André Gorz – Parte III

Por Laila Maia Galvão

A crise da modernidade não nos interessa. O que nos interessa é a necessidade de modernizar os pressupostos sobre os quais está fundada a modernidade. A atual crise não é uma crise da razão, mas a crise dos motivos irracionais, agora visíveis, da racionalização tal qual posta em marcha.

 Dessa forma Gorz abre a Introdução de seu livro Metamorfoses do Trabalho – crítica da razão econômica, publicado no Brasil pela editora Annablume. Ele defende que aquilo o que os pós-modernos chamam de crise da razão e fim da modernidade é, de fato, “a crise dos conteúdos irracionais, quase religiosos, sobre os quais se edificou essa racionalização seletiva e particular que é industrialismo”.

André Gorz cita Lionel Stoleru para apontar que os progressos tecnológicos (incluindo a robótica e a telemática) permitem produzir mais e melhor com menos horas de trabalho e com menos capital. Assim, a partir do ponto de vista da racionalidade econômica, na escala da sociedade teríamos tempo de trabalho economizado, ou seja, tempo de trabalho disponível para uma produção adicional de riquezas. O questionamento lançado por Gorz, no entanto, é saber qual sentido e qual conteúdo devem ser atribuídos ao tempo disponível. Para ele, a razão econômica é incapaz de responder essa questão.

O filósofo austríaco contrapõe atividade de lazer, que é consumidora de tempo, ou seja, que não visa ganhar tempo, mas gastá-lo, e atividade econômica, que é regida pela racionalidade instrumental (noções de eficácia, rendimento e desempenho). Assim sendo, chama atenção para o perigo da perversão das atividades de lazer, ao passarem a ser regidas pela lógica da racionalidade econômica.

Em um trecho bastante interessante, Gorz diz:  “A desigual repartição do trabalho da esfera econômica e a desigual repartição do tempo que a inovação técnica libera fazem com que alguns possam comprar de outros – reduzidos a serviçais dos primeiros – um extra tempo livre. Uma tal estratificação da sociedade é diferente da estratificação em classes. Ao contrário desta, a primeira não reflete as leis imanentes ao funcionamento de um sistema econômico cujas exigências impessoais dominam tanto os gerentes do capital, os administradores das empresas, quanto os assalariados; para uma parte ao menos dos prestadores de serviços, trata-se, dessa vez, de submissão e de dependência pessoal frente àqueles e àquelas que se fazem servir. (…) Governos conservadores, e também sindicatos, legitimam e favorecem essa incrível regressão social, sob o pretexto que ela permite ‘criar empregos’ ou sob o argumento de que esses novos criados permitem aumentar o tempo que seus patrões podem consagrar a atividade altamente produtivas, economicamente falando. Como se, de fato, os executores dos ‘pequenos serviços’ não fossem capazes, eles também, de um trabalho produtivo ou criativo; como se aqueles e aquelas que pagam para serem servidos fossem competentíssimos criadores, insubstituíveis ao longo de toda a jornada (…).

Assim, a ideia de que o tempo liberado pela tecnicização pode ser reutilizado em outras atividades econômicas significa dizer que não há limites para o campo de influência da racionalidade econômica e que todas as atividades podem ser transformadas em serviços remunerados. Dessa forma, a chamada “troca mercantil do tempo” poderá abranger, sem exceção, todas as esferas da vida.

A partir daí, Gorz passa a uma análise histórica da transformação da noção de trabalho, para poder sustentar que a racionalização econômica do trabalho significou uma revolução, uma alteração profunda de antigos valores e modos de vida. Assim, a atividade produtiva deixa de ter sua motivação original para passar a ser simplesmente um meio de ganhar um salário. Ao tentar trazer para atualidade as ideias marxistas, Gorz afirma: “o trabalho concreto só pôde ser transformado naquilo que Marx chamará o ‘trabalho abstrato’ ao engendrar, no lugar do operário-produtor, o trabalhador-consumidor: isto é, o indivíduo social que não produz nada do que consome e não consome nada do que produz; o indivíduo para o qual a finalidade essencial do trabalho é ganhar o suficiente para comprar as mercadorias produzidas e definidas pela máquina social em seu conjunto”. A racionalização econômica, então, teria vencido as antigas ideias de liberdade e autonomia existenciais, fazendo com que o indivíduo alienado em seu trabalho também seja alienado em seu consumo e em suas necessidades.

Dessa forma, deveria haver, na opinião de Gorz, uma redistribuição do trabalho, que fosse capaz de atribuir sentido a esse decréscimo de volume de trabalho socialmente necessário e que fosse capaz de impedir a divisão da sociedade entre assalariados (elite profissional) e trabalhadores em situação precária e desempregados.

Gorz defende que o tempo de não-trabalho poderia, então, deixar de ser o oposto do tempo de trabalho, ou seja: “pode deixar de ser tempo de repouso, de descanso de recuperação de forças; tempo de atividades acessórias, complementares da vida do trabalho; de preguiça, o outro lado da constrição ao trabalho forçado, heterodeterminado; de divertimento, o avesso do trabalho anestesiante e esgotante em sua monotonia”. Assim, o tempo disponível deveria ser estruturado a partir de outras atividades e outras relações, para que os indivíduos pudessem desenvolver suas faculdades de outra maneira. O local de trabalho deixaria de ser o único espaço de socialização e a única fonte de identidade social e o domínio do não-trabalho poderia deixar de ser o domínio do privado e do consumo.

Esse novo espaço seria regulado por noções de cooperação, feito de atividades autônomas, livremente escolhidas: “as atividades autônomas podem tornar-se preponderantes com relação à esfera da necessidade. O tempo da vida não precisa mais ser gerido em função do tempo do trabalho, é o trabalho que deve encontrar seu lugar, um lugar subordinado, em um projeto de vida”.

Tais propostas, que poderiam soar absurdas, hoje são reproduzidas por outros pensadores contemporâneos. A redução da jornada, a redistribuição do trabalho e atribuição de um novo sentido ao trabalho e ao tempo de não-trabalho são temas que, sem sombra de dúvida, ainda nos acompanharão por um bom tempo. Por isso mesmo vale a leitura do primeiro capítulo, metamorfoses do trabalho, do livro de André Gorz.

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