O problema dos privilégios

Leônidas, 25 anos de idade, formou-se em sociologia pela Universidade de Brasília. Estudou vários autores, brasileiros e estrangeiros, publicou alguns projetos de pesquisa, participou de atividades de extensão universitária, envolveu-se ativamente na política universitária.  Estudou e passou em um concurso de nível médio. Ganha 5 mil reais.

Cleiton, 26 anos de idade, está prestes a se formar em Direito pela Universidade de Brasília. Não estudou muito, festou bastante, se empenhou em algumas atividades políticas, sempre deu muito pitaco, sempre teve pouca base. Não trabalha, mas já tem sua vaga garantida no gabinete de algum juiz, ministro, deputado, pela influência de seu pai, Senador da República aposentado. Ganhará por volta de 10 mil reais, inicialmente.

No Brasil, há espaço para poucos. Muito poucos. E isso se dá, também, pela manutenção de privilégios esdrúxulos, sem qualquer base de qualidade ou critério objetivo. São presentes em forma de cargos, funções, atribuições. Não é por acaso que muitas de nossas grandes empresas, em especial no ramo da comunicação, são familiares.

Para além de uma crítica ao grau de ineficiência, que pode ser medido pelo viés somente do capital, há aí um grande problema de acesso, de participação e, especialmente,  de distribuição de riqueza. Num mundo onde os defensores do capitalismo pregam que estão no topo os melhores, os mais bem sucedidos, os mais capazes, fica cada vez mais claro que a exploração das classes inferiores quase sempre se dá pela necessidade de manter privilégios inúteis e descabidos.

Essa manutenção parece ter razão em si, ela não é discutida. É normal que o filho-de-não-sei-quem exerça função social mais bem remunerada, mais alta no status social simplesmente por vir de uma família de tradição. Os colegas de direita dizem que, por isso, faz-se necessário um choque de capitalismo. Faço a eles, portanto, a mesma crítica que fazem às experiências comunistas na União Soviética e China: vocês tentaram e não conseguiram expurgar esse mal do modelo. A diferença é que o capitalismo tenta(?) há mais de 300 anos.

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3 respostas em “O problema dos privilégios

  1. Existem outras explicações para a estrutura familiar das empresas no Brasil: facilidade de apropriação dos recursos de capital alocados pela estrutura produtiva para privilégios pessoais. Conheço uma monografia feita na FD-UnB sobre o tema.

    Ainda padecemos de um péssimo vício de privilégios no Brasil: o capitalismo de Estado. Os benefícios às empresas “amigas do Rei”. No Brasil, ainda é preciso ensinar, como diz o Mangabeira, capitalismo aos capitalistas. Grandes empresas se estruturam e sobrevivem de privilégios e emaranhados de normas e legislações, de estruturas de poder que as garantem como fonte de renda, vinculadas ao Estado.

  2. Acho que a diferença é que em um modelo, isso pode ser criticado pelas regras do próprio modelo, enquanto no outro, isso está incorporado no modelo. Em um, a crítica, quando desvelada, é tida como crítica. No outro, como moralismo.

  3. Gostaria de, nesse mesmo assunto, levantar outra problemática, que foi por mim clareada na leitura do livro “Cristovam Buarque: o semeador de utopias”.

    São as benesses requeridas, e por vezes conseguidas, por sindicatos benefícios ou privilégios? Em outras palavras, o corporativismo sindical também não seria uma fonte de privilégios, assim como o “corporativismo patronal”?

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