“Fora Arruda” e a transformação da realidade política do Distrito Federal*

Por Talitha Selvati

A partir das denúncias e da divulgação dos vídeos, por Durval Barbosa, do esquema de corrupção organizado pelo ex-governador José Roberto Arruda e seus aliados, vários movimentos e coletivos se organizaram para lutar contra a crise política instaurada no Distrito Federal. O primeiro grande ato, construído por esses vários movimentos, gerou a ocupação da Câmara Legislativa do DF – CLDF.

Durante a manifestação, foi levantada a hipótese de entrar na CLDF e, lá dentro, foi decidiu-se pela ocupação como forma de pressão social, reivindicação e garantia de que o escândalo não caísse no limbo do esquecimento ou na inércia política, como tantos outros esquemas de corrupção. Logo após ocupar a Câmara, todos os coletivos se reuniram com seus pares para debater a questão da ocupação e sua possível manutenção como instrumento de reivindicação.

Todos os coletivos presentes em assembléia geral decidiram pela permanência e manutenção da ocupação até que providências concretas fossem tomadas, tais como o impeachment de Arruda e o afastamento dos deputados envolvidos nas denúncias. Assim surge o “Movimento Fora Arruda e Toda a Máfia”.

Foram seis dias de ocupação até os manifestantes serem retirados a força pela PM. Nesse período, diversas atividades foram organizadas, tais como debates profundos sobre a crise política no Distrito Federal, poder popular e mobilização social. Percebeu-se que o momento da ocupação foi fundamental para agregar pessoas e consolidar o movimento, que inicialmente surgiu a partir da indignação de indivíduos e determinados coletivos, mas ganhou organicidade e força nesses seis dias.

Os reflexos da ação do movimento puderam ser percebidos em todo o Brasil quando a mídia passou a pautar todos os dias, nos principais meios de comunicação e em horário nobre, a permanência na CLDF e, com isso, não se permitiu que mais um escândalo caísse na vala do esquecimento.

Permeado pela vivacidade e pela força de um movimento composto por jovens e pessoas que sonham com uma sociedade mais justa e democrática, por uma nova política, por um novo Distrito Federal e um novo Brasil. Essa energia contagiou a todos e os sonhos e a vontade de mudança foram e continuam sendo os principais motores do “Movimento Fora Arruda e Toda a Máfia”.

A pós-ocupação consolidou o movimento pelas lutas subseqüentes que foram importantes para conferir visibilidade e força. Nesses 50 anos da sede da capital Federal, há vários motivos parar comemorar, mas também deve ser um momento de grande reflexão, questionamento e mobilização de todo o Distrito Federal para que juntos possamos construir uma nova política para o DF. A história da nossa cidade mostra que a construção do pertencimento com relação a esta terra desde o início foi manipulado de maneira perversa. Os candangos vieram de todas as partes do Brasil para tentar construir uma nova vida e, como operários, ao contemplarem suas obras, foram colocados à margem, tanto geográfica quanto socialmente.

Esta é a hora de revertermos essa lógica de construção e de dominação hegemônica e colocarmos o povo como protagonista de uma política que deveria servir a própria comunidade e não a um pequeno grupo de senhores de engenho eleitos para servirem a uma lógica coronelista de favorecimento e dominação.

E foi dentro dessa lógica que o Movimento Fora Arruda se construiu e se consolidou. A mobilização popular, o “ir para a rua” e transformá-lo em um real espaço público e político de debate e de reivindicação foi o grande agente transformador da realidade política do DF. É claro que ainda há muito para ser feito, e o movimento não vai parar, contudo, há que se reconhecer a importância da mudança já ocorrida.

Hoje, temos um ex-governador preso, e sendo processado; ex-deputados presos e igualmente sendo processados. Isso representa uma vitória sem tamanho e além de uma transformação é um recado. A potencialidade da criação de uma nova política e o recado de que a política não pode mais ser tratada como um espaço privado de favorecimentos e realizações pessoais.

Para que o Movimento Fora Arruda e Toda Máfia alcançasse tais conquistas foi preciso ultrapassar diversos obstáculos e enfrentar algumas dificuldades. Cabe citar, por exemplo, a atuação da polícia do DF, em especial no dia 9 de dezembro. Nessa data, foi realizado um protesto na frente do Palácio do Buriti, sede do GDF. No momento em que os manifestantes iniciaram a caminhada em direção à rodoviária, a polícia passou a agredi-los com bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e cassetetes.  A atuação desproporcional e injustificável da polícia e a imprudência do comando da operação foram responsáveis por cenas de barbárie contra estudantes.

O Movimento não possui como objetivo somente a queda de Arruda. É claro que a prisão e a cassação de ex-governador, bem como a saída de Paulo Octávio, foram extremamente significativas e representaram uma grande vitória do movimento. No entanto, sabe-se que a saída do governador não acarreta o fim do esquema de corrupção que foi articulado no âmbito do GDF e que há muitos passos a serem dados até o fortalecimento de uma nova política no DF.

Ainda temos uma Câmara Legislativa dominada por deputados envolvidos no escândalo e ligados ao governo de Arruda. É preciso aprofundar as investigações sobre os desvios de dinheiro ocorridos na gestão do DEM e partidos coligados e também na gestão anterior a Arruda. Também é preciso que sejam revistos diversos projetos que foram aprovados no decorrer dos últimos anos na CLDF, os quais envolveram interesses particulares dos deputados em detrimento das necessidades da população do DF. É por isso que as atividades do movimento não se encerraram, muito pelo contrário..

Nesse processo de construção de uma nova política para Brasília, é preciso reconhecer a imprescindibilidade do Movimento Fora Arruda e Toda Máfia, o qual uniu militantes dos movimentos sindical, popular e estudantil e que saiu às ruas. A insatisfação da população brasiliense e a ação política do movimento tiveram um papel fundamental para impedir a impunidade e para evidenciar a necessidade de mudança.

Não há transformação da sociedade que não seja uma transformação coletiva. Quando cada indivíduo se reconhece como agente transformador da realidade da sua casa, da sua cidade, do seu país, há uma força que foge da mera vontade e se torna uma obrigação, pois a reivindicação vem justamente daqueles a quem a política deve servir.

Os movimentos sociais exercem um papel fundamental no sentido de empoderamento dos indivíduos e da conscientização do seu lugar no mundo. A noção de pertencimento e participação ativa traz em si a consciência do ser-cidadão, da responsabilidade que cada pessoa considerado tem um papel relevante na manutenção de uma determinada estrutura e que, coletivamente, tem mais poder e mais força para alterar essas estruturas, sejam políticas, econômicas ou sociais.

A política é primeiramente um espaço público e nenhuma ação/decisão dela deverá sair que não seja em prol dos cidadãos a quem esta política tem de servir, ou seja, um coletivo complexo formado por toda a sociedade considerando cada ser humano em sua individualidade e necessidade.

*produzido em co-autoria com Laila Maia Galvao

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3 respostas em ““Fora Arruda” e a transformação da realidade política do Distrito Federal*

  1. Antes de comentar, venho aqui elogiar o excelente trabalho feito pelo Brasil e Desenvolvimento. Ao promover o pensamento na Universidade, numa chave que tenta ser critica, vai contra uma forca quase monolitica que domina o pensamento universitario, e sobretudo o estudantil…

    Em primeiro lugar, falta no texto uma analise sobre a existencia (talvez fosse mais preciso falar de ausencia) da esquerda organizada no Distrito Federal nos ultimoa anos. Houve uma sacudidela, e daquelas, com a ocupacao da CLDF, e que pode encaminhar para reorganizacao da esquerda social no DF.

    Possibilidade nao e certeza. aqui cabe uma analise que a direita organizada fizesse um trabalho de base no DF, pegando a base social desta mesma esquerda e utilizando para seus fins. A desocupacao da CLDF, com os arrudistas vindo das satelites em sua maioria colocas uma questao de classe para ser pensada (e nao vamos colocar a questao alienacao, pois todos os atores sociais da ocasiao sabiam o que estavam fazendo).

    Enfim, e isso mas nao e so isso…

  2. Realmente Marcelo, faltou-nos essa importante análise sobre o papel primordial da ocupação da CLDF como um marco da (re)mobilização da esquerda no DF para articulação de reivindicações em torno de pautas comuns.
    Um reflexo bem claro dessa (re)articulação é o BRASILIA OUTROS 50! que ocorrerá neste final de semana, dias 9, 10 e 11, na associação viver na estrutural!
    Fica o convite!
    Vamos participar desse espaço de construção coletiva!
    O objetivo é construir uma plataforma de reivindicações dos movimentos sociais para o novo governo do DF além de construir um espaço de mobilização e reivindicação permanente!

  3. Olá pessoas,
    Concordo, mas agora a poeira baixou e o governo de transição está acontecendo, bem ou mal. É necessário apurar o real. Agora que a poeira baixou, faz-se necessário avaliar alguns apectos que antes era difícil perceber. Como exemplo o envolvimento dos secretários em movimentos ilícitos ou de conivência particular.

    Escrevo apenas para incentivar espirito de denuncia, porém livre de achismos e estruturados em fatos e ações reais que por vezes são fundamentados em tendência de pensamentos e inusitadas conclusões antes mesmo de ser verificado. Enfim, quem rouba, cadeia, mas nao podemos ser massa de manobra mais uma vez e concluir fatos, como vendem, desconsiderando a realidade ocorrida.

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