A violência como fracasso da política.

Por Gabriel Santos Elias

1% das famílias mais ricas consome 15% da renda, enquanto mais de 85 milhões de pessoas, que compõem a metade mais pobre da população, consomem apenas 12%.”

Apresentei esses números a alguns adolescentes do Centro de Ensino Médio São Francisco em São Sebastião, no fim de semana da páscoa deste ano. Para ilustrar melhor os números, dividi o grupo na proporção das classes sociais e distribui pedaços de papel que representavam toda a renda do Brasil. Dessa forma um garoto escolhido pelos adolescentes para representar a parte mais rica da população brasileira ficou com 30 pedaços de papeis da renda brasileira enquanto 15 pessoas, metade da turma, tiveram que dividir 12 pedaços de papel.

Essa cena chocou aqueles garotos. Não a parte da pobreza que existe no Brasil, essa parte eles já conhecem até bem. Eles ficaram chocados é com a excessiva riqueza que tão poucos ostentam em nosso país. Afinal, aquele único colega deles representava a seleta classe de brasileiros que passa fins de semana em Paris, vai para o trabalho de helicóptero, tem vários carros de luxo. Eike Batista, principal ícone desse grupo, tem sua renda pessoal maior que tudo o que produz o Paraguai em um ano inteiro e é visto aqui como um orgulho para o país: o sétimo homem mais rico de todo o mundo. Orgulho?

Entre aquela metade de pessoas que tinha que dividir 12 pedaços do dinheiro brasileiro, três ficaram sem nenhum papel. No Brasil ainda hoje existem pessoas que não tem acesso a simplesmente nada, seus filhos morrem de fome, eles mesmos não sabem quando vai ser a próxima vez que poderão comer. Ter acesso a um computador, a internet? Nem passa por suas cabeças. Mas de que importa? O Brasil tem um dos homens mais ricos do Mundo!

A maioria daqueles adolescentes faz parte da metade mais pobre da população. Eles até tem um pedacinho de papel pra garantir roupas limpas e comida. Alguns têm computador em casa, têm perfil no Orkut e conhecem pessoas de outros lugares do Brasil. Com muito esforço e muita luta dos professores e principalmente das Diretoras, conseguem ter uma escola descente, bancada pelo Estado, que busca formar cidadãos para mudar sua própria realidade através do esforço coletivo.

Mas aqueles jovens, como qualquer um de nós, são bombardeados a todo momento com mensagens do tipo: “Você só será bacana quando tiver o tênis tal”, “Quem tem tal carro tem namoradas e amigos”, “Tenha roupas legais e você será legal”. São todos vítimas do estímulo ao consumismo desenfreado, mas o tanto de “papel” que eles têm não dá condições de possuir tudo que a sociedade de consumo diz que eles deveriam possuir. Mas a poucos quilômetros dali eles podem ver jovens do Lago Sul que podem ter tudo aquilo que eles gostariam de ter.

Após se identificarem com o grave problema da desigualdade, eles foram perguntados sobre qual seria a solução. E a resposta foi no tom de brincadeira: “roubamos eles”.

Essa resposta é cheia de significados. Por mais que o tom tenha sido de brincadeira a violência faz parte da vida deles. Raciocinando depois sobre esse fato percebi o tanto que a violência está para eles como uma reação à profunda desigualdade social da nossa sociedade. E a resposta é bem lógica mesmo, afinal qual é o método mais claro para reduzir a desigualdade social se não tirar dos muito ricos para dar aos muito pobres? Simplificadamente é assim a distribuição de renda.

O que falta àqueles jovens é oportunidade política. Afinal, como aprendemos nas escolas, a violência realmente não compensa. E muitas das pessoas que eles conhecem, seja um irmão, um tio ou um amigo, já foram ou estão presos. Sem falar dos que não sobreviveram…

O que aqueles jovens querem é o mesmo que nós queremos: acabar com o grave problema da desigualdade social. Mas quando eles não acreditam na política não podem simplesmente desistir, como muitos nós fazemos. A violência da própria situação de desigualdade os levam ao caminho que lhes parece mais simples. O enriquecimento através do tráfico, o poder que uma arma traz, a sensação de realização que o roubo dá.

Acredito que se as instituições políticas funcionassem de forma que fosse possível perceber alguma possibilidade de mudança, de redução de desigualdades tanto econômica quanto de poder político, esses jovens nem pensariam em se arriscar com uma arma na mão. Estariam lutando junto a todos nós para fazer da sociedade um lugar melhor pra se viver. Logo, essa violência nada mais é que o fracasso da política como meio de redução da desigualdade social.

O movimento Hip-Hop, principal meio de expressão dessa galera traduz bem isso:

“Minha mina de fé ta em casa com o meu menor
Agora posso dar do bom e melhor
Varias vezes me senti menos homem
Desempregado, meu moleque com fome
É muito fácil vir aqui me criticar
A sociedade me criou agora manda me matar
Me condenar e morrer na prisão
Virar noticia de televisão
Seria diferente se eu fosse mauricinho
Criado a sustagem e leite ninho
Colégio particular depois faculdade
Não, não é essa minha realidade
Sou caboquinho comum com sangue no olho
Com ódio na veia soldado do morro”

“Pois sua infancia não foi um mar de rosas, não. Na febem, lembranças dolorosas, então. Sim, ganhar dinheiro, ficar rico, enfim. Muitos morreram sim, sonhando alto assim, me digam quem é feliz, quem não se desespera, vendo nascer seu filho no berço da miséria. Um lugar onde só tinham como atração, o bar, e o candomblé pra se tomar a benção. Esse é o palco da história que por mim será contada… um homem na estrada.”

“A Justiça Criminal é implacável.
Tiram sua liberdade, família e moral.
Mesmo longe do sistema carcerário, te chamarão para sempre de ex-presidiário.
Não confio na polícia, raça do caralho.

Por isso a minha segurança eu mesmo faço.”

“Na mais rica metrópole, suas várias contradições
É incontável, inaceitável, implacável, inevitável
Ver o lado miserável se sujeitando com migalhas, favores
Se esquivando entre noite de medo e horrores
Qual é a fita treta cena
A gente reza foge continua sempre os mesmos problemas
Mulher e dinheiro tá sempre envolvido
Vaidade ambição munição pra criar inimigo.”

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