André Gorz – Parte IV

Por Laila Maia Galvão 

Um dos últimos livros publicados por Gorz foi O Imaterial – conhecimento, valor e capital. Nessa obra, Gorz supera a discussão travada nos anos 80 e 90 a respeito da “não-classe de não-trabalhadores” (em Adeus ao proleteriado), para retomar a análise da dominação e opressão observada no sistema capitalista considerando a redução relativa do trabalho industrial e o aumento significativo do setor terciário. Também nessa obra, Gorz parece se afastar um pouco das ideias de Metamorfoses do Trabalho: crítica da razão econômica, em que sustentou que haveria uma ruptura entre o tempo de trabalho e o tempo de vida (produção da subjetividade). Com a identificação da expansão significativa de trabalhos que envolvem conhecimento e informação, ou seja, com a emergência do trabalho imaterial, a suposta separação entre tempo de trabalho e tempo de vida teria de ser repensada. E foi isso que Gorz fez, ao esboçar novas ideias e novas categorias de análise em O Imaterial – conhecimento, valor e capital, o que apenas demonstra a capacidade desse autor de atualizar suas reflexões.

De forma bastante resumida, podemos dizer que André Gorz reconhece que o conhecimento passou a ser a principal força produtiva, gerando uma chamada “economia do conhecimento”. Nessa tal economia, o fator que determinaria a criação de valor não seria mais o tempo de trabalho, mas sim o “componente comportamental”, a motivação. Daí a emergência da noção de capital humano.

Essa valorização do capital imaterial (o que Marx já sinalizava em seus escritos) implicaria em uma série de transformações no mundo do trabalho. A empresa passa a recorrer a uma “gestão por objetivos”, em que fixa metas aos assalariados, que devem arrumar uma maneira, qualquer maneira, de atingir tais objetivos. Seria o retorno do trabalho como prestação de serviço. Assim, o trabalhador não apresenta a sua força produtiva, “hetero-produzida”, ao empresário, mas se apresenta, ele mesmo, como um produto que “se produz” constantemente. Toda a bagagem cultural adquirida pelo trabalhador ao longo de sua vida será analisada no momento de sua contratação.

Assim, Gorz aponta a existência de um “auto-empreendimento”, ou seja, a pessoa torna, ela mesma, uma empresa. Torna-se um capital que precisa ser permanentemente reproduzido, modernizado e alargado. Todos se tornam responsáveis por essa gestão se sua própria força de trabalho.

É apenas com esse “auto-empreendimento” que temos a transformação em trabalho e a redução a um valor de toda a vida e de todas as pessoas.

Ao tratar sobre “capital do conhecimento”, o autor reconhece que a utilização desse conhecimento não é novidade de nosso tempo, sendo característica do capitalismo desde seus primórdios. Seria nova a multiplicação desse conhecimento (por meio de inovações tecnológicas como internet, softwares etc.). Daí, Gorz lança a ideia de que, com essa propagação crescente de conhecimento, seu valor mercantil tenderia a zero, se tornando bem comum acessível a todos, o que se corresponderia a um “comunismo do saber”.

Para se tornar mercadoria, o saber deveria se tornar um bem de propriedade privada e escasso. No entanto, para Gorz, o saber não aceita ser manipulado como mercadoria. Mesmo assim, ele reconhece que o capitalismo tem reforçado o caráter único e incomparável desses saberes para, por meio de propagandas e marketing, criar uma “escassez artificial”.

Gorz, portanto, denuncia a possível apropriação privada pelas corporações capitalistas dessa produção coletiva, chamada de conhecimento, e a subordinação dessa produção à lógica tradicional do lucro capitalista.

As implicações dessa abundante produção imaterial na reestruturação do funcionamento do sistema capitalista ainda são pouco perceptíveis. As mudanças de nosso mundo e as “metamorfoses do trabalho” ocorrem de forma cada vez mais acelerada e robusta, sem que haja uma teoria social ampla e abrangente que traga fundamentações coerentes para essas transformações. No entanto, talvez não seja necessária a presença de uma única teoria analítica dessas novas formas de produção que estamos experimentando. Se pensarmos assim, o livro de Gorz pode servir como interessante referência para um pontapé inicial nessa discussão, uma vez que traz categorias novas de reflexão, que interagem bem com a realidade, e que não deixa de trazer, também, a utopia presente em todas as obras de Gorz.

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