Para os que ainda acreditam que a homofobia não é uma doença recorrente

Por Gustavo Capela

Hoje houve protesto na UnB contra a homofobia. Foi promovido um “beijaço” na Faculdade de Tecnologia devido aos constantes atos homofóbicos ali perpetrados durante os trotes-nada-solidários.

Uma matéria do correio braziliense ( http://www.correioweb.com.br/euestudante/noticias.php?id=11173) sobre o ato demonstra bem o que muitos pensam sobre o preconceito no Brasil. Uns acreditam que ele não existe, outros que as minorias “exageram” em suas manifestações e, outros, que o melhor caminho para a aceitação é segregar os interesses. Comungam com a possibilidade da existência do diferente desde que essa diferença ocorra em espaços que eles não freqüentam.

A matéria mostra que até em um ambiente supostamente mais aberto ao diferente, como deveria ser a Universidade, as pessoas reproduzem as ignorâncias culturais que afastam os que pensam, agem, ou vivem de forma diferente do status social. Status que, diga-se de passagem, não condiz com a realidade plural e excêntrica que envolve o ‘ser-brasileiro’. Se na Universidade não nos damos ao luxo de nos abrirmos ao outro, de enfrentar nossos preconceitos, como, então, enfrentaremos demandas sociais tão diversas e tão plurais quanto as que existem em nossa sociedade? Impondo o certo e o errado? Determinando como as pessoas devem “buscar a felicidade” ?

O intuito democrático elencado em nosso projeto histórico – a constituição – releva a necessidade de representar a pluralidade e complexidade do brasileiro de forma mais ampla. O Brasil é o país das diferenças e é justamente na diferença que nós, como cidadãos, encontramos um elo comum. O preconceito impede a realização, pois, de uma construção mais condizente com nossa realidade, com nosso projeto democrático, dando ensejo à contínua opressão de parcelas significativas da sociedade.

A homofobia é uma das formas de preconceito mais difundidas. E é feita no melhor estilo luso-brasileiro. Ninguém se declara homofóbico, ninguém admite ter preconceito, mas com freqüência demonstram nojo e desprezo ao falar daqueles que possuem orientação sexual diversa. Ora questionam a “incapacidade de liderança nas forças armadas”, ora o aspecto “natural-biológico” da perpetuação da espécie, mas sempre com o discurso de que aceitam, de que não condenam a homossexualidade.

Parece, portanto, que atos como o de hoje na Universidade de Brasília demonstram-se duplamente importantes. Primeiro pelo exercício democrático de manifestar-se contra atitudes sociais e, por conseguinte, de poder que oprimem a diferença.

Mais importante, entretanto, é o segundo aspecto: a necessidade de escancarar a realidade, de forçar um ambiente público, em que a realidade é exposta de forma crua. Nesses momentos, como mostra a matéria do Correio, as verdades sociais não ditas, por convenção, por cordialidade, ou coisas do tipo, parecem sair. A partir delas, percebemos mudanças necessárias para a efetivação de nosso projeto democrático.

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10 respostas em “Para os que ainda acreditam que a homofobia não é uma doença recorrente

  1. Capela,

    primeiramente não acredito em democracia unilateral e por isso não acho que o movimento que houve hoje foi democrático. A parte mais tensa foi quando, num atitude voluntarista, os manifestantes decidiram ir até a porta do centro acdemico de Agronomia onde retiram a placa do CA e colaram adesivos sobre o símbolo da nossa profissão que, como você deve saber, é respresentativo para toda a categoria de profissionais que atuam nessa área.
    Sei que a causa é imensamente importante e apoio, mas o desrespeito não justifica por atingir toda uma classe que, como você bem sabe, não é tão homogênea quanto parece.

  2. Capela,

    Primeiramente não acredito em democracia unilateral, portanto não considero que o Ato ocorrido hoje na UnB foi democrático. Falo da parte em que os manifestantes se dirigiram ao Centro Acadêmico de Agronomia e lá colaram adesivos sobre o símbolo da nossa profissão, retiraram a placa do Centro Acadêmico e nos ofenderam dizendo: “vocês são um bando de bobos da roça”.
    Para mim foi um ato desproporcional e voluntarista tendo em vista que o trote da Agronomia sequer foi o estopim da ação. Na Faculdade de Tecnologia, onde foi gerada toda a polêmica, os manifestantes (junto com os quais eu ainda estava) fizeram um ato na frente da lanchonete sem personalizar, em momento algum, a razão pela qual estavam lá, o que acredito que deveria ter sido feito, já que o Centro Acadêmico de Engenharia CIvil era o verdadeiro alvo.
    Como você bem sabe (e gostaria que todos soubessem), na Agronomia não tem nenhum “bobo da roça”, aliás esse também é um estigma ao qual a concepção libertária não pode se ater bem como o estigma do homossexual, do pobre, e de vários outros.

    • Estava presente apoiando a manifestação em frente a agronomia com minha namorada e tb achei que ali ocorreram excessos. Penso que a placa do CA deveria ser preservada como forma de respeito ao espaço deles. Foi realmente um destempero sem sentido. E o pessoal da agronomia que estava lá dentro do CA e lá em cima, perto da placa, ñ demonstrou em momento algum estarem incomodados com a manifestação, à excessão dos caras lá brigando pela integridade da placa do CA.

  3. Ana, eu também estava lá e pelo que vi (mas posso ter visto errado, na confusão), quem tirou a placa do CA foram os próprios membros do CAAGRO, para impedir que os manifestantes grudassem a faixa lá com fita adesiva (que seria facilmente retirável depois). Também não ouvi esse “vocês são um bando de bobos da roça”. Não foi uma pessoa isolada que disse? Não ouvi o movimento, como tal, ou uma parte expressiva dele, ter dito isso. Mas posso simplesmente não ter ouvido.

    • A placa foi retirada por pessoas do curso depois que quase caiu, mas para mim isso já foi suficiente.
      Foi sim uma pessoa isolada, mas reflete claramente o penasamento de um grupo que imagina e concebe a realidade dessa forma.
      Não estou omitindo que não há preconceito entre os alunos da Agronomia, mas essa foi a forma mais estúpida de contestar uma realidade. Tenho certeza de que se não tivessem direcionado o movimento contra os alunos do curso, muitos teriam apoiado a iniciativa. Aluno da Agronomia não é bicho! A gente sabe dialogar com as diferenças como qualquer outro aluno universitário. Naturalmente uns tem mais resitência, outros menos (como em qualquer lugar), mas esse estigma que permeia o inconsciente coletivo a respeito de nós é tão falso quanto o estigma de gênero ou de homossexualidade.

  4. Esses preconceitos sobre e entre os cursos existem mesmo na universidade e na sociedade, e também são deploráveis. Também devem ser combatidos!

  5. A democracia, mesmo a limitada democracia representativa, pressupõe visões diferentes, conflitos, antagonismos. Democracia é justamente o instrumento para mediar esses conflitos. E o conceito de desobediência civil já era anunciado até mesmo pelos primeiros liberais.

    O erro de se imaginar uma sociedade sem conflitos, pode se basar numa visão positivista de “ordem” – e progresso?. A ilusao de uma sociedade sem conflito, quando levada às ultimas consequencias, abre espaço para o controle facista das contradições sociais – de classe, étnicas, culturais, religiosas. Lembrando o rappa “paz sem voz é medo”.

    Por isso quando um grupo se manifesta, ele tem toda legitimidade de mostrar seu ponto de vista (“unilateral”). O que não significa que seja a única verdade.

    No caso específico, os Homossexuais, bissexuais, Transexuais e Trangênero podem, e devem, se mobilizar contra a homofobia, o sexismo, o patriarcalismo, o maxismo e a misogenia. E nesse enfrentamento será muito difícil encontrar uma “mediação” democrática: se trata de um antagonismo insolúvel: ou supera-se a homofobia, ou mantem-se os LGBTs como vítimas da violencia física e simbólica.

  6. Eduardo, acredito também que esse embate seja inevitável. Mas um embate consciente de quem você sabe que permanece irredutível à emancipação do outro. Não foi isso que aconteceu no CA de Agronomia. A manifestação partiu do presuposto de que Agronomia é um curso homofóbico e ponto final. O pessoal que estava em frente ao CA não foi convidado ao debate sobre a questão. Não foram convidados a participar do ato. Se fossem, tenho certeza, muitas pessoas iriam, mais do que se imagina. E não iriam para atrapalhar o ato não, e sim porque são pessoas abertas à opinião e à liberdade do outro.
    Eu sou estudante do 7º semestre de Agronomia, não faço parte do Movimento LGBTT e estava manifestando junto com eles porque acredito na causa. Natualmente me retirei após perceber que, com essas ações, o Movimento havia perdido o foco e a capacidade de convencimento.

    • Oi Ana. entendo quando você cobra do movimento uma maior maturidade e sensibilidade tática. Ñ estive na mobilização, pois estava no trabalho. Mas, se de fato o movimento como um todo ou um militante – não repreendido pelos demais – tenha “atacado” o curso de Agronomia e todos os seus estudantes (e não as manifestações homofóbicas ocorridas no curso), isso é uma tática burra.

      Essas ações diretas – beijaços, pichações, marchas na universidade – me lembram os movimentos Queer surgidos nos EUA e Europa. Será que estamos vendo a consolidação de movimentos Queer na UNB e no DF?

      Tomara. Pq eles costumam dar uma chacoalhada na sociedade. Mas uma deficiência do Mov Queer em todo mundo tem sido – graças à influência de grupos anarquistas – a falta de clareza tática e estratégica, a precariedade organizativa e a dificuldade em construir ensinamentos a partir das experiências. O que pode levar o movimento, em alguns momentos, a reproduzir outros preconceitos que são igualmente importantes para legitimar uma sociedade desigual e dividida em classes: concepções pejorativas do campesinato, sexismo, racismo, aos portadores de necessidades especiais…

      Essa compreensão tática precisa partir do grupo mesmo – a velha idéia de auto-organização dos oprimidos e explorados. Mas nada impede que você ajude o movimento com aconselhamentos. Mais eficaz do que romper qdo alguma coisa equivocada ocorre, é estar junto, pois a solidariedade, mesmo nessas situações, criam vínculos que abrem o movimento para ouvir suas críticas.

      (sobre a ação Queer, existe muito pouca literatura legal em português, mas vai ai um bom artigo do Peter Drucker, militante socialista e LGBT da Holanda: http://www.solidarity-us.org/current/node/2803#R4)

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