Em Busca da Política

Por Laila Maia Galvão

O livro Em Busca da Política, de Zygmunt Bauman, foi publicado ainda no século passado, em 1999. A introdução, redigida por Bauman em agosto 1998, traz um breve resumo das principais ideias da obra. Logo no início, encontra-se a seguinte afirmação “As crenças não precisam ser coerentes para que se acredite nelas”. Assim, duas “crenças” seriam perceptíveis em nosso mundo contemporâneo:

1)      A questão da liberdade na ‘nossa parte’ do mundo está concluída e (descontando correções menores aqui e acolá) resolvida da melhor maneira possível, não sentimos necessidade (de novo, salvo irritações menores e fortuitas) de ir para as ruas protestar e exigir maior liberdade do que já temos ou achamos ter.

2)      Tendemos a crer que pouco podemos mudar – sozinhos, em grupo ou juntos – na maneira como as coisas ocorrem ou são produzidas no mundo; e acreditamos também que, se pudéssemos mudar alguma coisa, seria inútil e até irracional pensar num mundo diferente do que existe e aplicar os músculos em fazê-lo surgir por acharmos que é melhor do que este aqui.

Diante disso, Bauman questiona: Se a liberdade foi conquistada, como explicar que entre os louros da vitória não esteja a capacidade humana de imaginar um mundo melhor e de fazer algo para concretizá-lo? E que liberdade é essa que desestimula a imaginação e tolera a impotência das pessoas livres em questões que dizem respeito a todos?

A importância dessas perguntas é crucial. Ao final dessa introdução, Bauman diz acreditar que as perguntas dificilmente estão erradas e que as respostas é que devem estar. Diz ele: Também acredito, no entanto, que evitar fazer perguntas, questionar, é a pior resposta de todas.

Uma das teses principais da obra é a de que o aumento da liberdade individual pode coincidir com o aumento da impotência coletiva na medida em que as pontes entre a vida pública e privada são destruídas ou, para começar, nem foram construídas (em outras palavras: não há uma maneira óbvia e fácil de traduzir preocupações pessoais em questões públicas e, inversamente, de discernir e apontar o que é público nos problemas privados).

Novamente, é lançada uma relevante pergunta: As únicas queixas ventiladas em público são um punhado de agonias e ansiedades pessoais que, no entanto, não se tornam questões públicas apenas por estarem em exibição pública (…) O que, nessas circunstâncias, pode nos unir?

É aí que entra uma importante constatação. No meu entender, alguns dos acontecimentos de 2010 são muitíssimo bem explicados por essa análise de Bauman. Trata-se de uma crítica muito relevante e inquietantemente atual:

A sociabilidade é, por assim dizer, flutuante, procura em vão terreno firme onde ancorar, um alvo visível a todos para mirar, companheiros com quem cerrar fileiras. Há um bocado desses elementos por aí – vagando, andando às tontas, fora de foco. Sem poder extravasar normalmente, nossa sociabilidade tende a se soltar em explosões espetaculares, concentradas – e breves, como todas as explosões.

Explosões espetaculares… aí sim soltamos a nossa sociabilidade. Como diz Bauman, “festivais de compaixão e caridade, em eclosões de agressão acumulada contra um inimigo público recém-descoberto”. Na sociedade do espetáculo, os grandes traumas coletivos servem de munição para a mídia nos bombardear. Ao invés de coberturas jornalísticas bem elaboradas e de informações coerentes e bem concatenadas, temos edições apelativas e sensacionalistas, com cenas de choro, sangue e horror. Sensibilizamos-nos com isso, é claro. Assim ocorreu no terremoto do Haiti, no terremoto do Chile, nas chuvas em Angra dos Reis, em São Paulo e na cidade do Rio de Janeiro. Choramos a dor do pai que perdeu a filha em um desmoronamento. Sofremos o sofrimento de Isabella Nardoni e de sua mãe, e da família dos meninos de Luziânia (e amaldiçoamos o pedófilo e a incompetência dos sistemas judicial e carcerário do país). Consideramos importantes as campanhas de arrecadação de mantimentos. E na semana seguinte já aguardamos a próxima notícia bombástica do plantão de notícias ou a manchete-bomba veiculada nos grandes portais da internet.

O problema disso, diz o sociólogo, é que essas oportunidades perdem força rapidamente e assim que voltamos à nossa vida diária, rotineira, retornamos ao ponto inicial… e seguimos tão solitários quanto antes.

Para mudar isso, Bauman chama atenção para a imprescindibilidade da ágora, espaço público e privado ao mesmo tempo, em que problemas particulares se encontram de modo significativo – isto é, não apenas para extrair prazeres narcisísticos ou buscar alguma terapia através da exibição pública, mas para procurar coletivamente alavancas controladas e poderosas (…) espaço em que as ideias podem nascer e tomar forma como “bem público”, “sociedade justa” ou “valores partilhados”.

Por isso é importante que esses movimentos de sociabilidade estejam de fato comprometidos com a mudança. É preciso que esses movimentos sejam corajosos o bastante para enfrentarem o medo, a inércia e o que Bauman chama de auto-apologia da rendição do liberalismo (‘Este não é o melhor dos mundos imagináveis, mas o único mundo real’). É preciso retomar/recriar os espaços públicos. É preciso atribuir novos significados à nossa experiência nesse planeta.

E, vale lembrar, o real comprometimento com a mudança é diário, constante. A batalha é travada todos os dias, nos mais diferentes momentos. O fenômeno da “espetacularização” é algo presente na sociedade contemporânea e cabe aos mais diversos movimentos fugir da superficialidade desse fenômeno e buscar aprofundar a luta pela transformação da sociedade.

Ainda no contexto de 2010…          Que as ideias de Bauman sirvam de reflexão e de incentivo ao Movimento Fora Arruda e Toda Máfia. O Movimento, mesmo depois da cassação de Arruda e da saída de Paulo Octávio do governo, dá continuidade às suas reivindicações. Expõe a ilegitimidade das eleições indiretas e a violência policial no DF. Luta por uma Câmara Legislativa mais transparente e democrática, que não se renda aos interesses privados de um grupo de deputados corruptos. E em todas essas ações aqui citadas e nas demais atividades realizadas pelo Movimento somos capazes de observar um grupo que, com erros e acertos, está, de fato, em busca da política.

Para encerrar, mais um trecho de Bauman: Tendemos a nos orgulhar do que talvez devesse nos envergonhar: de viver numa época “pós-ideológica” ou “pós-utópica”, de não nos preocuparmos com uma visão coerente de boa sociedade e de ter trocado a preocupação com o bem público pela liberdade de buscar satisfação pessoal. E, no entanto, se pararmos para pensar por que essa busca de felicidade o mais das vezes não consegue produzir os resultados que esperamos e por que o sabor amargo da insegurança torna a bênção menos doce do que nos disseram que seria, não iremos longe sem trazer de volta do exílio ideias como a do bem público, da boa sociedade, da igualdade, da justiça e assim por diante – ideias que não fazem sentido senão cuidadas e cultivadas na companhia de outros.

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