O dilema Lula-Obama

Edemilson Paraná

No último dia 23, após uma longa semana de polêmicas por conta da assinatura do acordo nuclear Turquia-Brasil-Irã, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se disse “desapontado” com o presidente Barack Obama.  Lula se referia, é claro, ao recrudescimento da posição norte-americana em relação às sanções ao país dos aiatolás. Pressionado a fazer dar certo o acordo que chancelou, o presidente disparou contra seu homônimo. Com toda razão, diga-se de passagem.

O desapontamento, segundo Lula, crescia à cada novo passo da política externa Yankee. Primeiro, o não aceno de diálogo esperado pelos latino-americanos em relação à Cuba e Venezuela, depois, as rusgas em Honduras. Em Copenhague, para Lula, Obama mostrou que cedia às pressões internas em detrimento do bem da humanidade. Por fim, as críticas ao recente acordo com o Irã seguidas da reafirmação pelas sanções mostravam que o colega norte-americano tinha cedido ao “conservadorismo tradicional para ter chance de se reeleger em 2012”. Para fechar, pontuou: “Obama deu um tiro no pé ao endurecer com o Irã. Isso não é atitude de quem ganhou o Nobel da Paz”.

Palmas para nosso presidente que soube mais uma vez, com maestria, aproveitar o bom momento que vive o país externamente para denunciar as contradições de um homem que “me diz uma coisa e faz outra, geralmente por meio da Hillary [Clinton, secretária de Estado]”.

Vale lembrar que o comentário foi feito no dia em que a Reuters noticiou uma carta de Obama à Lula, datada de duas semanas antes do acordo, em que o presidente americano pedia ao brasileiro para arrancar do Irã exatamente o que foi assinado no acordo duas semanas depois.

O tio Sam, claro, ficou em maus lençóis e Obama carrega o peso da contradição. Em 2008, durante a campanha, ele foi acusado de fraco e “amigo de terroristas” por defender o dialogo sem pré-condições (isso mesmo!) com o Irã.

Ora, a contradição é evidente, a decepção justificada e o prêmio Nobel ainda mais sem sentido. Mas é preciso entender um pouco mais a fundo o que leva Obama a defender tais posições externamente. Por que uma mudança tão grande em tão pouco tempo? Será que ele não se deu conta da contradição? Será que mudou tanto? Ou será que já no seu discurso ao receber o prêmio Nobel, quando defendeu o conceito de “guerra justa” e o envio de mais homens para o Afeganistão, Obama não deu sinais do que estava disposto?

O próprio Lula, em sua crítica, nos deu, sem querer, a resposta. Segunda ele, Obama deveria aplicar na política externa a receita que usou para aprovar no Congresso a reforma da saúde: remar contra a maré, enfrentando politicamente o Partido Republicano e parte dos democratas. Bingo! Disputa interna x disputa externa. Aqui está o nó que tentaremos desatar.

O Obama contraditório que soa meio esquizofrênico externamente é o mesmo Obama crente e defensor das propostas que o elegeram internamente, é o Obama que sacrifica sua popularidade em início de mandato para comprar briga com o país inteiro na reforma da saúde. O mesmo Obama que, não por acaso, enviou para o Congresso recentemente uma polêmica proposta de reforma do sistema financeiro do país. Mais briga, mais desgaste e dessa vez com o que há de mais vital na economia do país, arena onde os grupos de interesse estão mais organizados e enraizados no propósito do Estado. Brigar com banqueiros e capitalistas seria desaconselhado por qualquer analista político, ainda mais depois do desgaste que o governo enfrentou para aprovar o Health Care. E eis que o homem rema mais uma vez contra a maré, eis que luta para cumprir o que prometeu. Não acho que um político assim é levado a fazer algo diferente do que prometeu senão por uma obrigação que lhe pareça ainda maior e ainda mais justa.

É natural que discordemos. Mas a verdade é que Obama não pode, sob pena de acabar se juntando à Kennedy, comprar todas as brigas ao mesmo tempo. Trata-se do “império”, como disse Hugo Chávez.

Mas façamos, com isenção, um exercício para entender a estratégia do governo Obama.

Você é presidente da maior potência bélica do mundo, da maior economia, onde os interesses são mais difusos, complexos e ao mesmo tempo mais organizados, de um dos eleitorados mais conservadores e patriotas entre as democracias modernas. Deve ser difícil enfrentar isso tudo para fazer reformas que chegaram a ser chamadas de “comunizantes” em um país onde tal adjetivo sooa como xingamento. Compre briga mesmo assim. Enfrente tudo sem se preocupar com sua popularidade ou com a tranqüilidade futura do seu governo. Aprove a primeira dessas reformas.

Ok. Agora pegue um dos sentimentos que é mais caro ao povo americano: o patriotismo, o sentimento de grandeza e a noção de que nada nem ninguém pode deter o destino manifesto, “o povo escolhido” e diga a esse americano que a partir de agora vocês não mais atuarão na arena global como os donos da bola, como os maiorais, como aqueles que apontam, com força, o que deve ser feito. Pronto. Você acaba de criar a fórmula para, no mínimo, impedir a concretização do mínimo que prometeu fazer para os cidadão que o elegeram.

Esse é o dilema de Obama e com esse dilema foi que seu governo traçou a estratégia de comprar briga internamente cedendo ao conservadorismo externamente. Podemos discordar, mas não dá para dizer que não é razoável, ou compreensível. Políticos enfrentam pressões, tem escolhas difíceis a fazer e pensam sim em se reeleger (e não há nada de errado nisso). Obama fez a escolha dele. Se eu discordo? Claro! Se devemos protestar? Claro. Mas é preciso, para isso, sob pena de ineficácia, entender o que está por trás de suas ações.

Isso tudo prova, didaticamente, que um homem, ou mesmo um governo não pode, sozinho, fazer mudanças bruscas no caminho de uma nação se essa mudança não partir de um processo social amplo e forte o suficiente para sustentá-la.

Analisado Obama, voltemos para Lula.

Nosso “cara”, secretário geral ONU, presidente do BID, próximo Nobel da Paz, ou qualquer outra coisa que se festeje, virou ídolo pop. Sua política externa clara e coerente, voltada para uma nova hegemonia, uma nova disposição do processo decisório e uma nova legitimação através do diálogo, lhe valeu prestígio e reconhecimento global; para ele, e para o Brasil. Inauguramos, com uma importância crescente, também por conta de nossa economia, um nova ética de ação, em prol dos emergentes, em prol de nós mesmos. Sou um entusiasta da nossa política externa, ainda quando critico posições brasileiras em casos isolados.

Mas se Lula é o nosso compra-brigas lá fora, aqui dentro é da turma do “deixa-disso”. Enfrentar os privilégios de grandes latifundiários? Brigar com rentistas e o sistema financeiro? Com os bancos? Para quê, se ao não fazer isso eu posso formar uma base parlamentar fisiologísticamente ampla, ter 80% de aprovação e reeleger meu sucessor?

Se lá fora damos exemplo de progressismo, aqui dentro criamos uma conservadorismo à brasileira, que agrada e abarca a todos. Reforma tributária? Reforma Agrária? PNDH-3? Revolução na educação? Ataque frontal à discrepância entre remuneração do trabalho e renda (razão de nossa desigualdade abissal)? Nada! Seguimos nosso caminho.

É chato, toda vez que falo do governo, ter de reconhecer o que foi feito de bom sob pena ser acusado de fazer coro com conservadores ou com a direita. Isso mostra bem o porquê do meu texto. Mas passemos ao protocolo. Não há como não reconhecer os avanços sobretudo na orientação de foco das ações do governo, que hoje têm, sim, novas prioridades. Uma mudança que gerou, sim, vários avanços.

O papel da sociedade civil, dos grupos organizados e de quem se ocupa da política, no entanto, é criticar o que está errado e apontar o que poderia estar melhor sob pena de ser conivente com a conservação de privilégios, entre o pior deles a desigualdade social.

Finalizo com questionamentos, vários questionamentos.

No dilema Lula-Obama, que tipo de contradição preferimos? Conservação interna com mudança externa ou conservação externa com mudança interna? Será que só temos mesmo estas duas opções? Quem é pior, Lula ou Obama? Será que há como, dadas as atuais condições políticas e sociais dos dois países, seus presidentes serem 100% coerentes em todas as esferas? Ou será que a política na democracia é um eterno negociar de possibilidades, a arte do possível? Alcançaremos a coerência no longo prazo? A democracia representativa, institucional, tal qual está estabelecida é o limite ou precisaríamos de rompimentos na ordem estabelecida?

Se na academia nosso esforço é por teorização, na política trabalhamos com a contradição da ação, com a contradição do conhecimento dialético construído na prática. Desse modo carrego uma, e apenas uma certeza: não há mudança sem povo, não há transformação sem sociedade, não há poder sustentado sem legitimidade!

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Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é sociólogo e jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB, com período sanduíche na SOAS – University of London. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atuou como pesquisador-bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional (2015-16). Além de trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de Sociologia Econômica, Economia Política e Teoria Social, é autor do livro A finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016). Também publica intervenções sobre economia e política em sítios como Blog da Boitempo, Carta Capital, Congresso em Foco, Outras Palavras e Brasil em 5.

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