Depois da graduação

Dois militantes do Brasil e Desenvolvimento receberam o grau de bacharel em Direito na semana passada – Gustavo Capela e Mayra Cotta. Esta proferiu o seguinte discurso na cerimônia de colação de grau:

Os ex-alunos da UnB – categoria da qual, de agora em diante, fazemos parte – e todos aqueles que já foram universitários um dia, normalmente, costumam gostar de recordar a tal “melhor época da vida” – a época da graduação. Tristemente, porém, as lembranças são tidas apenas como lembranças mesmo. Ficam guardadas na memória, junto com os projetos deixados de lado e os objetivos inalcançados. Encerrada a graduação, encerra-se também o espírito universitário, pois é preciso começar a vida real, entrar no mundo de verdade – como se nada do que tivéssemos vivido até então fosse verdadeiro.

Nessa nova realidade, que começa depois da Universidade, não parece haver mais lugar para projetos coletivos, planos voltados ao social, sonhos de mudança e transformação. Até as diversões são diferentes na vida de verdade: envolvem mais moderação e menos experimentação. No mundo real, o adulto apenas se recorda com carinho dos tempos universitários, convencido da impossibilidade de se resgatá-los.

Mesmo durante a graduação, em boa parte do tempo, nos deixamos perder em questões menores, tornamos centrais problemas que, na verdade, são secundários. Emaranhamo-nos tanto no cotidiano das salas de aula, que nos esquecemos do propósito de todo esse esforço. Afinal, por que passamos por tudo isso?

Uma cultura individualista, reforçada pelo discurso do mérito, nos faz acreditar que nos esforçamos para nós mesmos, para o nosso sucesso. Dedicamo-nos aos estudos durante o segundo o grau para ingressarmos na melhor Universidade; dentro da melhor Universidade, redobramos o empenho para termos as maiores notas; formados, embarcamos numa rotina insana de estudos e trabalho para sermos os melhores advogados, para ocuparmos os cargos de maior prestígio do funcionalismo público. Somos tão cobrados para sermos os melhores, que passamos a ter como meta o sucesso individual em si.

            Conheço os colegas que hoje se formam e estou certa de que terão carreiras brilhantes. Não me restam dúvidas de que cada formando traçará um caminho profissional de muito sucesso e terá uma vida pessoal cheia de realizações. Todos aqui presentes têm a competência e a determinação para conseguirem o que quiserem. Mas não podemos nos esquecer que, para além do sucesso individual, está o nosso papel de agente político e social.  

E o Direito, de fato, se assume cada vez mais como instrumento de transformação e atuação nesse sentido. Para citar um feliz exemplo, veja-se a importância do Judiciário na crise política pela qual passa o Distrito Federal. No momento em que a população foi às ruas mostrar sua revolta contra um governo corrupto, encontrou eco às suas indignações no próprio ordenamento jurídico. Unindo-se à força do povo, os operadores do direito afastaram o governador do seu cargo – e o estão mantendo afastado. Percebe-se a relevância do direito numa luta política. Parece, portanto, ultrapassada a visão – que alguns Professores tentam nos empurrar desde o primeiro semestre de curso – segundo a qual o Direito é conservador, uma vez que seu compromisso é com a conservação do que está posto, conservação da ordem constituída.

Ora, nosso compromisso não é com os padrões estabelecidos, com as limitadas opções que parecem nos ser dadas, com as expectativas dos outros em relação à nossa vida; nosso compromisso é, sim, com os nossos sonhos, os nossos ideais e, claro, com a sociedade que nos sustentou durante os últimos cinco, seis anos. O verdadeiro compromisso deve ser feito com o Brasil dos 55 milhões de pobres e miseráveis, dos 30 milhões de analfabetos funcionais, das 3 milhões de crianças fora da escola, do meio milhão de presos em condições sub-humanas, da Reforma Agrária não realizada. Compromisso com um mundo no qual os 20% mais ricos possuem uma riqueza 78 vezes maior que os 20% mais pobres, no qual as disparidades de renda e acesso aos recursos apenas se acentuam e se aprofundam a cada ano; um mundo onde uma em cada três mulheres já foi vítima de violência física ou sexual; um mundo que cresce a partir da destruição irreparável do meio ambiente; um mundo ainda marcado pelas discriminações decorrentes de etnia, sexo ou orientação sexual.

As lutas são diversas. 

Desejo aos colegas um sucesso incrível na vida após a graduação. Mas torço para que ninguém aqui presente jamais se satisfaça apenas com as realizações individuais. Espero que o espírito universitário – jovem, contestador, ativo – não se torne apenas uma doce lembrança para cada um. Que todos continuem tendo o ânimo necessário aos projetos coletivos, a inquietação necessária à ação transformadora e, claro, a leveza necessária às diversões simples e intensas da vida universitária.     

Que a “vida real” e o “mundo de verdade” jamais nos tornem céticos ou amargos a ponto de estarmos confortáveis diante de uma realidade social perversa, a ponto de não nos incomodarmos mais com as injustiças perpetradas por um sistema elitista e excludente. Que o sucesso pessoal de cada um não nos deixe tão acomodados a ponto de não querermos a mudança, a transformação; a ponto de nos tornarmos indiferentes àquilo que um dia já nos revoltou. Que a dificuldade de cada luta não nos desanime a ponto de sequer querermos começá-la.

Anúncios

2 respostas em “Depois da graduação

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s