Prazeres de Luta

Por Mayra Cotta

Desde o dia 5 de abril, quando o Rio de Janeiro foi tomado por uma chuva fortíssima, que durou mais de 18 horas, os moradores de favelas vêm sofrendo ameaça de remoção por parte da Prefeitura. Ao que parece, a culpa pela situação de risco é dos pobres que construíram nessas áreas – quando, certamente, havia uma ampla possibilidade de moradia para eles. O governo da cidade aproveita, então, para fazer uma verdadeira limpa em algumas comunidades, interditando áreas que englobam muito mais casas do que aquelas que estão em área considerada de risco.

A presidente da Associação de Moradores do Morro dos Prazeres, Eliza Brandão, alertou que algumas residências estão em risco, mas não a comunidade inteira, não podendo a prefeitura não pode remover casas baseado em imagens aéreas. De acordo com Eliza, quase mil casas foram interditadas pela Defesa Civil e estão sob ameaça de remoção, mas, dessas casas, menos de cem estão, de fato, em área de risco.

Os líderes comunitários estão se unindo para enfrentar essa empreitada contra a pobreza. O foco de resistência está sendo, principalmente, no Morro dos Prazeres, onde as comunidades estão se articulando para ir à luta.

Em Asssembléia do dia 21 de abril, o membro da comunidade de Prazeres Ezequiel de Oliveira Tomé proferiu o belo discurso que segue abaixo. No dia do aniversário de Brasília, ele fez uma homenagem à nossa luta de cá, que também está duríssima, mas que a cada dia se fortalece mais. Uma excelente leitura!

Essa mobilização não é outra coisa senão um manifesto público em busca de respostas às atitudes dos governos municipais e estaduais, em relação às comunidades situadas em encostas, mais especificamente Favelas, ditas áreas de risco, claramente declinando a democracia para uma nova  velha política de segregação e autoritarismo. Governando de uma forma para ricos e de outra para os pobres. Dois pesos duas medidas. Para os ricos das encostas, contenções de encosta e presto restabelecimento dos serviços. Para os pobres imposições de decretos e uso abusivo da força, respaldados  em leis que antes contemplavam as favelas e que agora se interpretam de forma contraria. Relegar a nossa dignidade e cidadania à remoções é lamentável retrocesso.

Segundo representante da GEO-RIO, geólogo, homem de idoneidade técnica respeitável, seriam plenamente habitáveis as encostas, caso fôssemos ricos, capazes de bancar os custos com a regularização dos terrenos e a ordenação dos serviços básicos, como: coleta de lixo e saneamento. Disse ainda que, a prefeitura, descapitalizada, não tem interesse mais em investir. Risco real geológico ou risco socioeconômico? Plano habitacional consciente ou demagogia para lavagem de dinheiro em obras fraudulentas nas licitações desde o início e que não incluem se quer os deficientes fiscos ou prevêem as complementações possíveis aos futuros moradores como: poços de elevadores em conjuntos verticais com determinados números de andares; rampas de acesso e portas adaptadas; etc.
Já estávamos sendo removidos sistematicamente, desde que assumiram os Senhores: governador Sérgio Cabral e prefeito Eduardo Paes. Elitistas, déspotas, que, ao se certificarem
dos mega eventos: Olimpíadas, Paraolimpíadas e Copa, viram a possibilidade do plano perfeito. Não é verdade, defensor ferrenho das remoções desde a Sub Prefeitura da Barra, Sr Eduardo Paes?

 As favelas, antes redutos eleitoreiros, serviram ao uso e podem  ser  descartadas. Agora somos marginais, invasores irracionais. Mal educados pelos pais e não pelo sistema. Culpados pelo lixo das encostas, insignificantes. Onde estavam os planos brilhantes agora tirados da cartola? E a atual Gestão estadual e municipal? Não existíamos até o fatídico dia 5?

A desgraça do Zé polvinho caiu como luva. Álibi perfeito; só que ao custo de vidas. E, se não somos mutações serviçais, algum tipo de gado, vidas humanas.

Choraram lágrimas copiosas de crocodilo pelos royalties do Pré-Sal sem, contudo, prestar se querem uma homenagem as nossas vítimas de forma convincente. Vitimas de um descaso continuado e programático, como corte nos orçamentos de órgãos responsáveis pela prevenção aos riscos. Descasos de quem conhecia os riscos e não usou de meios cabíveis para saná-los ou diminuí-los, porém, cinicamente deixou acontecer. Ganância de quem se entorpeceu pelos bilhões que serão lavados nas muitas fraudes que são de prática comum nesse país.
 
Em vez de se condoerem com os entes abatidos e desconsolados pela tragédia, tentaram a eutanásia das comunidades a golpe de marretas e de Estado. Desrespeitando o momento de angustia dos moradores, semelhante a Nero,  alimentaram mais as chamas com terrorismo psicológico sobre falsos dados de riscos generalizados e não pontuais.
Tudo isso sem dó e sem culpa. Duma forma desordenada, desumana, sem articulação. Semeando o pão  que cala a boca. Esmolando as comunidade com fieis doações de pessoas sérias e comovidas com o caos estabelecido tanto pelas famosas “chuvas de março”, ainda mais impiedosas  pelos agravos ao clima global, quanto pelos governos com suas atitudes desmedidas. Sinceramente… Vem ai o circo futebolístico da copa do mundo. Saciados e alegres certamente esquecerão-se de tudo. Jamais! Diante tamanha humilhação e rompimentos dos direitos humanos e cívicos já conquistados, Circo e Pão serão extintos. Os culpados serão revelados e justamente serão julgados e condenados.

Parabéns a Brasília por seu aniversario, lamentando profundamente a mancha em seu vestido de festas, provocado pelo derramamento do cálice da falta de pudor e corrupções. Lutaremos para que não sejas removida de nossas memórias. Com honra, sairemos vencedores e seremos, de fato, símbolos de democracia e modelo para o mundo.

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