A candidatura Plínio de Arruda Sampaio

Por Gabriel Santos Elias

Fui ao lançamento de sua pré-candidatura a presidência da república pelo PSol, em pleno Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, no início deste ano. Fiz algumas anotações e pretendo dividir aqui neste espaço algumas considerações a respeito do que vi e venho acompanhando.

Plínio de Arruda Sampaio já tem seus 79 anos, mas ainda diz, cheio de energia:  “Dos netos, das memórias e das flores, vou cuidar quando ficar velho. Por hora, vou cuidar do Brasil, que sempre foi o que deu sentido à minha vida.” E a imagem que passa é realmente de comprometimento e coerência.

Ele é formado em direito pela USP (1954), foi presidente da lendária Juventude Universitária Católica (JUC) e participou tambem da Ação Popular, importante agremiação de movimentos sociais da época. Eleito deputado federal pelo Partido Democrata Cristão em 1962, foi relator do polêmico projeto de reforma agrária que integrava as reformas de base do governo João Goulart. A indignação causada pelo seu projeto de reforma agrária nos grandes latifundiários foi um dos fatores que desembocaram no golpe militar de 1º de abril de 1964, pelo qual foi um dos primeiros 100 brasileiros que teve seus direitos políticos cassados, ainda no Ato Institucional Nº 1.

Exilado, trabalhou na FAO no Chile e nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), redigiu seu estatuto e foi um dos idealizadores do excelente projeto dos núcleos de base, sobre os quais deveria ser erguido um autentico partido de massas. Decepcionado com os caminhos seguidos pelo partido no primeiro mandato do governo Lula, optou por filiar-se ao PSOL em 2006.

Mas por que a candidatura de Plínio me chamou atenção? Porque há muito tempo precisamos de uma candidatura verdadeiramente de esquerda na disputa eleitoral. Da mesma forma como a entrada de Marina Silva fez chamar atenção de outros candidatos ao tema do meio ambiente, uma candidatura de esquerda, racional e programática deve ter um efeito de trazer para o debate eleitoral a crítica e as proposições tradicionais de esquerda.

Como já vimos anteriormente, o PT ganhou as eleições, mas não governa. Faz parte de uma coalizão de partidos de amplo espectro que chega até mesmo à centro-direita. E o partido tem ganhado uma incômoda característica que não faz nada bem a um partido de massas: a incapacidade de fazer auto-crítica. Recentemente, inclusive, vem abrindo mão de um dos recursos que o deixou famoso por respeito a pluralidade e democracia interna: as prévias eleitorais. Em ano eleitoral então, não devemos esperar nenhuma crítica pública da militância petista em relação aos rumos tomados pelo governo Lula e sua possível continuidade.

Além disso, a esquerda tem se organizado de forma reativa e meio deprimente. As ultimas candidaturas de Heloísa Helena foram extremamente conservadoras e moralistas. Para ampliar a base eleitoral, focou o combate a corrupção, mas o que conseguiu foi formar um discurso essencialmente vazio.

Pois Plínio de Arruda Sampaio deixa suas intenções claras já no slogan de sua campanha: Um projeto socialista para o Brasil. Contrariando o argumento da corrente majoritária do partido que diz que devem evitar a palavra socialismo, pois, segundo eles, não seria um termo muito fácil para a massa da população. Plínio discorda, para ele o socialismo tem acima de tudo um componente pedagógico muito importante, que deve mostrar aos trabalhadores a importância das lutas sociais. Não podemos menosprezar a compreensão dos trabalhadores sobre sua própria realidade, pois se fizermos isso estaremos fazendo coro aos que decretam a falência teórica e programática do socialismo.

Pois o que Plínio pretende na campanha eleitoral é mostrar uma realidade diferente e possível para o povo. Para exemplificar diz o que fará com a educação. Não quer estatizar, mas tornar a educação uma coisa pública em sua totalidade. Isso significa tirar o serviço educacional do comércio, permitindo que cooperativas educacionais funcionem, sem perspectiva de lucro. A analise é simples e direta, com a educação desigual como temos hoje, dividida claramente entre pobres e ricos, estamos mantendo e reproduzindo estruturas sociais tão impermeáveis que  chegam a se assemelhar a castas. A solução é uma forte regulamentação do serviço da educação, para tornar todos os salários de professores iguais, toda a estrutura básica das escolas minimamente iguais, de forma a dar a possibilidade de desenvolvimento pessoal igual para todos os brasileiros.

Outra proposta radical e necessária é a reforma agrária. Um dos principais fatores que coloca o Brasil no posto dos mais atrasados do mundo em desigualdade social é a falta de uma reforma agrária efetiva. E o ponto interessante que Plínio ressalta é justamente que a reforma agrária deve ser feita com o objetivo de reduzir a desigualdade social do país. O que desvincula da idéia hegemônica na sociedade que relaciona a reforma agrária com o aumento de produção agrária, o que limita as terras desapropriáveis somente em terras improdutivas.  Pois a proposta de Plínio é distribuir através da reforma agrária todas as terras que excedam 1000 hectares, produtivas ou não. Uma proposta clara e efetiva.

Muitos dirão que isso tudo é loucura! Isso acontece porque nos desacostumamos a pensar nos princípios que devem nos guiar politicamente, princípios como o de uma sociedade igualitária e livre em sua essência mais profunda. Sem princípios nos perdemos no pragmatismo. O pragmatismo é importante para se chegar ao seu objetivo final, mas sem princípios o pragmatismo nada mais é que um roda-moinho que te suga até se afogar.

São esses os dois principais aspectos que me encantaram na candidatura Plínio. Primeiramente fundamentar sua campanha e seu programa em fortes princípios. Adicionar esse componente ao debate eleitoral será muito importante e forçará principalmente a candidatura Dilma se posicionar claramente sobre determinados temas importantes para a esquerda. O pragmatismo toma o PT e grande parte do PSol, tanto que Plínio terá dificuldades de se eleger candidato nas prévias de seu partido disputando contra uma corrente que defende maior pragmatismo na campanha – a mesma corrente que defendia aliança com o Partido Verde.

O segundo aspecto que me empolga é o pedagógico. A principio tive muito receio em relação ao enfoque dado por Plínio no termo socialismo. Pensava que se uma candidatura pretende ser pedagógica, se fundamentar em um termo tão gasto e estigmatizado não seria uma boa estratégia. Mas Plínio me convenceu com o aspecto pedagógico implícito no próprio socialismo e na forma como ele aplica essa estratégia sobre a realidade de cada um de nós. Pintando com cores vivas a sociedade que queremos! Além do mais com essa prática acredito que o PSOL terá mais sucesso em agregar o eleitorado do que as frustradas campanhas focadas no debate ético, que apesar de importante, é por demais vazio se comparado aos problemas que temos na sociedade.

Torço para que Plínio de Arruda Sampaio consiga se lançar candidato. Com ele no jogo acredito que aproveitaremos melhor essa eleição para nos organizarmos como esquerda. Ademais acredito que, mesmo como pessoas preocupadas com nosso futuro, sairemos melhor do que estamos entrando!

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3 respostas em “A candidatura Plínio de Arruda Sampaio

  1. Pingback: A candidatura Plínio de Arruda Sampaio « Brasil e Desenvolvimento – candidatura

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  3. cara isso é d +, e queria poder votar esse ano mas so tenho 14 anos.Se eu votace o Plinio ja tinha um voto garantido, acho a proposta dele muito boua, igualar a sociedade, e distribuir melhor o q temos ajudaria a nos organizarmos como Pais!

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