, concentrador, monocultor, voltado para a exportação, sustentado pelo Governo? Estamos satisfeitos com o sistema político que favorece os mais ricos e exclui as organizações populares do poder de fato? E do sistema financeiro que usurpa um terço de todos os gastos públicos para o pagamento da dívida pública brasileira, nada temos a falar?

A preocupação da esquerda com o retrocesso do Governo PSDB/DEM é legítima. Mas o problema central é que o discurso do Medo esconde todas as demandas e insatisfações que ainda temos a conquistar. E o pior de tudo é que esse discurso do medo legitima a lentidão nos avanços sociais da coalizão encabeçada pelo PT no Governo Federal.

Temos que ter sempre em mente que por mais que o Governo seja liderado por um partido dos trabalhadores, dele também participa boa parte dos grupos que faziam parte do governo anterior – contra os trabalhadores. Por mais que seja um governo de esquerda, existe um forte setor dentro do próprio governo que é deliberadamente de Direita e barra os avanços sociais, favorecendo prioritariamente grandes empresários, grandes proprietários de terra e banqueiros. A esquerda deve apoiar e sustentar os avanços sociais alcançados pelo Governo Lula, mas deve também criticar suas debilidades, sem medo de “fazer o jogo da direita”. Se a pauta da esquerda é eleger Dilma presidente para avançar nas pautas de esquerda, a esquerda tem que estar fortalecida dentro do governo. Quando o discurso do medo se sobrepõe, a esquerda propositiva que pretende avançar nas conquistas sociais é que perde.

Além disso, temos que lembrar também que, por mais que o PT encabece o poder executivo, os outros poderes ainda estão dominados pelo clientelismo e conservadorismo. Devemos pressioná-los tanto no legislativo quanto no judiciário, pois sem força no legislativo – respeitando as regras democráticas – não se avançará em nenhuma pauta de relevância para a esquerda, ao mesmo tempo, se o executivo não tiver força e respaldo social, o judiciário avançará com o conservadorismo ainda reinante nesse espaço sobre as conquistas sociais implementadas.

O desafio para a esquerda é grande. Temos que ter cautela para que não contribuamos com o retrocesso político no país, mas temos que ter acima de tudo o foco nos avanços idealizados por nós e muita CORAGEM para que alcancemos transformá-los em realidade. Sob a capa do MEDO nenhum avanço será alcançado e estaremos condenados a nos contentar com a situação atual, sem qualquer perspectiva de avanço.

As demandas da esquerda e dos movimentos sociais devem estar sempre à frente de quem está a frente dos poderes instituídos. Nosso papel é pressionar. Ao recuarmos damos espaço para que avancem sobre nossas conquistas. O discurso do medo é o verdadeiro jogo da Direita.

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5 respostas em “O Medo como anti-proposta.

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  4. Bem bacana a análise. Concordo que a prática de ficar na defensiva é o verdadeiro jogo da direita, que irá trazer o falso discurso da mudança e do avanço. É a hora da esquerda analisar esse grande risco e mudar de estratégia.

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