A história se repete…

Por Ana Rodrigues

A edição do Fórum Social Mundial Temático na Bahia, realizada entre os diais 29 e 31 de janeiro, revelou algumas preocupações da sociedade frente ao sistema capitalista dentre as quais estão a construção do cenário pós-crise econômica e a questão da inclusão étnica e social.

Algumas falas durante os eventos foram marcantes, porém foi o que mais me impressionou foram os acontecimentos para além do FSMT. O abismo social e étnico que existe na cidade de Salvador já dava mostras do motivo pelo qual a cidade havia sido escolhida para sediar parte das discussões, no entanto, as culturas do conflito e da repressão brutal constante compuseram situações emblemáticas de intolerância e violência.

O caso que mais me chocou foi uma briga entre um morador de rua e um comerciante ocorrida numa das praças da cidade exatamente no mesmo momento em que um grupo político manifestava em solidadriedade ao povo haitiano pela catástrofe que os assolou. A praça, como se pode supor, estava cheia de pessoas que participavam do movimento e de outras tantas que transitavam por lá, quando, por volta das 20:00 horas, os dois homens entraram em confronto físico. As razões para o fato eu desconheço. A polícia foi chamada e compareceu ao local após alguns minutos.

Quando a polícia chegou, o comerciante espancava vigorosamente o morador de rua. Os agentes da segurança, no entanto, não esboçaram qualquer reação que visasse separá-los, e, quando o fez, por pressão das pessoas que observavam a cena, foi disparado um tiro de arma de fogo em direção ao morador de rua que foi alvejado no braço.

As pessoas chamaram o serviço de saúde móvel que brevemente compareceu ao local prestando os primeiros socorros ao cidadão. O policial responsável pelo disparo quis acompanhar a vítima até o hospital, entretanto os presentes, antes envolvidos no protesto de solidariedade ao Haiti, não permitiram que o ferido fosse acompanhado por seu algoz alegando que este poderia intimidá-lo.

Essa situação trouxe bastante revolta entre as testemunhas do fato. As pessoas bloquearam parte da pista próxima à praça e detiveram o carro da polícia que passava com o responsável pelo ato. O policial, vendo que não havia outra opção, saiu do carro e foi para a calçada, onde estava prestes a ser linchado quando um dos organizadores do movimento interviu e não permitiu.

 

Imagem do homem baleado. Fonte: http://www.pstu.org.br/

Quando vi tudo isso acontecer diante dos meus olhos, além de outros sentimentos, confesso que senti um medo muito grande. Depois de um tempo, após refletir um pouco mais, fiquei com mais medo ainda, mas dessa vez, um medo diferente. O primeiro medo foi da insegurança. Pensei no quanto as pessoas podem ser violentas e tirarem vidas por motivos diversos e fúteis. O segundo medo foi um medo mais consciente. Pensei no quão sério é o poder que se dá às polícias e para quais fins elas podem ser usadas. Isso me fez recordar os protestos de 9 de dezembro aqui no DF, quando, a polícia, numa clara atitude de revanchismo, e em defesa do governo corrupto e ilegítimo que se instalou aqui, protagonizou atos de extrema covardia contra manifestantes na Praça do Buriti.

Refleti durante muito tempo sobre os poderes do Estado. Sobre quanto poder damos ao Estado. Quando permitimos que o Estado nos impeça de casarmos com pessoas do mesmo sexo, por exemplo, estamos legitimando sua interferência em nossas escolhas pessoais. É óbvio que existem limites para a liberdade individual, mas os governos eleitos no Brasil, compostos, em sua maioria, pelas elites, têm feito do Estado uma ferramenta de manipulação e de exclusão das massas, alimentando a lógica de exploração, além de trabalhar como agente segregador das minorias (verdadeiras maiorias) impedindo que expressem o direito de serem cidadãos.

O que me estarreceu também é que, em alguns lugares, esse poder baseado na truculência foi socialmente aceito, institucionalizado, e pouco se questiona a respeito. Prova disso é que a maioria das pessoas que protestou não era de Salvador, os moradores da cidade argumentavam não quererem se meter nisso porque a polícia iria persegui-los depois. Fiquei imaginando que tipo de sociedade estamos mantendo, uma sociedade vigiada por coronéis que mandam seus capatazes saírem às ruas e exterminar alguns desvalidos, dar porretadas em outros inimigos políticos.

Precisamos construir algo diferente, uma contra-cultura, contra-hegemonia, não sei, mas isso precisa mudar. Não queremos mais paz pelo medo ou pela coação, queremos paz pelo simples motivo de isso significar liberdade, significar respeito e dignidade. Queremos poder acreditar que haverá justiça para os trangressores, punição para os culpados, liberdade para os injustiçados, enfim, queremos a verdadeira democracia.

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Sobre Ana Rodrigues

Ana é uma criatura insurgente contra as idéias consagradas que permeiam a sociedade. Graduanda em Agronomia, tem colaborado em trabalhos que contemplam o caráter social e distributivo da agropecuária. Atuou em pesquisa científica junto à Fundação Banco do Brasil orientada por professores do Centro de Desenvolvimento Sustentável, estagiou no Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural do Ministério do Desenvolvimento Agrário e colaborou com o Projeto Precoce (extensão) durante um semestre. Atualmente realiza pesquisas acadêmicas em Agricultura Orgânica e colabora em trabalhos de Paisagismo. Inicia uma nova etapa pessoal na militância política com a consciência de que muito ainda precisa ser feito para de fato construirmos o desenvolvimento capaz de promover justiça social no Brasil.

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