A relação Política – Universidade

Por Gustavo Capela

Ontem, como já amplamente noticiado neste blog, o pré-candidato à Presidência da República pelo PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, foi à Universidade de Brasília participar de um evento organizado pelo B&D. O intuito é levar todos os pré-candidatos à universidade, para que eles possam discutir seus projetos, expor suas idéias e, claro, tentar convencer os ouvintes que suas idéias são melhores, mais plausíveis, concretas, realistas, idealistas,  ousadas, ou qualquer outro adjetivo que um eleitor ache adequado, que a dos outros candidatos.

Essa prática, de embate de idéias, em um ambiente de idéias, como deve ser a Universidade, parece ser incomum em nosso país. Como demonstrou o brilhante e sempre-vivaz Plínio de Arruda, o discurso político parece cada vez mais ter dificuldades para argüir de forma mais profunda, de esboçar projetos e discutir idéias de forma ampla e aberta com a comunidade Universitária. Não que isso ocorra pelo capacidade ou incapacidade individual do candidato. Plínio certamente é um dos melhores políticos de nossa era no que diz respeito à teoria e à prática, ambos necessárias para o âmbito de idéias no mundo político. No entanto, pouco apresentou idéias profundas e distantes do senso comum para resolver problemas. Na sua maior contribuição, referiu-se à reforma agrária com base no tamanho da terra e não na produtividade da própria. Assim, o fenômeno parece estar muito mais atrelado à percepção que o político tem de que precisa convencer pela simpatia, pela cordialidade, não  pelas idéias.

Esse viés político pode ser visto inclusive em países do “Atlântico-Norte”, onde Obama foi por diversas vezes chamado de elitista por querer discutir mais idéias do que jogar boliche para a televisão registrar. Naquele país, no entanto, parece que a idéia prevaleceu. Talvez até pela junção que o então-candidato à Presidência dos EUA conseguiu trazer entre idéias inovadoras, nova forma de fazer política e o bom e velho carisma. O primeiro negro a ser eleito presidente dos Estados Unidos não é exatamente uma pessoa que não agrega pessoas pelo seu jeito de ser. Seu sorriso, sua forma de falar, sua vibração e jeito de agir contagiaram e ainda contagiam toda uma geração naquele país. Parece que aqui, entretanto, as idéias estão cada vez mais escassas e, quando existem, não se comprometem com sua exposição profunda.

Não restam dúvidas que ambos os aspectos são importantes. De nada adianta um intelectual que não se junte às massas, que não é cordial, atencioso, carismático. Da mesma forma, não deveria bastar o contrario: um líder que sabe falar, que sabe agir, que tem facilidade para se comunicar com seu eleitorado, mas não discute, de forma ampla seus projetos e idéias.  O problema com essa segunda hipótese é justamente o de tornar as disputas para cargos majoritários uma disputa entre pessoas, não entre projetos. O tal do personalismo está estreitamente vinculado à essa necessidade da política atual de ter como representante maior um ídolo, ao invés de um norte, um princípio.

Nessas eleições, o B&D pauta idéias, não pessoas. Com isso espera que, trazendo os pré-candidatos à Presidência à UnB, essa prática seja cada vez mais comum. Ao ponto que não seja mais necessário convidarmos políticos para visitarem nossas Universidades.

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9 respostas em “A relação Política – Universidade

  1. Eu acho que você está idealizando o processo político norte-americano. Durante muito tempo, Obama foi criticado justamente porque pouco se sabia sobre as suas ideias, o programa que apresentava (na área econômica, por exemplo). Em grande parte, e segundo alguns predominantemente, o apelo de novidade que ele representava para o público era pela forma, e não pelas ideias.

  2. E eu acho que o Plínio apresentou várias outras ideias inovadoras, sim, em relação ao senso comum que está posto aí na disputa presidencial. Legalização do aborto, auditoria e alongamento da dívida pública, vedação de que escolas e hospitais funcionem com finalidade de perseguir o lucro, posição francamente favorável ao casamento de pessoas homossexuais e à adoção por esses casais… Não achei que faltaram ideias. Concordo, sim, que faltou aprofundamento argumentativo em torno delas.

  3. É que você citou o exemplo da reforma agrária como um em que ele teria se diferenciado e sido inovador. Não vi isso, achei que ele também não argumentou bem aí, apenas expôs uma ideia. Que é sim inovadora com relação ás outras que estão postas, mas tanto quanto as outras que eu mencionei – na minha opinião, e sem entrar no mérito delas.

    • Vero, vero, aqui eu quis pontuar uma análise que eua chei que ele fez indo mais ao caso concreto, falando mais claro o que ele queria dizer com reforma. No caso do aborto, por exemplo, ele disse que não achava que seria algo interessante criminalizar o aborto, mas depois falou que seria interessante queum juiz instruísse a mulher para ela poder decidir melhor se ela quer ou não abortar. Nesse último caso, por exemplo, achei que ele não se aprofundou muito, pois não explicou o porquê da necessidade do juiz, etc, ao passo que, na questão da reforma agrária, senti que a questão foi mais contemplada. De fato, talvez o formato do evento privilegiou pouco a profundidade, é algo a se pensar.

  4. Capela,

    De fato, como disse o Telésforo, ele trouxe várias idéias e deixou bem clara suas posições. E, de fato, faltou aprofundamento. Mas, apenas uma sugestão, e posso estar completamente enganado, a maneira como é realizada a “roda-viva”, por ocasião do tempo, e da própria forma, parece impedir um maior aprofundamento. Talvez seria mais interessante que vocês organizadores buscassem conciliar uma abertura para indagações vindas de fora, sem, no entanto, retirar os espaço do grupo B&D que tem em mente uma proposta para o evento e que seriam os melhores para direcionar os debates e enfocar em um aprofundamento das discussões, dos projetos políticos, dos fundamentos filosófico e políticos por trás das propostas.

    O evento de ontem foi fantástico, de qualquer forma. Mas acho que você poderiam repensar de algum modo maneiras de aprofundar o discurso desenvolvido naquele espaço e os interlocutores são fundamentais para esse fim.

    Mais uma vez, parabéns pela iniciativa.

  5. Reafirmando, parabéns pela iniciativa.
    O Plínio é o candidato que mais me atrai (politicamente falando) e tê-lo na unb foi uma ótima experiência.
    Mas não para mim. Por problemas de saúde, apenas minha ausência esteve presente nesse debate.
    Quando estará disponível em vídeo?

  6. Sobre as críticas e comentários sobre o debate de fato faltou aprofundamento em alguns pontos apresentados, o tempo é curto para apresentá-los mas existia a possibilidade de que o meu candidato fosse um pouco mais claro sobre algumas coisas. Explicar por exemplo como era a proposta de Reforma Agrária que ele relatou em 63 liderado por Jango, ou esclarecer como fez o debate consistente sobre aborto com uma questão de saúde pública com a CNBB mesmo com alguns problemas que também podem estar relacionados a estrutura, tenho certeza que Plínio foi bastante claro sobre o projeto societário que defende! Idéias e princípios também são bastante importantes ainda mais num debate realizado na universidade, onde muitas vezes ele poderia trazer idéias muito concretas e as pessoas poderiam esperar formulações mais simbólicas.

    Parabéns ao grupo pela brilhante iniciativa!
    um abraço

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