Os pecados capitais da aliança PT-PMDB no DF

Edemilson Paraná

Que o quadro para as eleições deste ano seria desolador no Distrito Federal todo mundo esperava. Que uma série de acordões reagruparia as forças políticas em defesa da manutenção dos privilégios estabelecidos também. O que pouca gente esperava, no entanto, é que isso se daria de maneira tão rápida e agressiva, tão escancarada. Ou pior, tão amadora.

É claro que me refiro à pútrida aliança do PT com o PMDB capitaneada pelo deputado federal Tadeu Felipelli (PMDB-DF) em conluio com a direção do PT candango. A aliança que, a troco de eleger Agnelo Queiróz (PT) governador e Felipelli vice, deu a coroa de governador-tampão a ninguém menos que Rogério Rosso (PMDB), cria política de Joaquim Roriz (PSC) e operador da Codeplan (aquela dá nome à CPI mais fantochizada da história) no governo Arruda.

Às vésperas dos 50 anos de Brasília, em uma cidade onde 66% dos habitantes são a favor da intervenção federal, a Câmara mais cara e mais desmoralizada do país elegeu um representante legítimo do escândalo que à desmoralizou.

O PT? Ignorando sua própria candidatura indireta ao governo (a do prof. Ibañez) declarou seu voto no segundo turno em Rosso. O gesto, claro, evitou o segundo turno, colocando em um só lado arrudistas e petistas contra rorizistas. Vitória de PT-PMDB, derrota do Distrito Federal.

Os resultados?

1 – Arruda foi entregue para o sacrifício. Seu grupo político está órfão de pai eleitoral mas segue vivo nas entranhas do governo. Como a já clássica briga  Arruda X Roriz foi e continua sendo fratricida não lhes restou outra opção senão migrar para o lado de PT-PMDB. Dos males, o menor. A escolha não foi difícil para os arrudistas, afinal o PMDB (ex-partido de Roriz) foi o principal partido de sustentação do governo Arruda.

2 – Do lado do PT, tudo parece fazer sentido. Candidato de Lula, Agnelo se consolida. A reprodução regional da aliança nacional fortalece o palanque de Dilma Rousseff e barra as pretensões de Roriz. A polarização PT-Roriz aumenta as chances de Agnelo. O PT candango indica os cargos no governo-tampão e toma parte da máquina.

3- A eleição indireta esfria a possibilidade de intervenção federal, algo temido por políticos e empresários que tem muito a perder com o cancelamento de contratos e a dissolução de mandatos.

4 – O quadro da disputa eleitoral se consolida. Agora é PT-PMDB + Arrudistas contra Roriz e adjacências. A votação dos distritais na eleição indireta já cristalizava a polarização.

Tudo parece perfeito. O casamento selado, o bolo cortado. A falta de uma única variável, no entanto, torna todo o plano todo uma grande estupidez; o eleitorado.

Em tempos de política clientelista baseada em alianças espúrias, convencionou-se ignorar o papel político da população. Ora, se não por senso de justiça e política orientada ao bem público, que os nossos políticos pelo menos tenham um mínimo de inteligência estratégica: ignorar o eleitor é burrice!

Apesar de todos os pesares, a crise no DF mostrou que ignorar o que pensa o eleitorado não é prudente. Ao insistir na protagonização de cúmulos atrás de cúmulos os políticos de Brasília cavam sua própria cova. E trabalharemos para que assim seja.

A grande contradição – a lista de erros de largada protagonizados pelo PT-DF

1- Num momento em que as forças conservadoras batem cabeça por conta da desorientação estrutural, o PT funciona como parte de sua reorganização. Não será novidade se o partido for, no médio prazo, novamente por elas engolido. Isso já aconteceu num passado recente.

2- A oposição perde a possibilidade de se utilizar da crise para construir um novo discurso para o DF, fortalecendo o “tanto faz” ou “nenhum presta” entre a classe média, que votaria em por convicção em Agnelo. Quem ganha com isso é Roriz, que tem voto certo e cativo em uma larga faixa da população.

3- A aliança PT-PMDB já nasce manchada pelo verme da conservação dos velhos privilégios, com os velhos privilegiados. O que muda? Na festa do governo, o PT, que reclamava por guardar os carros, passa a ser apenas o mestre de cerimônias. Os anfitriões permanecem.

4 – A supervalorização da direção nacional e da opinião do presidente Lula contrastada com o desprezo ao eleitorado é a cicuta do PT candango. Cada região tem suas peculiaridades. O partido tem esquecido disso e empurrado a aliança com o PMDB goela a baixo no Brasil inteiro.

Em poucos lugares a política é tão publicamente problemática quanto no DF. Ao invés de nos resignarmos, no entanto, nos animamos. Os movimentos populares mostram como nunca a que vieram.

Com a união Agnelo-Felipelli vemos o entardecer de mais uma possibilidade de mudança. O que nos resta? Mostrar para eles que ignorar o povo na hora de traçar estratégias é o maior erro que um político pode cometer.

atualização em 27.abr.2010 às 10h32

Sobre o assunto vale ler a nota (aqui) escrita por uma corrente interna do PT, a Articulação da Esquerda. De minha parte, torço de coração para que vençam essa disputa interna no partido.

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Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é sociólogo e jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB, com período sanduíche na SOAS – University of London. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atuou como pesquisador-bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional (2015-16). Além de trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de Sociologia Econômica, Economia Política e Teoria Social, é autor do livro A finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016). Também publica intervenções sobre economia e política em sítios como Blog da Boitempo, Carta Capital, Congresso em Foco, Outras Palavras e Brasil em 5.

4 respostas em “Os pecados capitais da aliança PT-PMDB no DF

  1. O PT e alguns de seus aliados vem ignorando o povo há muito tempo na hora de orquestrarem suas estratégias. Talvez o grande problema é que perderam a noção de classe ou de quem estão representando. O fundamental é mantermos a mobilização e acreditarmos que só na luta objetiva poderemos garantir a construção de um novo projeto societário, e principalmente que os partidos completamente atrelados a ordem atual não tem qualquer possibilidade de impactar nas mudanças necessárias para a população (Ex: PT). O texto ficou interessante! um abraço!

  2. Faltou um componente importante na avaliação: a militância do PT DF.

    No PT existem instâncias em que esse tipo de aliança devem ser aprovadas, e estamos mobilizados para evitá-la.

    As zonais do Plano Piloto, Cruzeiro e Sobradinho já realizaram seus encontros e decidiram um posicionamento contrário à aliança.

    A juventude também deliberou contra a aliança.

    Haverá um encontro regional que decidirá isso. E até lá seguiremos batalhando nas zonais:

    http://www.ptdf.com.br/conteudonoticias.php?id_noticia=248

    A Paola Lima também já está repercutindo:

    http://www.blogdapaola.com.br

    PARTIDO É DOS TRABALHADORES!


    Yuri Soares Franco
    Estudante de História da UnB
    Militante do Partido dos Trabalhadores

  3. Pingback: Tweets that mention Os pecados capitais da aliança PT-PMDB no DF « Brasil e Desenvolvimento -- Topsy.com

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