100 anos do Dia Internacional da Mulher

Por Ana Rodrigues

No dia 8 de março comemorou-se o Dia Internacional da Mulher. A data não foi escolhida aleatoriamente, no dia 8 de março de 1857 operárias de uma fábrica de tecidos de Nova Iorque fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica para reivindicar melhores condições de trabalho, redução da jornada de trabalho para dez horas (substituindo as 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres recebiam, em média, um terço do salário de um homem para executar o mesmo trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho. Embora as reivindicações fossem justas, a manifestação foi reprimida com brutal violência. Trancaram as mulheres dentro da fábrica e incendiaram-na. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas qualificando o ato desumano.

A data foi reconhecida apenas em 1910 e tem intuito reflexivo, ou seja, não se trata de comemorações, mas sim de discutir as questões femininas enquanto pautas da luta histórica pela igualdade.  

Aqui eu poderia falar da maior participação da mulher no mercado de trabalho, em torno de 47% (com crescimento de 60% sobre esse percentual), das vagas nas universidades (do total de 626.617 concluintes de graduação presencial do país, em 2003, 391.995 (62,55%) são do sexo feminino e 234.622 (37,45%) do sexo masculino – números do Censo da Educação Superior 2004, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao Ministério da Educação) e de tantas outras conquistas femininas que não estão relacionadas ao direito individual, mas à afirmação da identidade de um grupo historicamente discriminado.

Entretanto a afirmação de que a mulher conquistou sua posição na sociedade ainda divide espaço com o machismo institucionalizado, especialmente no Brasil, sob a forma de algo lógico e impassível de discussão. Nesse sentido, se o discurso feminino for afirmativo, é rechaçado pela sociedade e elevado ao status do radicalismo e da incoerência.

Corroboram a institucionalização do machismo, a coexistência de rendimentos inferiores em troca do mesmo trabalho pelo simples fato de sermos mulheres (na América Latina é de, em média, 17% segundo estudo elaborado pelo BID disponível em http://www.iadb.org/news/detail.cfm?language=PO&id=5678&artid=5678), a menor possibilidade de presidir uma grande corporação e de governar um estado ou país. Se, somado ao fato de sermos mulheres ainda formos, negras, portadoras de necessidades especiais, gordas, tivermos mais de 40 anos ou estivermos grávidas, o índice de exclusão aumenta e a probabilidade de encontrarmos espaço no mercado de trabalho se restringe ainda mais. Isso porque o conhecimento que temos ainda é avaliado após alguns atributos dispensáveis ao trabalho como, por exemplo, a beleza física e a disponibilidade (ou vontade) de nos envolvermos sexualmente com o chefe.

Essa distorção é ainda pior quando analisamos o quadro de violência sexual que vitima mulheres e crianças do sexo feminino todos os dias. A exploração e o abuso sexual revelam práticas de uma cultura primitiva que reduz o feminino ao sexo e ao dever de servir ao homem independentemente da vontade.

Os números sobre violência sexual assustam. Segundo dados globais do Relatório de Anistia Internacional, cujos fragmentos estão publicados no site do CFÊMEA (http://www.cfemea.org.br/violencia/artigosetextos/detalhes.asp?IDTemasDados=38), 1 bilhão de mulheres já foram espancadas, forçadas a manter relações sexuais ou submetidas a qualquer outra forma de abuso ou repressão. No mundo, 20% das mulheres são alvo de estupro, isto significa que 1 em cada 5 mulheres será vitima ou sofrerá pelo menos uma tentativa de estupro ao longo de sua vida. Nos Estados Unidos, a cada 15 segundos 1 mulher é agredida pelo companheiro. Na França, 25 mil mulheres são estupradas por ano.

Todos esses dados não fariam sentido se fossem somente números, mas para nossa realidade, isso acontece com pessoas, cada um dos “uns” desses dados são, na verdade, uma. Além disso, há algo incomparável aqui, que provavelmente poucos homens sentirão ao longo da vida, não sendo, portanto, habilitados em nenhuma instância a falar sobre isso, que é a natureza da ação, isto é, a sobreposição da força à vontade numa relação sexual invasiva e violenta, e que, além de marcar o corpo é capaz de destruir a vida de uma mulher.

Distante dos direitos (que avançaram bastante nos últimos anos) e das conquistas históricas está uma luta que é anterior a todos os movimentos por espaços, salários e empregos (e que pessoalmente, não acredito que o sexo feminino tenha vencido): a emancipação da mulher como indivíduo para além das vontades masculinas (traduzidas como exigências da sociedade).

O Dia Internacional da Mulher é um momento para discutirmos essa emancipação, no entanto, positivo seria se todos os dias a luta fosse lembrada como ícone pessoal de todas nós. Que a gentileza de alguns durasse mais que 24 horas e que a lacuna da maldade de tantos outros fosse preenchida com justiça.

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Sobre Ana Rodrigues

Ana é uma criatura insurgente contra as idéias consagradas que permeiam a sociedade. Graduanda em Agronomia, tem colaborado em trabalhos que contemplam o caráter social e distributivo da agropecuária. Atuou em pesquisa científica junto à Fundação Banco do Brasil orientada por professores do Centro de Desenvolvimento Sustentável, estagiou no Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural do Ministério do Desenvolvimento Agrário e colaborou com o Projeto Precoce (extensão) durante um semestre. Atualmente realiza pesquisas acadêmicas em Agricultura Orgânica e colabora em trabalhos de Paisagismo. Inicia uma nova etapa pessoal na militância política com a consciência de que muito ainda precisa ser feito para de fato construirmos o desenvolvimento capaz de promover justiça social no Brasil.

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