O Voto Econômico

Por Gustavo Capela

O vínculo entre o poder econômico e as decisões políticas ficou evidente na autal crise política do Distrito Federal. Não que não fosse perceptível antes. Sérgio Conti, em seu livro “Notícias do Planalto”, demonstrou com imensa clareza a relação entre empresas de grande porte e as decisões governamentais. Alem dele, a imprensa noticia com freqüência os abusos que ocorrem na época de eleições por parte daqueles que possuem mais dinheiro. Como exemplos temos as histórias dos coronéis do nordeste que pagavam valores irrisórios por cada voto, os lotes doados por Roriz no Distrito Federal, a política das grandes empresas, como a General Motors Company (GMC) e a American Telephone and Telegraph (AT&T), que financiam tanto os republicanos quanto os democratas para poderem ter influência independentemente de quem ganhe, dentre outras várias situações análogas. O diferente dessa vez é que a cobertura da mídia e as decisões institucionais não deixaram dúvidas que há um problema sintomático na democracia brasileira: a compra de votos.

A  crise que ficou conhecida como “mensalão do DEM” teve seu ápice na prisão do então-governador José Roberto Arruda, apos várias imagens comprometedoras serem por diversas vezes veiculadas em rede nacional. Numa crise que envolve deputados distritais, secretários do Governo e empresários embolsando e “acuecando” dinheiro público, voltamos a nos perguntar qual exatamente é o vinculo entre o poder econômico e as decisões políticas no sistema econômico-social que é o capitalismo.

Michael Moore, cineasta Americano, aborda esse tema em seu mais-novo-filme “Capitalism, a Love Story” (Capitalismo, uma história de amor), onde por diversas vezes demonstra situações claras de intervenção daqueles que comandam a economia na esfera política. Em uma das imagens mais fortes, e talvez mais simbólica, do filme, o Presidente da Merril Lynch, uma das maiores empresas dos Estados Unidos, manda o Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, acelerar seu discurso, terminá-lo logo. Tal cena traz algumas perguntas. Dentre elas, a que o próprio Michael Moore faz: “Afinal, quem é esse cara para mandar o Presidente dos Estados Unidos acelerar seu discurso?”.

A resposta é simples: esse é o cara que, tendo sido apontado Ministro da Fazenda no Governo Reagan, diminuiu os impostos das grandes fortunas e permitiu que os grandes empresários tivessem anos recordes enquanto o desemprego e a diferença social estava cada vez mais alta. Não é só nos EUA que isso acontece, claro. As privatizações no governo Fernando Henrique ajudaram a erguer impérios de figuras como Daniel Dantas, banqueiro constantemente envolvido em problemas de corrupção, espionagem e crimes contra o sistema financeiro aqui no Brasil, nos EUA e na Itália. Collor, por sua vez, auxiliou empreiteiras como a Odebrecht e a Andrade Gutierrez em várias “licitações”, como demonstra o livro de Conti.

Apesar de alguns ainda defenderem que o capitalismo é mero modelo econômico que aloca bens de forma eficiente, há quem defenda, há tempos, a vinculação desse modelo econômico a uma forma de viver. Sendo assim, o capital, o dinheiro, está atrelado a todos os aspectos de nossa vida, não sendo a política uma exceção a essa regra. A felicidade, assim, como os incentivos sociais de segurança, estão todos atrelados ao acúmulo de capital e à demonstração dele. Afinal, o que é o consumismo se não uma forma de expressar a capacidade de acúmulo individual?

A base do sistema capitalista tem como pressuposto a idéia de que o melhor, o mais capaz, sobrevive num ambiente competitivo e é ele quem encarna os interesses da sociedade. O indivíduo, por exemplo, que produz carne de uma determinada forma, caso venda mais que  outro sujeito, deve fazer algo melhor, deve ser mais capaz. Sendo o capitalismo, dentro dessa visão, um modelo econômico que aloca bens da melhor maneira possível, o indivíduo que mais acumula é o mais benéfico à distribuição, à alocação dos bens.

Essa lógica é traduzida para todas as outras esferas sociais. Aquele que possui mais dinheiro é mais capaz, é mais benéfico à sociedade e, portanto, é mais importante. Por isso, deve poder comer mais, beber mais, jogar mais, votar mais.

Assim vivem as pessoas em nosso modelo de sociedade. Vivem para mostrar suas capacidades individuais de acumular capital, pois é aí que demonstram sua importância social.

É dentro dessa lógica que estão inseridas muitas das escolhas políticas institucionais. Uma empresa, quando defende “seu interesse” supostamente defende a maior possibilidade de adquirir lucro. Tendo ela mais capacidade acumulativa, é ela que é encarada como mais importante e mais capaz de trazer ao indivíduo e à sociedade maiores benefícios. Se esse argumento não colar, ela tem dinheiro para comprar políticos. Como diz o brocardo capitalista, “todo homem tem seu preço”.

É também a empresa a mais capaz de garantir ao administrador público maior capacidade de acúmulo em campanha, é ela a mais capacitada a blindá-lo, a fazer propaganda em seu favor no futuro, a inserir matérias “prontas” em jornais que moldam a opinião pública. E isso, sistematicamente, parece não se apresentar como um grande problema. Afinal, os interesses individuais se enfrentam numa esfera de liberdade e igualdade de condições, não é isso?

Pelo que se entende da esfera pública, com Habermas, ela não pode ser um ambiente de disputa de interesses individuais. Tampouco pode ser a guerra das coligações poderosas que ofuscam o interesse da minoria organizada ou desorganizada. A esfera política deve servir com base na solidariedade construída. Isso significa dizer: respeito, inclusão e  constante dialogo com o diferente, com o outro. O sistema econômico que, já não é surpresa, está intrinsecamente ligado ao modo como vivemos em sociedade, deve também refletir essa lógica. Como podemos falar em “eficiência” se existem milhões de pessoas morrendo de fome e outros comem o triplo do que precisam? Essa cultura do “quero tudo e quero agora” beneficia poucos e não expõe em nenhum sentido o significado atual de público.

A política é o locus do embate público. Ela é, essencialmente, um elemento público, onde os cidadãos deveriam se comprometer em atender as necessidades de todos. Esse é o foco do público: ser um espaço de todos, para todos. Enquanto utilizarmos um critério excludente que em nada mede a abertura ao estranho, ao diferente, e somente reforça a necessidade de criar funis sociais, nossa política não expurgará o mal da corrupção. Faz parte de um sistema que quer, como fim último e único, adquirir capital ser cego às questões que possam impedir tal objetivo.

Está na hora de revermos alguns pressupostos que tomamos como óbvios. Talvez o modus operandi capitalista seja incompatível com um procedimento democrático participativo, liso e plural, ou talvez é preciso moldar e controlar certos aspectos do modo de produção para que ele sirva o homem e não o contrario. Não existem respostas prontas, como alguns crêem, não existe resposta certa. Por isso mesmo, fazemos papel de bobo quando, com medo de questionar o óbvio, não nos expomos ao ridículo.

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6 respostas em “O Voto Econômico

  1. Ótimo texto.

    Por isso que o capitalismo anda de mãos dada com o Estado de Direito. O acúmulo de capital é mero um incentivo, um prêmio, para que os indivíduos produzam mais e melhor, sejam eficientes e inovadores. Portanto, quem tenta acumular capital burlando a lógica econômica da eficiência, quem tenta roubar o troféu, deve ser punido.

    A corrupção é uma deterioração da ética capitalista. São os incompetentes tentando acumular capital sem seguir as regras do jogo. A luta não tem que ser contra o capitalismo, mas contra o malogro das instituições.

    Quanto ao ideal de solidariedade pública de Habermas, a história da humanidade já mostrou que ñ funciona. O Estado teria que FORÇAR as pessoas a serem solidárias. As centenas de presos políticos em Cuba e as milhões de vidas perdidas nos estados socialistas foram acusadas de atentarem contra a “revolução social”. Isso que é solidariedade?

    Prefiro o conceito hegeliano do Estado como mediador dos interesses individuais. Mas aí já seria um outro debate….

  2. O comentário ficou longo, mas espero que seja lido, pois se trata de um crítica que, a meu ver, pega os pontos importantes do texto (porque a lógica capitalista domina a nossa sociedade?) e propõe uma visão diversa da apresentada. Como diria Jessé: os problemas não estão aí óbvios, é preciso entendê-los, e só por meio de uma abordagem teórica isso é possível. Apresentação óbvia é show. O texto tenta de fato entender, mas como digo abaixo, acho que falha na teoria.

    “O capitalismo é um mal, e não se pode regular o mal. É preciso substituí-lo por alguma outra coisa, e esta coisa é ‘democracia’”. Começo o meu comentário com esta frase do Michael Moore no filme citado, pois acho que este é o cerne do texto, ou pelo deveria ser, a meu ver: “há um problema na democracia brasileira”. E de fato não discordo, o texto é cheio de exemplos: a compra de votos, o favorecimento dos megaempresários, o vínculo entre poder econômico e decisões políticas, dentre alguns. Porém, o que não podemos fazer é transformar esta percepção dos problemas em show, do tipo que só serviria pra entreter os telespectadores do Fantástico. É preciso mostrar, ou menos tentar, qual a raiz do problema. Não estou dizendo que sei a resposta, mas pretendo simplesmente fazer algumas criticas à abordagem que texto dá a essa raiz do problema.

    “A política é o locus do embate público. Ela é, essencialmente, um elemento público, onde os cidadãos deveriam se comprometer em atender as necessidades de todos. Esse é o foco do público: ser um espaço de todos, para todos. Enquanto utilizarmos um critério excludente que em nada mede a abertura ao estranho, ao diferente, e somente reforça a necessidade de criar funis sociais, nossa política não expurgará o mal da corrupção. Faz parte de um sistema que quer, como fim último e único, adquirir capital ser cego às questões que possam impedir tal objetivo. Está na hora de revermos alguns pressupostos que tomamos como óbvios.”

    Acho que posso utilizar esse trecho como um resumo do pensamento por trás do texto: “os políticos atuais, ao menos aqueles citados em casos de corrupção, não encaram a política como espaço do público, instrumentalizam-na de modo a favorecê-los e, consequentemente, favorecer àqueles que os apóiam, o capital. Mas penso que talvez seja justamente esta a visão que precisa ser revista”. Digo: desde há muito tempo que o pressuposto da política é representativo, ou seja, a defesa de interesses alheios, de coletividades que apóiam determinado político. O pressuposto do capitalismo sim poderia ser definido como embate de interesses meramente individuais; daí ser até possível dizer que essa lógica se transpôs à política, deturbando-a.
    Surge então uma questão a ser respondida: porque a lógica do capitalismo dominou a política? E mais, porque essa dominação conseguiu ser tão devastadora? Eis a minha tentativa de delinear uma resposta: quanto à primeira, porque a política não é, nunca foi, nem deveria ser o campo de defesa do bem comum. O espaço político é sim o locus do embate público, mas somente porque é o espaço onde os interesses individuais se confrontam, pois nunca podem dizer respeito somente aos seus donos numa sociedade. É fato que qualquer interesse, pois mais simples e fechado que seja, irá influenciar a vida de outras pessoas, caso estas vivam em sociedade, ou seja, qualquer interesse é, em alguma medida, público, principalmente numa sociedade globalizada.
    E porque a defesa da lógica capitalista no âmbito da política conseguiu ser tão devastadora? Justamente porque a política sempre foi considerada o espaço do bem comum. Por bem comum aqui não necessitamos nem abstrair a um “comum” a toda à humanidade, mas apenas o bem comum a alguns. O político sempre foi considerado responsável por defender a coletividade, e ,ainda que alguns deliberadamente não o façam, preciso acreditar que grande parte defenda os interesses que julga favoráveis àquela coletividade que representa. Desse modo, foi possível que alguns grandes políticos, favorecidos por megaempresas e um modelo elitista de democracia, conseguissem defender e levar adiante grandes projetos de país, tomando-os por necessários ao bem do pais.
    Políticos como Fernando Henrique Cardoso, e outros, com certeza acreditavam que o estavam fazendo pelo país era o melhor para todos; sei que isso nem de longe se aplica a todos, mas pense bem: é este o ponto de chegada da visão de política que percebo no texto. Uma política permeada por representantes do povo que de fato sejam capazes de ouvir, considerar o outro, e ainda assim pensar nos interesses de todos: ou seja, precisamos do político “Hércules”. Este comparação não é uma crítica ao seu texto, pois de fato acho que não foi bem isso que disse. Mas é uma triste conclusão decorrente do modelo de democracia representativa que atualmente vigora.
    É aqui sim onde, a meu ver, deveriam se focar as críticas, o questionamento dos pressupostos dados por óbvios: a democracia representativa é de fato democrática? Nós temos um modelo em que alguns poucos políticos influentes (e influentes graças à lógica do capital que reifica nossa sociedade) conseguem angariar votos e mais votos daqueles incapazes de agir, seja por desorganização, seja por falta de recursos. E ainda se dizem representantes do interesse coletivo, quando são claramente elites legitimadas pelo voto. Esse é um insight legal de um texto do Luís Felipe Miguel sobre as bases elitistas da democracia contemporânea. Alguns de vocês com certeza sabem do assunto muito melhor do que eu. (http://www.scribd.com/doc/19241303/LUIS-FELIPE-MIGUEL-a-Democracia-Domestic-Ada)
    O nosso modelo democrático atua majoritariamente por meio da passividade do eleitor. Este é incapaz de agir, pois não detem os requisitos necessários à elite. A democracia contemporânea (e creio que a visão do espaço político como defesa do bem comum só contribui para esse cenário) é claramente assentada em bases elitistas. Alguns possuem capacidade de liderança (defender o interesse do outro) e outros não: a democracia se tornou meio de legitimação das elites capitalistas.
    Para finalizar, pois o comentário já está muito longo, vou propor uma visão de meu agrado, baseada também na citada teoria habermasiana, mas numa interpretação diferente, e com certeza imatura, mas enfim… não vou deixar de escrever por medo de errar!

    “Pelo que se entende da esfera pública, com Habermas, ela não pode ser um ambiente de disputa de interesses individuais. Tampouco pode ser a guerra das coligações poderosas que ofuscam o interesse da minoria organizada ou desorganizada. A esfera política deve servir com base na solidariedade construída. Isso significa dizer: respeito, inclusão e constante dialogo com o diferente, com o outro. O sistema econômico que, já não é surpresa, está intrinsecamente ligado ao modo como vivemos em sociedade, deve também refletir essa lógica. Como podemos falar em “eficiência” se existem milhões de pessoas morrendo de fome e outros comem o triplo do que precisam? Essa cultura do “quero tudo e quero agora” beneficia poucos e não expõe em nenhum sentido o significado atual de público.”

    Quanto à segunda frase da citação acima, concordo plenamente: de fato, os pressupostos da comunicação, que não são senão os pressupostos da liberdade, impediriam que interesses de coligações fossem favorecidas pelo simples fato de contarem com o apoio do grande capital. Mas daí a deduzir isso da primeira frase, creio que é este o problema que nos leva manter nosso modelo de democracia representativa durante tanto tempo. Não acho que as pretensões de validade defendidas em uma esfera pública, por meio da razão comunicativa, sejam outra coisa que não interesses individuais. O que difere na esfera pública habermasiana é justamente a tentativa, e frise-se em tentativa, de fazer valer certas condições que propiciem efetiva liberdade, impedindo que a razão que domine as discussões seja meramente reflexo do domínio da sociedade pelo capital, por exemplo.
    Pelo que entendo por esfera pública em Habermas, esta pode significar duas instâncias diferentes, ligadas, mas diferentes. Primeiro a esfera pública em sentido amplo, que não se reduz a uma esfera como deduz o nome, mas sim uma complexa rede de relações comunicacionais que gera poder comunicativo. Já a esfera pública institucional, representada comumente pelo parlamento, deveria ser afetada por este poder comunicativo produzido na sociedade civil e transformá-lo em poder administrativo, “direito”, capaz de intervir nos sistemas sociais. Ocorre que numa sociedade civil em que não existe igualdade, e consequentemente liberdade, predomina outra coisa que não a vontade das pessoas, e issa determina o poder gerado nessas relações comunicacionais: a lógica do capital é exemplo.
    Mas daí a dizer que a esfera pública não permite defesa de interesses individuais é errado. Ela é justamente o espaço de exposição dos seus interesses, onde você pode se manifestar contra qualquer ação que influencie em sua vida, independentemente do bem comum ou qualquer interesse coletivo. O problema não está nos interesses, mas nas instituições que gerenciam estes interesses, reificando a sociedade.
    Há algum tempo já havia comentado defendendo que seriam as instituições nada mais que pessoas, e que portanto a atitude deveria começar por elas mesmas. Mas não num sentido de identificação e defesa do coletivo, mas identificação e defesa do que acredita. E nesse ponto essa defesa deve ser democrática, do contrário teríamos uma utilização perversa da esfera pública, como o que acontece hoje, e você exemplificou bem em alguns exemplos. Mas de maneira alguma isso se confunde com a Política com local de discussão do bem comum, ao contrário, o agir democrático apenas pressupõe um único bem comum, um único valor que deve permear o agir: liberdade. E esta deve pressupor a igualdade, do contrário não é liberdade. Estes são os únicos valores que devem permear o público; consequentemente, tudo o que se dá na esfera pública em sentido lato.

    Concluindo, acho que texto foca em alguns problemas muito importantes, como o papel do capitalismo na nossa sociedade. Porém, ao propor uma solução, ele reitera justamente aquilo que permitiu ao modelo capitalista ser tão devastador: um modelo de política focado no que é melhor para todos. A política não deve ser isso. Ela deve ser o regramento institucional que permita a todos expressarem seus anseios, mesmo que capitalistas, afinal nenhum argumento pode ser rejeitado a priori. Uma esfera pública habermasiana, permeada por liberdade e igualdade é perfeitamente compatível com a defesa de interesses individuais.
    E, também, ao buscar a solução nas atitudes dos políticos o texto meio que falha numa lição que ele mesmo propõe. Será mesmo a democracia representativa o único modelo possível? Não seria ela a legitimadora da elite capitalista. Creio que o problema não está na política ser encarada como defesa de interesses individuais, mesmo porque não acredito que ela seja de fato encarada assim. O problema está em que as pessoas afetadas não são consultadas, graças a um modelo que pretende zelar pelos interesses do outro!
    Eu escolheria um caminho rumo a uma democracia mais descentralizada, com inspirações tocquevilianas, e, portanto, quase direta. Mas enfim, o único país que tentou colocar isso em prática todos sabe qual é. E ainda que eu ache que os problemas, como bem mostra o filme do Moore, se dão devido ao âmbito federal, onde o modelo representativo domina absurdamente, isso é justamente um aviso. Estamos num mundo globalizado, não há como pensar em divisões estanques mais. Mas ainda assim, a melhor coisa de ter lido este texto, para mim, foi começar a duvidar da democracia representativa.

    • Paulo,

      Primeiramente, agradeço por acompanhar o blog e o ler com a seriedade que faz. Sua contribuição, assim como a de todos, é importante para a construção do pensamento do grupo, que se quer plural e todo o resto que você já sabe.

      Responderei com a mesma seriedade que a crítica e, em alguns momentos, também no mesmo tom. Não sei se é porque o texto está muito confuso (talvez muito complexo – definitivamente naoe staria no fantástico, pela quantidade de teoria), mas não sei se entendi direito suas criticas. De qualquer forma, falarei do que entendi, como entendi e assim a gente se comunica. Vamos lá.

      Teoria não se joga na cara. Se assim for feita, como acontece com um texto desprovida dela, ela vira show. Jogar teoria na cara não é meu estilo, então não tinha a intenção de fazer isso aqui, em nenhum momento. Nos meus posts mais teóricos, inclusive, busquei trazer uma visão mais acessível, menos rebuscada e com mais análise minha do que do autor. Sair das sombras do pensamento alheio é difícil, reconheço, ainda mais em uma educação como a que temos em nosso país, onde se busca repetir, ao invés de refletir.

      O texto parte de uma premissa. E ela se contrapõe à visão que você apresenta como ideal. Em nenhum momento defendo que o interesse individual-capitalista seja retirado da sociedade. Em nenhum momento, tampouco, desconheço sua legitimidade em algumas esferas. Critico sim a sua preponderância e a idéia, como a sua, de que a esfera pública é o embate de interesses privados. Aliás, isso que estou falando é uma crítica que Habermas faz, em seu livro “A inclusão do outro” com base em seu outro livro “Facticidade e Validade”, no qual faz um contraponto entre o liberalismo (onde, pela sua descrição, seu pensamento se enquadra) e o republicanismo. Traz, então, uma análise nova, na qual traz a tona o tal do procedimentalismo democrático como legitimador de uma sociedade que se embasa em sujeitos livres.

      A crítica feita por mim, e, em grande parte, também feita por Habermas e por Hannah Arendt, está no que veio a ser a nossa esfera pública. Esfera pública, segundo a teoria dos autores supracitados, não pode ser o embate simplesmente de um interesses privados. Até porque, esse interesse não se coaduna com uma premissa básica da teoria de Habermas e Arendt, qual seja, a abertura ao outro no nível discursivo – estar aberto a ser convencido pelo outro. Principalmente quando este interesse é econômico, onde a lógica que prepondera é: compra e venda. Se não concorda comigo, eu o compro, uai.
      Habermas, então, entende ser necessário criar um procedimento que garanta o próprio procedimento necessário para delimitar liberdades. E isso não tem nada que ver com o conceito que você denomina de “bem comum”.

      O bem comum é, antes de mais nada, a manutenção desse procedimento democrático, onde a autonomia privada se vincula diretamente com a autonomia pública. Por isso mesmo que não precisaríamos do político “Hércules”. Por que? Porque esse termo (Hércules) é usado por Dworkin como tentativa de demonstrar que seria possível uma decisão para um caso concreto caso tudo fosse ponderado de acordo com os preceitos e direitos fundamentais. A ponderação, no caso de Habermas, é política. Por isso, inclusive que acho sua teoria interessante. Ele reconhece que está falando da prática, do que é possível, do que deve ser buscado e não se engana com certos fetiches de 300 anos atrás, como “é possível que políticos que defendem empresas de grande porte queiram o bem para a coletividade”.

      Sem essa ingenuidade, ele entende ser necessário garantir um procedimento, com base nos direitos fundamentais e com base na criação de esferas (perceba que está no plural, não no singular) públicas de amplo debate e pluralidade. Com isso ele quer salvar o mundo das cáries? Óbvio que não. Inclusive reconhece os limites de sua teoria, no plano abstrato, em seu primeiro capítulo do livro Facticidade e Validade.
      Por isso mesmo que minha frase “o espaço público não pode ser a disputa de interesses individuais”, respalda-se na teoria (que falta ao texto, mas não ao comentário) que não entende tal disputa como maléfica a priori e sim com base em acontecimentos, situações fáticas, como a segunda Guerra, o feminismo, etc.
      Sem sombra de dúvidas o que estou escrevendo não é óbvio. Nem sequer é um show “raso”, como você o qualificou. Decerto, ele padece de algumas profundidades, pois esse não era o intuito de um post que, apesar de ser mais longo que alguns, ainda assim não pretende resolver todos os problemas do mundo, nem ser um livro. Ainda mais para leitores comuns, que são, em sua maioria, claro, capazes de fazer interpretações sistêmicas, não nos obrigando a falar, de novo, tudo que já foi dito em outros posts.
      Entretanto, talvez seja necessário delimitar algumas coisas. Não, a democracia representativa não é tomada como pressuposto. Nem para mim, nem para os outros membros do grupo. Não, o espaço público que existe para deliberações decisórias não me parece suficiente. Acho que isso está claro em outros textos. Peço desculpas por não ter abordado tais hipóteses aqui. Não o fiz por duas razões: 1) não achei necessário, pois, como é possível depreender do texto-show-do-óbvio, minha crítica era dirigida especificamente à vinculação entre nossa democracia e o capital; e 2) por partir do pressuposto que ao longo do meu texto a teoria em que me embaso estava bastante clara, ainda mais pelo que já havia escrito antes.
      Por fim, é totalmente plausível defender que: o agir democrático apenas pressupõe um único bem comum, um único valor que deve permear o agir: liberdade. E esta deve pressupor a igualdade, do contrário não é liberdade. Estes são os únicos valores que devem permear o público; consequentemente, tudo o que se dá na esfera pública em sentido lato.” Mas, desde 1945, após um evento bobo, algumas pessoas começaram a questionar o que seria essa liberdade, como se daria essa igualdade, como garantiríamos de fato uma esfera que defenda interesses que não restrinjam a liberdade do outro em demasia para ampliar absurdamente a de outro, dentre outras questões. Nessa perspectiva que se enquadra uma teoria mais prática. Como já diria um velho que rola por aí, a teoria é importante, mas ela se perde num mundo do tiririca quando se desprende da prática. O texto, assim como a fraca teoria utilizada por ele, tem por base, também a prática.

      besos

      • Antes de esclarecer alguns pontos do meu posicionamento teórico, peço desculpas pelo tom excessivamente incisivo. Não foi minha intenção dizer que o texto era uma mera exposição de fatos; ainda que a teoria esteja pressuposta, tenho conhecimento do grupo suficiente para reconhecê-la. Citei o Jessé como tentativa de justificar meu posicionamento, pois tenho dificuldades em trabalhar a parte prática. O que não quer dizer que desconsidere-a, só dificuldade mesmo.

        Porém, além de não concordar inteiramente com a teoria pressuposta, ela ficou meio jogada, favorecendo uma reflexão entre a ligação dela com o “voto econômico” que deixa de lado alguns problemas, para mim, de suma importância, como o modelo representativo de democracia. Não disse que o grupo pressupõe-o como correto, mas que o texto negligencia seu papel na ligação poder político/poder econômico.

        Comecei com a frase do Moore não por achar que o capitalismo pode ser legítimo em alguns lugares. Nem sequer tenho um posicionamento quanto a isso, pode ser mesmo que esteja fadada ao fracasso por inteiro a lógica de mercado. Utilizei a frase por achar que o texto se propunha a refletir sobre o problema exposto nela; e foi o que pretendi no comentário.

        “O capitalismo é um mal e não se pode regular o mal. É preciso substituí-lo por alguma outra coisa, e esta coisa é a democracia”. Não discordo dessa frase. Pelo contrário, tendo a partir desse pressuposto; não por estar convicto que o capitalismo é um mal, mas por estar convicto de que a democracia é necessária em todos os lugares.

        “Essa lógica é traduzida para todas as outras esferas sociais. Aquele que possui mais dinheiro é mais capaz, é mais benéfico à sociedade e, portanto, é mais importante. Por isso, deve poder comer mais, beber mais, jogar mais, votar mais.
        Assim vivem as pessoas em nosso modelo de sociedade. Vivem para mostrar suas capacidades individuais de acumular capital, pois é aí que demonstram sua importância social.
        É dentro dessa lógica que estão inseridas muitas das escolhas políticas institucionais. Uma empresa, quando defende “seu interesse” supostamente defende a maior possibilidade de adquirir lucro. Tendo ela mais capacidade acumulativa, é ela que é encarada como mais importante e mais capaz de trazer ao indivíduo e à sociedade maiores benefícios. Se esse argumento não colar, ela tem dinheiro para comprar políticos. Como diz o brocardo capitalista, “todo homem tem seu preço”.”

        Coloquei este trecho acima, pois acho que pode esclarecer um pressuposto meu, segundo o que você entendeu, mas que nunca de fato pressupus. Inclusive, após desfeito esse pressuposto do que entendo por interesses individuais, as posições passam diferir apenas pontualmente. Parece, para muitos, inclusive o Habermas que descreve o modelo liberal de democracia, haver uma ligação intrínseca entre interesses individuais e lógica de mercado.

        Nunca havia percebido essa ligação, mas definitivamente não pretendia fazê-la. Concordo quando diz no trecho acima que a lógica capitalista, de mercado, é transposta para as outras esferas, e que isso é um mal. Inclusive disse isso no comentário. O que tentei fazer é mostrar como a razão dessa transposição não está numa falta de preocupação pelo coletivo, mas no modelo institucional de democracia em vigor, que não é democrático.

        Ao defender uma visão de que os políticos devem considerar os interesses de todos, e não somente do seu “bebedouro”, o modelo representativo propiciou um pretenso benefício do todo, sem, contudo. se preocupar em consultar o todo. Mas o problema não estava no interesse defendido, mas no modelo institucional de defesa delas: no modelo representativo. Não podemos impedir que alguns se isolem na defesa de seus interesses egoísticos, e outros saiam na defesa de coletivos; mesmo porque não podemos a priori dizer o que é o que. Mas podemos exigir que ambos adotem posturas democráticas, de ouvir e considerar argumentos, até o momento em que julguem não estarem sendo oprimidos.

        E aí entra a suposta diferença entre o meu posicionamento a cerca do problema e o do texto. Mantenho a palavra “individuais” não por defender lógica de mercado; nem por desconsiderar o papel do coletivo na formação do individuo (que ainda sim é um indivíduo, e não um coletivo); nem por desconsiderar a interdependência autonomia pública/privada. O “individuais” relaciona-se à diferenciação habermasiana entre ética e moral. O individual liga-se à ética, ao que o indivíduo, podendo aqui ser um grupo também, considera bom para si mesmo. E a moral ao que considera bom para todos.

        Não há como, pela lógica da inclusão do outro habermasiana, supor-se uma acima da outra. Os dois momentos, assim como o pragmático, têm de ser considerados nas decisões e posicionamentos, sob pena de lógica de mercado (ética pura) ou totalitarismo (moral pura); (ou teoria pura – desconsideração do pragmático – este ponto é o que menos compreendo, daí minha dificuldade em trabalhar o lado prático da teoria, eu acho).

        A inclusão do outro pressupõe a tolerância (Derrida fala em hospitalidade, mas como nunca li ele, não vou comentar) quanto ao particular do outro, ao ético. Chega um ponto em que a moral e a ética podem conflitar, e daí a solução é tolerância.

        Daí discordar quando diz que “A política é o locus do embate público. Ela é, essencialmente, um elemento público, onde os cidadãos deveriam se comprometer em atender as necessidades de todos.” A menos que “se comprometer em defender as necessidades de todos” seja se comprometer a adotar uma postura democrática, o que pressupõe desde abertura ao diálogo à tolerância a não abertura deste em alguns pontos. Mas isso não ficou muito claro para mim em diversas discussões do grupo em que tive o prazer de acompanhar.

        Finalizando, volto à frase do Moore. Não a usei como forma de criticar; concordo com ela, e achava que o texto também. O capitalismo é mal, se considerado como lógica de mercado, e precisamos democratizá-lo, o que pode significar mesmo extinguí-lo. Mas a solução, a meu ver não está na postura dos políticos. Não que esta não deva mudar; afinal, para citar o velhinho aí: “Ninguém nos salvará de nós mesmos”. O problema é que não dá para obrigar ninguém a ser democrático. O que dá para fazer é mudar as instituições que favoreçam posturas anti-democráticas, como a democracia representativa, que representa excluindo a consideração do outro, que muitas vezes é o próprio eleitor do suposto político.

        Daí minha crítica ao texto: ele negligencia o que, a meu ver, é o cerne do problema, a democracia representativa, privilegiando uma postura, digamos, republicana (já que você me chamou de liberal, o que eu não sou, ao menos no sentido que você deu), que pode levar à desconsideração do outro. Interesse individual não é lógica de mercado, por isso não sou liberal, mas sim consciência de que não posso defender o outro. O Indivíduo é formado coletivamente, permanecendo sempre indivíduo, na medida em que um momento único da reprodução social. E justamente por ter por base a prática também é que o texto jamais poderia negligenciar o papel da democracia representativa na vinculação entre democracia e capital, ao menos do meu entender.

        besitos

  3. Thiago,
    eu gostaria muito de acreditar nessa idéia de que a corrupção é um problema dos incompetentes tentando burlar o sistema. Acho que quem já trabalhou em grandes empresas (as melhores!) e em grandes escritórios de advocacia (os melhores!) já viu coisas terríveis e que a competição no mercado é como jogo de pólo aquático. Por cima da água todo mundo defende jogo limpo, mas por baixo todo mundo se chuta feio e se afogam uns aos outros. Quantos grandes escritórios de advocacia registram carteira de seus advogados empregados? Mesmo os que trabalham com direito do trabalho! Quantos grandes pareceristas dividem parte dos honorários pro advogado que escreveu empregado que escreveu o parecer de verdade?

    Tenho um colega que é auditor da receita que conta experiências muito ilustrativas. Ele faz auditorias em grandes empresas e sempre ocorre o mesmo. Sempre quando começam são recebidos pelos presidentes ou equivalentes, que fazem aquele discurso padrão de que vêem a fiscalização como cooperação, como forma de melhorar e blábláblá. Aí depois são encaminhados aos diretores que já começam a ser simpáticos, mas renitentes e resistentes. Aí depois vão pros gerentes que oferecem embate direto. E, finalmente, quando chegam no Zé lá da ponta que é responsável por fazer os recolhimentos, o sujeito só falta querer matar o fiscal. Isso porque todo mundo sabe que quando a sonegação for descoberta, quem vai pagar não é o diretor que determinou a sonegação, mas o cara da ponta. É o cara lá da base que vai pro olho da rua pra que o presidente possa manter seu discurso bonito.

    Já vi uma palestra de um multimilionário famoso por sua competência e sucesso dizer que “o jogo é duro, mas é na bola. Não é na canela”. Mas lá dentro da sua empresa – no vestiário, rs.. – a ordem é descer o sarrafo, rs.

    O que interessa é vencer, não importa como. Ou você se a concorrência ou a concorrência lhe come. Só faz tráfico de influência quem está no topo da cadeia alimentar, os melhores de cada ramo. Só que, óbvio, quem está no topo jamais vai admitir isso, né!

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