A falácia do “Ficha Limpa” e a ética como pressuposto

Por Edemilson Paraná

Sim, o projeto ficha limpa estimula um debate importante (se bem que nada novo; meus avós já discutiam ética na política). Mas há de se reconhecer que está longe de ser o gigantesco avanço no sistema político que sugere a mídia e a sociedade.

Para aguçar a polêmica, vou direto ao ponto: o enorme apelo eleitoral, para não dizer eleitoreiro, do projeto infelizmente reflete o atraso de nossa cultura política, que sobrepõe a ética à ideologia, a disputa de programas democraticamente conflitados na sociedade à retidão e caráter do homem de bem.

Ética é pressuposto de orientação de comportamento, não plataforma política. Entender isso é também reorientar os costumes da cultura e prática política, inclusive para que ela se torne de fato mais ética. Centrar o debate na ética é, portanto, colaborar para que ela continue sendo moeda de troca (e voto) na disputa política, afinal, são de trocas, disputas e negociações que se faz a democracia. Repito: Ética é ponto pacífico, mínimo necessário, clausula pétrea e não programa de candidato.

Se essa mesma ética fosse de fato tão importante, ou tão básica, para nossa sociedade, poucos seriam convencidos com esse discurso udenista. Afinal, quem estaria disposto a votar no mínimo necessário?

Um dia, enquanto esperava para ser atendido no médico, aproveitava o tempo ocioso para fazer ligações e mais ligações: entrevistas à políticos sobre o tal projeto Ficha Limpa. Um senhor do meu lado, notando a atividade jornalística, resolveu puxar papo sobre o trabalho. Entre uma fala e outra, disparou: “sempre desconfie de quem fica falando de ética o tempo todo. Quem precisa dizer é porque não é”.  Na mosca!, pensei na hora.

Os políticos, pelo menos os que eu já entrevistei, sabem disso, mas óbvio, fingem que não sabem. É conveniente, cômodo. Nossos nobres senhores são magistrais na arte de seguir a onda.

Se ética é tão exigida ou tão exaltada, a falta dela naturalmente é vista como comportamento padrão. E não haveria de ser diferente para um povo que convencionou como prática social subornar policial, sonegar imposto, enganar no troco, arrumar cargo público para o filho.

Feita a digressão sobre a ética na política, vamos ao Ficha Limpa.

Não é uma condenação em primeira ou segunda instância (ou a falta delas) que nos darão um certificado de ética. Vários lutadores sociais, éticos, honestos, são julgados e condenados pela Justiça por participarem de protestos, greves, paralisações, ocupações. Devemos descartá-los da disputa eleitoral? O inverso pode ser dito dos grandes e notórios corruptos que escapam ilesos dos processos a que são submetidos (nas poucas vezes em que isso acontece) sem carregar nenhum passivo.

Na modernidade, separamos a política da moral. Após as atrocidades horrendas no nazi-facismo, resgatamos e consolidamos a independência da política como esfera submetida única e exclusivamente à vontade soberana do povo. O povo consolida-se, na reestruturação das democracias representativas, como censor e juiz da política. E não há como ser diferente. Seria autoritário. Assim fizeram várias ditaduras, entre elas a brasileira que em 1969, introduziu no Direito Constitucional Brasileiro a perda de direitos políticos por improbidade administrativa sem sentença transitada e julgada.

Sim, o projeto do Ficha Limpa no seu formato atual é diferente. Prevê que apenas os considerados culpados após sentença transitada e julgada, em segunda instância, em órgão colegiado, sejam impedidos de disputar eleições. Alguns políticos argumentam que desse modo o projeto deixa de ferir o princípio da presunção de inocência. Extremamente questionáveI, pois há discussão sobre o processo condenatório definitivo, que pode ir até a terceira instância. Mas vamos lá. Lembremos que o projeto Ficha Limpa, tal como foi apresentado ano passado, com as mais de 1,6 milhões de assinaturas, dizia que bastava o candidato estar respondendo processo, sem ter sido considerado culpado, para ser inelegível. Um claro absurdo advindo dessa visão torpe da política. Retomo isso, claro, para dizer que é de fundamental importância resgatar os perigos da judicialização da política sob a exaltação da ética.

Decisões recentes do TSE e do STF dizem que a vida processual do candidato não é condição de inelegibilidade. O juízes Celso de Mello e Eros Grau, e reconhecidas figuras políticas como Ulysses Guimarães, Josafá Marinho, Odacir Klein e outros se manifestaram contra tentativas parecidas em nome da preservação da soberania da vontade popular como norte da democracia. São todos fichas sujas, ladrões, como se convencionou dizer hoje sobre os que são contra o projeto? Estariam eles apenas defendendo seus interesses pessoais?

Será que os políticos que defendem o projeto também não estão defendendo seus interesses pessoais? Será que são todos retos e honestos? Qualquer resposta seria simplista, mas o questionamento, ao contrario, é didático porque afasta a desqualificação do debatedor como ponto da discussão.

O pior é quando, no meio de toda essa massaroca de preconceitos, parte-se do pressuposto de que o eleitor é burro. Mais um índice do belo conceito de democracia e vontade popular a que estamos submetidos. No mês passado, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) baixou uma resolução que obriga todos os candidatos a disponibilizem suas fichas criminais. As fichas serão divulgadas no site do TSE. Será que isso não basta para que o eleitor decida com base no que achar coerente? Será que o problema está no político ou no modo de como lidamos com a política?

No fim, do modo que está, se aprovado ou não o projeto terá pouco efeito prático. Será uma lei anacrônica numa sociedade cheia de privilégios. A limpeza na política não se faz com lei, mas com a construção de uma nova consciência social, de uma nova visão de sociedade. Uma visão que não considere a priori como sujo e amoral tudo que envolve a política e todos que delam tomam parte. Uma visão de sociedade em que o nosso melhor seja estimulado a trabalhar pelo coletivo e por meio dele transformar a realidade.

Essa é nossa luta, essa é nossa bandeira. Apenas com inclusão, aumento da participação, escancaramento radical da democracia e igualdade de condições resgataremos a dimensão da política na sociedade e com ela a ética como pressuposto.

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Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é sociólogo e jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB, com período sanduíche na SOAS – University of London. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atuou como pesquisador-bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional (2015-16). Além de trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de Sociologia Econômica, Economia Política e Teoria Social, é autor do livro A finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016). Também publica intervenções sobre economia e política em sítios como Blog da Boitempo, Carta Capital, Congresso em Foco, Outras Palavras e Brasil em 5.

16 respostas em “A falácia do “Ficha Limpa” e a ética como pressuposto

  1. Muito Bom o texto!!! na verade esse projeto só traz à tona o preconceito que se disseminou na sociedade em relação a política. Daí eu pergunto: a quem interessa de fato reforçar essa imagem? Aos setores reacionários, que se beneficiam com o afastamento do povo das decisões políticas, ou ao lutadores do povo que travam suas batalhas não só em gabinetes, mas também nas ruas?

    Com certeza esse preconceito por vezes se confirma na realidade. Mas não podemos reforçar a idéia de que qualquer político é sujo até que se prove o contrário. Isso é uma inversão total da realidade. Infelizmente poucos políticos tem tido a coragem de rebater publicamente esse projeto. Uns porque tem rabo preso mesmo, outros tantos porque teme o cerco que mídia fechou em torno desse tema.

    Saudações Paraná, pelo excelente trabalho!!

  2. Muito Bom o texto!!! na verade esse projeto só traz à tona o preconceito que se disseminou na sociedade em relação a política. Daí eu pergunto: a quem interessa de fato reforçar essa imagem? Aos setores reacionários, que se beneficiam com o afastamento do povo das decisões políticas, ou ao lutadores do povo que travam suas batalhas não só em gabinetes, mas também nas ruas?

    Com certeza esse preconceito por vezes se confirma na realidade. Mas não podemos reforçar a idéia de que qualquer político é sujo até que se prove o contrário. Isso é uma inversão total da realidade. Infelizmente poucos políticos tem tido a coragem de rebater publicamente esse projeto. Uns porque tem rabo preso mesmo, outros tantos porque temem o cerco que mídia fechou em torno desse tema.

    Saudações Paraná, pelo excelente trabalho!!

  3. “No fim, do modo que está, se aprovado ou não o projeto terá pouco efeito prático. Será uma lei anacrônica numa sociedade cheia de privilégios. A limpeza na política não se faz com lei, mas com a construção de uma nova consciência social, de uma nova visão de sociedade. Uma visão que não considere a priori como sujo e amoral tudo que envolve a política e todos que delam tomam parte. Uma visão de sociedade em que o nosso melhor seja estimulado a trabalhar pelo coletivo e por meio dele transformar a realidade.”

    Fiquei impressionado com a clareza. Gostei do texto e do que disse. Valew

  4. http://www.minhamarina.org.br/blog/2010/04/plano-de-fuga/

    Olha o que a Marina Silva disse:
    “A seleção de candidatos de “ficha limpa” deveria começar nos próprios partidos. O Partido Verde aprovou a Resolução 1/2010, impedindo a candidatura de pessoas condenadas por órgão colegiado em crimes de abuso de autoridade, lavagem de bens, contra a vida e a dignidade sexual, contra o meio ambiente e a saúde pública, entre muitos outros.”

    O que acham?

    • O presidente do partido fez parte de varios governos do Rio, e no entando, esses mesmos governos causaram vários danos ao meio ambiente, com desmatamento na Zona Oeste e em outras áreas por conta da especulação imobiliária. Como vem fazendo o atual Governo do Município, através do seu prefeito, que também foi Secretário de meio ambiente.
      De verde o PV não tem nada.
      Não existe partido no Brasil. E o poder não amana do povo. Ele só vota

  5. Acho esse abaixo assinado uma contradição em si. 2 milhões de assinaturas justificam que um projeto seja votado? Ok, vamos supor que sim. Então, nesse caso, porque os votos que os políticos condenados recebem também não justificam que eles sejam eleitos?

  6. Comento o seu texto sequencialmente. Na lista estudantes-unb comentei parágrafo por parágrafo, coloco aqui as reflexões gerais.

    Um gigantesco avanço passaria não por uma lei desta, mas por uma revolução na consciência das pessoas, como você afirma no final e, como afirmo no final também, realizável apenas a médio-longo prazo.
    Julgo ser um atraso maior na política brasileira não a sobreposição da ética á ideologia e sim a cultura da impunidade, a cultura que faz com que os tubaroes que cometem crimes graves queiram entrar na política para não serem condenados, a quase total certeza de que, uma vez com um cargo político, pode-se fazer qualquer coisa que jamais será vítima de penalidade. Isto sim um dos maiores, senão o maior, atraso na cultura e na prática da política brasileira.
    Idealmente seria ponto pacífico, mínimo necessário, mas o que fazer diante de uma situação em que quase hegemonicamente o contrário acontece? PREVENÇÃO, prevenir-se do envolvimento daqueles que, pregressamente, demonstraram não ter uma conduta a partir deste ponto pacífico visando a que um “mal maior” não seja causado. É o mínimo, e é isto que o Ficha Limpa faz. Gostaria que fosse algo muito mais pesado, mas sequer este mínimo está conseguindo passar, o que dizer do máximo?
    Critique o Regufe e não o projeto Ficha Limpa. As entidades da sociedade civil que propuseram a lei não precisam ficar falando que elas são éticas.
    Aí Paraná, me parece que você não leu o Projeto de Lei e o que ele propõe. Por acaso algum lutador social ético e honesto seria condenado pelos seguintes crimes, conforme consta na lei:
    …”contra a economia popular, a fé pública, os costumes, a administração pública, o patrimônio público, o meio
    ambiente, a saúde pública, o mercado financeiro, pelo tráfico de entorpecentes e drogas afins, por crimes dolosos
    contra a vida, crimes de abuso de autoridade, por crimes eleitorais, por crime de lavagem ou ocultação de bens,
    direitos e valores, pela exploração sexual de crianças e adolescentes e utilização de mão-de-obra em condições
    análogas à de escravo, por crime a que a lei comine pena não inferior a 10 (dez) anos, ou por houverem sido
    condenados em qualquer instância por ato de improbidade administrativa, desde a condenação ou o recebimento da
    denúncia, conforme o caso, até o transcurso do prazo de 8 (oito) anos após o cumprimento da pena;…” E outros crimes considerados graves, nada que um “lutador social ético e honesto” cometeria, caso contrário não seria “ético e honesto”. O projeto prevê prevencão contra aqueles que cometeram crimes graves e não roubo de galinha ou conflito com policiais.
    Primeiro, conforme explicado por esta “carta dos juristas” http://mcce.org.br/sites/default/files/carta_juristas.pdf , o Princípio da Presunção da Inocência se aplica somente ao direito penal e nao ao eleitoral, o que significa que este projeto de lei tem o caráter de prevenir uma pessoa que tenha um passado marcado por condutas “fora da lei” de se envolver na política, visando a prevenir que um possível mal maior seja causado. E o impedimento é apenas em caráter temporário, o que seria removido caso ela fosse absolvida na terceira instância da justiça. Inelegibilidade não é pena, é prevenção. E por mais que o ideal seja que a ética fosse ponto comum e mínimo, porra cara, é só abrir o jornal diariamente e ver o que a falta dela causa. O projeto não se fundamenta no ideal, ele se fundamenta no real e o real nos diz que a corrupção e a falta de compromisso ético corroem todas as entranhas do nosso corpo político. Não foi o Gabriel mesmo que disse que as estruturas políticas de Brasília morreram e escreveu um obituário? E por que ele disse isto? Porque uma enorme parte, não todos, os políticos do DF não tem ética alguma.
    Como está atestado nesta Carta dos Jurista cujo link coloquei acima, cabe ao legislador dizer quais são os critérios de impedimento de elegibilidade. Assim, um projeto de Lei de iniciativa popular atesta que a vontade popular quer restringir as possibilidades de elegilidade. Se as decisões recentes dizem que a vida pregressa de alguém não é condição de inelegibilidade, a vontade popular quer mudar isto e votar naqueles que comprovadamente são “éticos”. Que prevaleça a vontade popular e não o interesse de alguns parlamentares que estão barrando a lei agora na CCJ.
    Como você mesmo colocou ali em cima, não foi político algum que propôs o projeto de lei e sim 1,6 milhão de pessoas, é algo que veio da sociedade civil, a partir de 44 entidades da sociedade civil que se organizam nacionalmente. A lei não tem nenhum caráter eleitoreiro, ela não foi proposta por político nem partido algum, ela veio da sociedade civil. Se algum político agora quer se apropriar dela que batamos no mesmo e não batamos na lei.
    Primeiro questiono a concepção que você traz de lei nesta argumentação. O que seriam o Direito, as leis e o trabalho do legislador senão, dentre várias possibilidades de definição, acompanhar o que é da consciência e vontade da população e tornar isto perene, institucionalizar isto nos meandros do arcabouço jurídico e institucional que existem? E se a sociedade está indignada com tanta impunidade e tanta falta de ética por parte dos políticos, ao invés de um projeto deste demonstrar falta de interesse e uma cultura política apática, mostra exatamente o contrário, mostra que a sociedade brasileira está indignada com a situação e quer modificá-la, na medida do possível, no atual momento sendo este projeto de lei da Ficha Limpa – ou haveria alguma resposta, a curto prazo, que seja melhor do que isto?

    Segundo, fazendo uma comparação com o sistema de cotas. Por acaso alguém que milita a favor do mesmo quer o projeto pra sempre e acha que ele é a solução para todos os males raciais que estão presentes na sociedade? Não! Por acaso os que militam a favor do sistema de cotas restringem sua militância a este projeto de lei que institucionaliza as cotas baseadas em critérios raciais e não fazem nenhum outro tipo de militância para combater aquilo que o sistema de cotas quer combater? Não! Então meu caro Paraná, o que você propõe não é excludente á lei da Ficha Limpa, muito pelo contrário, é complementar, mas o que você propõe não pode acontecer nem imediatamente nem a curto prazo, apenas a médio longo prazo, na atual conjuntura socio-economica e política. E o que está ao nosso alcance agora é este projeto da Ficha Limpa, mesmo com todas as suas limitações.

    Por estas e outras meus caros, sou TOTALMENTE a favor deste projeto Ficha Limpa. Ao contrário do que o Paraná diz, acho sim que aqueles que têm algum tipo de interesse pessoal em relação a esta lei são aqueles que militam contra ela. E, vejam só que ironia do destino, na Câmara dos Deputados ela está sendo barrada pelo PT – aquele que historicamente foi o guardião do bastião da ética na política. Peço aos companheiros e companheiras petistas que estão nesta lista expliquem, detalhada e abertamente, sem esconder nenhuma intenção obscura, o porquê o Partido dos Trabalhadores é contra o Ficha Limpa. Seria por causa dos mensaleiros de 2005? Ou algum outro motivo? Vejam só, tenho muita simpatia ao PT, mas não posso me calar diante de tal situação que considero esdrúxula e que mancha o histórico deste partido.

    Fraternalmente,

    Pedro Piccolo

  7. “Após as atrocidades horrendas no nazi-facismo, resgatamos e consolidamos a independência da política como esfera submetida única e exclusivamente à vontade soberana do povo”

    Paraná, tava relendo seu texto e achei complicado esse trecho. Na verdade, a “vontade soberana do povo” também não pode conduzir a atrocidades? Hitler não foi eleito e teve o respaldo da maioria da população alemã? Acho que pelo contrário, nós aprendemos com esses horrores que a “vontade soberana do povo” não pode ser invocada para suprimir o pluralismo, esmagar minorias, negar o direito de todo cidadão ser tratado como livre e igual. abraços

  8. Desculpe-me, Edemilson, mas não posso, não consigo concordar com nenhuma das suas ideias gerais.

    É preciso salientar que o projeto da Ficha Limpa tinha um teor mais prático que simplesmente “estimular um debate” sobre a corrupção. Seu objetivo era impedir a candidatura de políticos condenados por crimes como formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, contra o patrimônio público, improbidade administrativa, corrupção eleitoral ou compra de voto, entre outros. Nisto, ele tem um efeito prático ainda que tenha sido flexibilizado quando da sua discussão no Congresso, que estabeleceu a necessidade de que a condenação tivesse sido determinada por órgãos judiciais colegiados.

    Infelizmente, nosso país possui diversos problemas de separação entre o público e o privado, o direito e o privilégio, a cidadania e o usurpação. Os nossos problemas com a corrupção vão muito além da esfera política, ocupando espaço no nosso dia-a-dia. Por isso, ao apontarmos o “atraso de nossa cultura política”, seria muito temerário, ingênuo, esperar que a ética seja “ponto pacífico” na prática e na disputa política (e mesmo na sociedade, infelizmente). Ela simplesmente não tem sido. A nossa história político-eleitoral recente não nos tem dado provas disso e ainda precisamos, sim, de mecanismos de controle que protejam o eleitor de candidatos com ficha biográfica criminosa e carregada de passivos penais. Talvez, isso não fosse necessário na Dinamarca ou na Nova Zelândia ( que ocupam as primeiras posições entre países menos corruptos, segundo o “Corruption Perceptions Index”; nesses lugares, talvez a ética seria “pressuposto, não plataforma”, não havendo mais a necessidade de “centralizar o debate na ética”; infelizmente, não é o caso do Brasil). Enfim, partir desta argumentação para criticar a Ficha Limpa é ingênuo e indica desconhecimento sobre o funcionamento da política e do processo eleitoral no Brasil. Por fim, mais uma vez, mantém-se um debate de lógica binária. Valorizar a ética no debate político não significa excluir outros pressupostos importantes para o eleitores. Aliás, o Ficha Limpa ajuda neste quesito, dando espaço para a discussão de outros temas e plataformas, dando ao cidadão mais um mecanismo de segurança – não definitivo – sobre a origem dos candidatos. O Ficha Limpa não busca dar um “certificado de ética” às pessoas. Seu objetivo é mais modesto: evitar a candidatura de políticos condenados por crimes como os já citados.

    Existe um elemento no seu discurso que me preocupa de modo especial. Ele dá a entender que o Ficha Limpa foi aprovado graças a seu “apelo eleitoreiro”, como se ele tivesse sido proposto e construído exclusivamente no âmbito do Congresso. Isto não é verdade e faz injustiça àqueles que passaram noites discutindo a proposta, divulgando-a, fazendo pressão nos gabinetes e no STF, ligando para a imprensa. Nenhum de nós éramos políticos. Somos cidadãos comuns e a Ficha Limpa é resultado de um Projeto de Lei de INICIATIVA POPULAR. Obviamente, muitos parlamentares posteriormente votaram em prol do Ficha Limpa em virtude da pressão e da comoção gerada na imprensa (fruto do trabalho de pessoas comuns, como eu ou você). Mas a essência da vontade pela aprovação do projeto era popular, não deles (nisso, há que se ter cuidado para não se olhar para o meio e pensar que ele, por si só, é a origem; seria outra ingenuidade). Nisso, o caso da Ficha Limpa é justamente um exemplo, na história recente, da expressão da “vontade soberana do povo”, e “não há como ser diferente”.

    Ao levantar questões sobre os “perigos de judicialização da política”, o Ficha Limpa, a “separação da política da moral”, o “nazi-fascismo”, o “povo como juiz e censor da política”, deve-se tomar cuidado para não se confundir alhos com bugalhos em meio a uma generalização, que além de simplista e torta, pode ser muito perigosa. No que diz respeito à presunção da inocência, não vou fazer comentários. Basta ler a jurisprudência já criada sobre o tema no âmbito do STF para saber que esse embate já está consolidado e que a Ficha Limpa não fere tal princípio, que pertence ao direito penal.

    Para concluir: a Ficha Limpa não busca dar “certificado de ética” a ninguém, não é esse seu objetivo (tal generalização é ingênua); a Ficha Limpa não foi criada com objetivos eleitoreiros, pois é resultado do esforço e luta de setores organizados da sociedade que elaboraram um projeto de iniciativa popular e que não têm qualquer projeto de candidatura a mandatos eleitorais (dizer o contrário poderia ser injusto) e não, a Ficha Limpa não fere o princípio de presunção da inocência.

    Um abraço, Edemilson. Desculpe-me pelo longo texto. Queria apenas deixar a minha opinião depois de anos de luta em prol do Ficha Limpa.

  9. A Ficha Limpa é uma falácia, não vale nada? É uma conspiração udenista-imperialista-menchevique-deus-pátria-e-família? Então veja essa notícia: http://www.jb.com.br/pais/noticias/2012/02/17/ficha-limpa-politicos-de-renome-ficam-inelegiveis/.

    Para além do seu blá-blá-blá “libertário” pseudo-intelectual há a realidade dos fatos. Roriz, Paulo Octávio, Severino Cavalcanti, Brunelli e agregados estão inelegíveis. Fim de papo.

    Ninguém tá dizendo que a Ficha Limpa vai salvar o país (só você que quer entender isso).

    É engraçada essa juventude. Falam de reivindicação, de ir às ruas, boina com estrelinha e coisa e tal, mas quando acontece alguma boa ideia saída da população, aprovada por meios democráticos e capaz de contribuir para alguma mudança no país, ficam reclamando. Parece que é só por reclamar mesmo e ficar de revoltadinho “anti-sistema”. Na verdade, vocês fazem papel é de pró-sistema e não sabem (inocentes que são). Roriz e sua turma que vão ficar felizes em ler seu texto. Aliás, li a carta aberta do Roriz sobre a aprovação da Ficha Limpa e fiquei assustado como tem paralelos com a sua.

    Dá medo desse jeito brasileiro de ser, incomodado com qualquer possibilidade de mudança. Essa doença atinge até os jovens.

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