Entre o institucionalismo e o ativismo: o PT e o Fórum Social Mundial

Deixo aqui um artigo publicado originalmente no sítio Carta Maior:

O 9° parágrafo da carta de princípios do Fórum Social Mundial estabelece a seguinte restrição: não deverão participar do Fórum representações partidárias nem organizações militares. Por que um evento de organizações de esquerda restringe a participação de partidos políticos? Por que e como os partidos políticos utilizam esse espaço? No estudo da história do PT e da sua participação no Fórum Social Mundial é possível perceber alguns dilemas das relações entre partidos políticos e movimentos sociais. O artigo é de Gabriel Santos Elias.

Gabriel Santos Elias (*)

Em janeiro de 2009, no calor abafado de Belém do Pará, militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) gritavam: “Brasil urgente, Dilma presidente”. Essa cena provavelmente não chamaria atenção de qualquer pesquisador, não fosse pelo fato de ter ocorrido em pleno Fórum Social Mundial, evento que mantém no 9º parágrafo de sua carta de princípios a seguinte restrição: “não deverão participar do Fórum representações partidárias nem organizações militares”.

Daí surgem as duas questões que me intrigaram: Primeiro, por que um evento de organizações de esquerda restringe a participação de partidos políticos? Segundo, por que e como os partidos políticos utilizam esse espaço? É através dessas duas perguntas que busquei estudar a relação dos partidos políticos com movimentos sociais.

A primeira dificuldade foi encontrar uma base teórica para sustentar a pesquisa, já que tanto por parte do estudo de partidos políticos como de movimentos sociais pouca atenção se dá à relação existente entre eles. Se por um lado focam muito a autonomia de um em relação ao outro, principalmente a escola dos Novos Movimentos Sociais da Europa, que teve forte influência sobre o estudo de movimentos sociais no Brasil, por outro lado se assume que um faz parte quase que integralmente do outro, visão muito forte na literatura anglo-americana.

Fui buscar na atuação do Partido dos Trabalhadores no Fórum Social Mundial meu objeto de estudo para essa pesquisa. O PT tem uma relação histórica com movimentos sociais, conflituosa, mas permanente. Surgiu do novo movimento sindical, principalmente de São Paulo, com forte crítica à relação estreita dos antigos sindicatos com o Estado. Mesmo assim se institucionalizou sob o discurso oficial de levar para o espaço institucional as demandas dos movimentos sociais. Um dos motivos para ter em Porto Alegre a realização das primeiras edições do Fórum Social Mundial foi justamente a abertura e apoio dos governos estadual e municipal do PT para a realização do evento.

O PT sempre teve uma relação forte com o Fórum Social Mundial, desde a primeira edição participou da organização das edições no Brasil. Mas inicialmente essa relação se dava através do PT local, no Rio Grande do Sul, e as atividades eram organizadas pela Fundação Perseu Abramo, instituição vinculada ao Partido.

Na organização do Partido para o Fórum de 2009, pela primeira vez se formou um Grupo de Trabalho através do Diretório Nacional exclusivamente para arquitetar sua participação no Fórum Social Mundial. O responsável por essa organização, então Secretário de Relações Internacionais do Partido, Valter Pomar, disse que o orçamento para a atuação do PT no Fórum Social Mundial chegou a prever por volta de um milhão de reais. A tenda comemorativa dos 50 anos da Revolução Cubana, um dos maiores espaços de atividades do Fórum, foi construída pelo PT, com recursos do próprio partido e contava com completo sistema de iluminação e áudio. Nessa tenda foi realizada a atividade com a Ministra Dilma Rousseff retratada no início do artigo.

Em uma análise das atas das reuniões desse Grupo de Trabalho foi possível perceber a preocupação do partido em garantir a sua visibilidade no Fórum, com a distribuição de bandeiras, camisas e broches, e até com definição de metas de participação de militantes petistas por região do país. Entre os motivos para essa importância dada à visibilidade do partido constavam a força do Partido do Socialismo e Liberdade (PSOL) no Pará e o fato de ser um estado governado pelo PT. Mas e a proibição dos partidos políticos no Fórum?

No estudo da história do PT e da sua participação no Fórum Social Mundial é possível perceber alguns dilemas das relações entre partidos políticos e movimentos sociais. No mais importante deles e que basicamente resume os demais, o partido precisa se situar entre a prevalecência dos seus princípios (sua identidade) e a estratégia para atingir seus objetivos. No contexto do PT no Fórum Social Mundial, pode-se perceber uma atuação predominantemente focada na estratégia política de dar visibilidade ao partido político, inclusive sob o viés eleitoral de disputa com outro partido de esquerda. Mas isso não é suficiente para responder à pergunta sobre o porquê da proibição dos partidos políticos no Fórum, pois percebemos que a organização do Fórum faz vista grossa e permite a ostensiva participação do partido no Fórum.

O Fórum surgiu em 2001 e a proibição da participação do partido no espaço faz parte de um discurso, fruto de um debate importante desse período, que privilegiava a autonomia dos movimentos perante o Estado e conseqüentemente os partidos. Como bem disse Gustavo Codas, Assessor da Secretaria de Relações Internacionais da CUT, a proibição não deixa de ser uma atitude cômoda por parte da organização do Fórum, para evitar possíveis conflitos internos devido à participação dos partidos políticos.

Fato é que a relação dos partidos políticos com os movimentos sociais ainda precisa ser mais abrangentemente explorada pela academia, tendo o partido como objeto, sem incluí-lo abstratamente no que é conhecido como Estado ou como sociedade civil. Essa relação possui dilemas que influem diretamente na atuação tanto dos partidos políticos que buscam se inserir nos movimentos sociais, quanto na atuação dos movimentos sociais que ao mesmo tempo em que buscam restringir essa relação para preservar sua autonomia se utilizam dos partidos para ter acesso ao Estado quando necessário.

(*) Gabriel Santos Elias é estudante de graduação em Ciência Política na Universidade de Brasilia, membro do Programa de Educação Tutorial em Ciência Política e do grupo Brasil & Desenvolvimento.

Esse artigo é baseado em um ciclo de pesquisas sobre Ação Coletiva Transnacional realizado por dois anos pelo Programa de Educação Tutorial em Ciência Política (PET-POL). Nesta sexta feira, dia 26, será realizado o Seminário Dez anos do Fórum Social Mundial: Diferentes Olhares, com a apresentação dos resultados da pesquisa e comentários de importantes pesquisadores da área. Estão todos convidados a participar!

Dez Anos do Fórum Social Mundial: diferentes olhares

O Instituto de Ciência Política (IPOL), o Grupo de Pesquisa Sociedade Civil e Negociações Internacionais e o Programa de Educação Tutorial em Ciência Política (PET/POL) , da Universidade de Brasília, promovem, dia 26 de março, o Seminário “Dez Anos do Fórum Social Mundial: diferentes olhares”. O evento é fruto de dois anos de pesquisa sobre o Fórum Social Mundial, que envolveu estudantes de graduação e pós-graduação em ciência política. O objetivo é promover o debate sobre o tema a partir da apresentação dos resultados da pesquisa. O evento também conta com a participação de especialistas externos, que foram convidados para apresentar comentários e críticas.

Os debates serão realizados no auditório Joaquim Nabuco, Prédio da FA (próximo ao posto de gasolina) Campus Darcy Ribeiro, Asa Norte, Universidade de Brasília. (Mais informações pelo telefone 3307-2866)

PROGRAMAÇÂO

Abertura (9:00hrs)
Marilde de Loiola Menezes (Diretora do IPOL/UnB)
Marisa von Bülow (Vice-Diretora do IPOL/UnB e Coordenadora da Pesquisa)

Mesa 1 – Desafios do Fórum Social Mundial (9:15-11:30hrs)
“Democracia e Participação no Processo de Organização do Fórum Social Mundial” – André Mombach (Programa de Pós-Graduação em Sociologia/UFRGS)

“Como é o Caminho para um Outro Mundo? Fórum Social Mundial: Meios e Fins” – Pedro Mesquita (IPOL/UnB)

“A Relação dos Partidos Políticos com Movimentos Sociais: O Caso do PT e o Fórum Social Mundial” – Gabriel Santos Elias (IPOL/UnB)

Apresentação do Projeto: “Balanço de Dez Anos do Fórum Social Mundial” – Fernando dos Santos Modelli & Pedro Vasconcelos (IPOL/UnB)

Comentaristas:
Átila Roque (Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC e ex-membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial)

Antonio Lassance (doutorando em ciência política, IPOL/UnB, pequisador do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas e Assessor da Presidência da República)

Mesa 2 – Entre Visibilidades e Ausências (14:00-16:15hrs)
“Movimento Feminista e Fórum Social Mundial: revendo a relação entre igualdade e diferença” – Isadora Cruxên (IPOL/UnB)

“Negros em movimento: os movimentos negros brasileiros no Fórum Social Mundial” – Juliana Maia (mestranda, IPOL/UnB)

“O Fórum Social Mundial e a participação de organizações baseadas na fé” – José Roberto Frutuoso (mestrando, IPOL/UnB)

“Não foi bem assim: a cobertura do Fórum Social Mundial de 2009” – Tiago Amaral (bacharel em ciência política, UnB)

Comentaristas:
Marcelo Rosa (Professor do Departamento de Sociologia/UnB)
Moema Miranda (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase e membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial)

Mesa 3 – Impactos do Fórum Social Mundial: emoções, identidade e propostas
(16:30-18:15hrs)
“A Economia Solidária e a Ocupação do Fórum Social Mundial” – Paula Pompeu (bacharel em ciência política, UnB)

“O Estudo das Emoções no Fórum Social Mundial” – Jean Pierre d’Ugard Liza (IPOL/UnB)

“Juventude Além dos Clichês: o caso do Acampamento Intercontinental da Juventude” – Priscilla Caroline Brito (IPOL/UnB)

Comentaristas:
Marcelo Kunrath (Professor do Departamento de Sociologia/UFRGS)
Rodrigo Nunes (pós-doutorando, PUC-RS, ex-membro do Comitê Organizador do Acampamento Internacional da Juventude e do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial)

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