A nova velha esquerda

Ana Rodrigues

“Este texto surgiu após uma exaustiva reflexão pessoal sobre o sentido da revolução. Para repensar alguns posicionamentos, tomei como ponto de partida algumas perguntas: Revolução para quê e para quem? Quais são os autores e atores? Ambos existem? Os métodos que estão postos são aplicáveis? Como reinventar o socialismo? A história pode se repetir? Sonhar faz sentido quando se insiste em sonhar só? Tento, de forma por vezes confusa, responder algumas dessas questões. Embora tenha partido de uma situação pontual como a nova conformação da disputa de poder entre a esquerda revolucionária (PSOL, PCB e PSTU), acredito que as indagações e respostas postas aqui refletem uma posição de acreditar que é possível fazer uma mudança profunda na sociedade (que não tem outro nome senão revolução), mas que esta deve partir dos pressupostos do diálogo e do convencimento com vistas a ampliar constantemente a democracia e a participação.”

Os últimos contatos que tive com a esquerda revolucionária que se constituiu no cenário político eleitoral brasileiro me expuseram a ouvir mais do que queria. Mais do mesmo. Os partidos pequeninos, que advogam o slogan de um programa socialista, na incapacidade de chegar a um consenso, decidiram cada um, lançar seu próprio candidato sem o mínimo de acúmulo político para tal. A Frente de Esquerda, oposição ao governo Lula, articulada em 2006 em torno da candidatura de Heloísa Helena (PSOL), se desfez e o cenário não é mais senão o mais pobre e despolitizado que já houve no passado recente.

Os partidos de esquerda perderam a referência, isso fica claro na ausência de um programa concreto e na caracterização das candidaturas como “anti-candidaturas” no sentido de pautar o debate socialista na mídia de 4 em 4 anos. A questão é que essa forma de dialogar com a sociedade não disputa a hegemonia do senso comum, que é conservador. Não é uma forma pedagógica de expor às pessoas a verdadeira importância da construção de uma sociedade com igualdade. Além disso, a vagueza e a abstração com que o tema é abordado esgotam o menor potencial de envolvimento das partes mais interessadas: os trabalhadores e a pequena burguesia, ambos explorados.

O discurso maniqueísta sob o qual o socialismo e até mesmo o próprio marxismo são colocados condena a mínima discordância ao reformismo político, que, de acordo com essa perspectiva de esquerda, está representado por outro quadro no cenário eleitoral. Nesse sentido, adotou-se a estratégia reducionista e apropositiva de atacar a gestão de Lula e condenar suas reformas sociais como algo pernicioso à sociedade e ao Estado. Ora, convenhamos que essa não é, nem de longe, a melhor estratégia para partidos que querem conquistar (e dependem disso para acumularem forças) as massas. Isso porque não existe partido sem base de apoio e para os que alimentam o desejo de revolução isso é ainda mais óbvio. Não se faz revolução na academia, onde, por sinal estão os grandes pensadores dessa esquerda. Até porque a academia não é um espaço irradiador unilateral do conhecimento e das ações práticas. Ao contrário disso, a academia é elitista e conservadora no seu estado de bem-estar individualista e autocrático e, em poucos momentos, efetivamente dialoga com o senso comum.

Quanto a Lula, cabe avaliar qual é o sentido das críticas aos 8 anos de governo. Certamente as divergências são importantes e deveriam ter caráter propositivo, pelo bem da própria sociedade. E porque não fazer isso? A alternativa mais estúpida combina também com a mais orgulhosa, que é exatamente o não reconhecimento dos avanços nas questões sociais. Dizer ao cidadão faminto que educação é importante e que o socialismo reivindica a coletivização da terra para a produção de alimento e não de mercadoria pode até convencê-lo, mas quando ele indagar sobre quanto tempo isso levará e o militante responder a ele que não sabe ou que não dá pra prever, o cidadão abandonará o socialismo sem a menor sombra de dúvidas.

Não parece justa a forma como essas minorias querem promover o socialismo, como se o condenassem ao ostracismo dos redutos detentores do poder do conhecimento e a capacidade de aplicá-lo sobre tudo e todos. O curioso é que essa é a forma de fazer revolução sem desestruturar as formas de dominação do capitalismo. Uma forma de reformular o Estado burguês dentro dos marcos de uma nova política econômica e social.

E a quem serve tudo isso? A quem serve a radicalização e a fragmentação da esquerda? A desarticulação da esquerda serve à proeminência da direita com um discurso conservador e moderado. E o discurso elitista dos socialistas? Bem, esse serve a dois fins: à direita que adota o viés do populismo e conquista muito mais as pessoas e a esses próprios socialistas, que, livres do desencargo de consciência que a luta de classes lhes impõe, assumem que querem efetivar a disputa de poder num espaço ainda mais restrito que o já reduzido da democracia representativa.

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Sobre Ana Rodrigues

Ana é uma criatura insurgente contra as idéias consagradas que permeiam a sociedade. Graduanda em Agronomia, tem colaborado em trabalhos que contemplam o caráter social e distributivo da agropecuária. Atuou em pesquisa científica junto à Fundação Banco do Brasil orientada por professores do Centro de Desenvolvimento Sustentável, estagiou no Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural do Ministério do Desenvolvimento Agrário e colaborou com o Projeto Precoce (extensão) durante um semestre. Atualmente realiza pesquisas acadêmicas em Agricultura Orgânica e colabora em trabalhos de Paisagismo. Inicia uma nova etapa pessoal na militância política com a consciência de que muito ainda precisa ser feito para de fato construirmos o desenvolvimento capaz de promover justiça social no Brasil.

3 respostas em “A nova velha esquerda

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