Brasília, 50

Por Laila Maia Galvão

Infelizmente, é preciso reconhecer que a comemoração dos 50 anos de Brasília é, na verdade, um grande anticlímax. O que comemorar após as cenas de violência do dia 17 de abril (alguns dias antes do aniversário de nossa cidade)? O que festejar? As ações violentas e covardes da PM? A realização de eleições indiretas? A permanência de deputados envolvidos em escândalos na Câmara Legislativa do DF? Sem dúvida, no atual contexto, é difícil encontrarmos motivos para celebração. Resta-nos mais a sensação de frustração, de indignação e de luto.

No entanto, chamo atenção para o fato de que essas comemorações, tal como a comemoração de um aniversário, são momentos importantes de reflexão. Além de ser uma oportunidade de pararmos um pouco e olharmos para nosso passado, nossas falhas e nossos êxitos, é também uma ocasião para enxergamos de maneira crítica esse acúmulo de experiência e lançarmos expectativas para o futuro.

Voltando um pouco no tempo…  Ainda no século XIX, discutia-se a possibilidade de se transferir a capital do Brasil para o interior. Em 4 de abril de 1955, em Jataí, um cidadão perguntou a Juscelino Kubitschek se ele cumpriria a Constituição, incluindo o dispositivo que previa a transferência da capital para o planalto central. A partir daí, a construção de Brasília se tornou o grande objetivo de Juscelino, que colocou o plano em prática logo após ser eleito presidente.

O projeto de Brasília era arrojado, ousado. A construção de uma cidade modernista no meio do cerrado era, para muitos, um completo desvario. Contrariando toda a lógica de concentração populacional no litoral, buscava-se povoar o interior e, de fato, estimular a integração nacional. Nas palavras de Lucio Costa: Ela deve ser concebida não como simples organismo capaz de preencher satisfatoriamente e sem esforço as funções vitais próprias de uma cidade moderna qualquer, não apenas como urbs, mas como civitas, possuidora dos atributos inerentes a uma capital. E, para tanto, a condição primeira é achar-se o urbanista imbuído de uma certa dignidade e nobreza de intenção, porquanto dessa atitude fundamental decorrem a ordenação e o senso de conveniência e medida capazes de conferir ao conjunto projetado o desejável caráter monumental. Monumental não no sentido de ostentação, mas no sentido da expressão palpável, por assim dizer, consciente, daquilo que vale e significa. Cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao mesmo tempo cidade viva e aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual, capaz de tornar-se, com o tempo, além de centro de governo e administração, num foco de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do país.

Juscelino, em seu “Por Que Construí Brasília”, explica que seu desejo era constituir a base de irradiação de um sistema desbravador que iria trazer, para a civilização, um universo irrevelado, e que por isso teria de ser, forçosamente, uma metrópole com características diferentes. Com a inestimável contribuição dos candangos, pudemos observar a edificação dos projetos mais ambiciosos de Oscar Niemeyer, até hoje os principais cartões-postais da cidade.

Inaugurada em 21 de abril de 1960, Brasília tornou-se a terceira capital do país, depois de Salvador e do Rio de Janeiro. Desde sua construção, atraiu brasileiros de todas as regiões. Hoje, o Distrito Federal conta com uma população de mais de 2.606.000 de habitantes. Nesses 50 anos de história, transformou-se na quarta maior cidade do país, ganhou sua autonomia política com a Constituição de 1988, abrigou o projeto transformador da Universidade de Brasília e foi palco de importantes movimentos culturais e acontecimentos políticos.

A cidade também presenciou os tempos de repressão da ditadura militar. Com seu crescimento, passou a enfrentar os problemas de quase todas as grandes metrópoles do mundo: violência urbana, segregação social, transporte insuficiente, falta de planejamento etc. Nos últimos meses, os cidadãos brasilienses se depararam com os vídeos de Durval Barbosa, os quais denunciavam o esquema de corrupção articulado no âmbito do Governo do Distrito Federal. Desde então, tivemos a prisão do governador, a realização de eleições indiretas e violentas repressões a manifestantes.

A partir desse brevíssimo resgate histórico, podemos relembrar também Walter Benjamin, que sustentava que deveríamos ser capazes de identificar no passado os germes de uma outra história, capaz de levar em consideração os sofrimentos acumulados e de dar uma nova face às esperanças frustradas. Assim, poderíamos fundar um outro conceito de tempo, “tempo de agora” (“Jetztzeit”), caracterizado por sua intensidade e sua brevidade.

A partir desse olhar que lançamos para trás, deveremos fundar novamente o projeto de Brasília. Queremos sim uma cidade inovadora. Queremos uma cidade mais integrada, que enfrente a questão da desigualdade social. Queremos uma cidade com planejamento, com um projeto transformador. Queremos uma cidade com infraestrutura de qualidade, acessível a todos. Queremos uma Brasília sustentável, que se desenvolva respeitando o meio ambiente. E não deixaremos a quadrilha tomar conta de nossa cidade. Vamos lutar incansavelmente por uma nova política para o DF. E esse projeto começa agora. Brasília, outros 50!

P.S. O evento Brasília, Outros 50 será a festa do povo de Brasília. O evento reunirá artistas locais, a fim de valorizar a cultura de nossa cidade, e artistas convidados. Também lá na FUNARTE será montada uma banca do Vote Pra Mudar, para quem quiser tirar/transferir o título de eleitor. Participe!

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