André Gorz – Parte II

Por Laila Maia Galvão

No livro Carta a D., Gorz relata brevemente sua aproximação com a natureza, que esteve, de certa forma, relacionada ao amor que sentia por Dorine, sua mulher. Diz Gorz: “Você tinha uma cumplicidade contagiosa com tudo o que é vivo, e me ensinou a olhar e a apreciar o campo, as árvores e os animais. (…) Você descobriu para mim a riqueza da vida, e eu a amava através de você – ou o contrário, quem sabe (mas dá na mesma)”.

O casal tinha o hábito de passar os finais de semana no campo desde os primórdios do relacionamento. Posteriormente, eles compraram uma casa a cinquenta quilômetros de Paris, onde apreciavam um estilo de vida mais bucólico.

No mesmo livro, Gorz conta que na temporada que passou nos Estados Unidos se deparou com o texto preparatório de um seminário que seria realizado no México, com o título de Retooling Society (uma possível tradição: renovar o maquinário da sociedade). Esse texto apontava que a expansão das indústrias transformava a sociedade em uma enorme máquina, que, ao invés de libertar o ser humano, restringia seu espaço de autonomia. Estaríamos todos a serviço, portanto, dessa produção (e a produção não estaria a nosso serviço, como deveria funcionar). O texto, assinado por Ivan Illich, trazia a noção de autogestão, que estava sendo trazida pela esquerda naquela época.

A partir das discussões desse texto, Dorine e Gorz entraram naquilo que depois seria chamado de ecologia política, que lhes parecia uma extensão das ideias dos movimentos de 1968. Com a doença de Dorine, posteriormente diagnosticada como câncer do endométrio, o casal se aproximou ainda mais da ecologia e da tecnocrítica. Gorz se aproximou da medicina alternativa e passou a ser um crítico da tecnomedicina: “A tecnomedicina me parecia uma forma particularmente agressiva daquilo que Focault mais tarde chamaria de biopoder – o poder que os dispositivos técnicos assumem até sobre a relação íntima de cada um consigo mesmo”.

Para Gorz, uma significativa ecologia política deveria representar uma crítica do pensamento econômico em geral. Assim, uma concepção adequada de riqueza deveria necessariamente ultrapassar a limitada noção econômica de “valor”. Gorz se debruçou sobre os estudos das transformações do trabalho e do tempo de trabalho, chamando a atenção para o fato de que os ganhos de produtividade alcançados pelo capitalismo poderiam ser utilizados para uma melhora nas vidas individual e social, ao invés de servirem para o aumento da divisão social e da competitividade econômica.

No livro, The political thought of André Gorz, de Adrian Little, o autor afirma que Gorz foi o responsável por conciliar a ecologia política com o socialismo. Desde então, alguns socialistas têm tentado incorporar objetivos relacionados ao meio ambiente em seus programas políticos. Little ressalta, por sua vez, que a tradição política verde de Gorz é ambígua e que ele não seria um “dark Green theorist”, ou seja, um ambientalista radical. Dessa forma, os pensamentos de Gorz referente ao potencial emancipatório de novas tecnologias estariam melhor enquadrados dentro de sua tradição socialista. Alguns o chamaram de ecosocialista, uma vez que ele enxergava na ecologia uma alternativa ao socialismo e um campo potencial de luta radical anti-capitalista. A partir da união promovida por Gorz entre o verde e o vermelho (como alguns dizem), a literatura ecosocialista passou a apontar as contradições inerentes entre a ecologia e o capitalismo. Gorz defendia, por sua vez, que a preocupação com o meio ambiente deveria estar atrelada a um desejo de significativas mudanças estruturais em nossa sociedade.

No entanto, por mais absurdo que pareça, muitas críticas a Gorz foram oriundas do movimento verde. As ideias de Gorz de adaptar a tecnologia para fins libertários e que trouxessem emancipação e autonomia eram vistas com maus olhos pelos ambientalistas mais radicais, que acreditavam que a tecnologia era diretamente vinculada ao industrialismo que eles queriam exterminar. De forma inteligente, Gorz ressaltou que a tecnologia em si mesma não gerava hierarquias, mas que a maneira que a sociedade industrial manipula a tecnologia termina por gerar um controle social autoritário.

Gorz também foi um crítico do chamado “ambientalismo capitalista”, ou “ambientalismo conservador”. Ele demonstrou de que forma o capitalismo poderia adquirir uma feição mais pró-meio ambiente e que a forma de produção passaria por pequenas reformas para se adequar às pressões dos ambientalistas. Gorz, então, chamou atenção para esse movimento que visava apenas reduzir os efeitos poluidores do industrialismo, o que resultava em uma forma de capitalismo mais palatável. O capitalismo, por sua vez, seguiria reproduzindo suas formas de dominação e opressão, dando continuidade à mesma ética vigente na produção industrial. Afirmou Gorz: “It is only eco-socialist modernization, not the ecological restructuring of industrial society, that can offer solutions, in this respect, which are neither technocratic nor authoritarian

Aos sessenta anos, Gorz pediu sua aposentadoria e se mudou para o campo. Lá passou seus últimos vinte e três anos de vida cuidando de Dorine. Viveu seus últimos momentos privilegiando um cotidiano mais simples e sereno, se dedicando inteiramente ao seu amor por Dorine e pela natureza.

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