Copenhague: os caminhos do futuro.

Por Ana Rodrigues

A 15ª Conferência das Partes (COP 15) realizada em Copenhague, Dinamarca, entre os dias 7 e 18 de dezembro de 2009, reuniu lideranças de todos os continentes sob a expectativa majoritária de solucionar de maneira concreta o problema específico do aquecimento global e a suas respectivas implicações quanto à sobrevivência das espécies e dos ecossistemas. Pretendia-se estabelecer metas quantitativas para a redução de emissão dos gases causadores do aumento do efeito estufa sob a forma de um documento legal que contemplasse essa questão. No entanto, essa expectativa não foi atentida e mais uma vez os países apontados pelos estudos climáticos como vítimas em potencial de catástrofes ambientais deixaram a conferência sem nenhuma acordo.

As esperanças para a COP 15 foram grandes, de fato, desde que a COP passou a se reunir anualmente, em 1995 na cidade de Berlim, Alemanha, soluções práticas para os problemas climáticos são esperadas ansiosamente. Mas no últimos 15 anos, houveram poucos avanços. Os diálogos ainda são tímidos, embora a situação se agrave a cada ano. Até mesmo o Protocolo de Kioto, elaborado na COP 3 não foi um ponto consensual entre os maiores poluidores: China e Estados Unidos.

É presumível que os governos dos países desenvolvidos não queiram reduzir suas emissões, pois os efeitos dessa decisão não os afeta diretamente, pelo menos não a ponto de causar grandes danos econômicos a seus empreendimentos no presente. Além disso, os setores produtivos, responsáveis pela maior parte da poluição do ar, da água e do solo, pressionam os governos para dificultarem as negociações, e, sendo eles os principais financiadores indiretos e até mesmo diretos das campanhas eleitorais, os governos cedem. Todo esse discurso no entanto é sustentado por um quadro mundial perverso.

Um estudo apresentado em Copenhague dignostica que entre 25 milhões e 1 bilhão de pessoas no mundo serão refugiadas do clima nos próximos 40 anos, no entanto essas pessoas não migrararão para os países ricos (o que certamente fez com que alguns líderes respirassem aliviados) em virtude das condições precárias de deslocamento. O estudo também aponta as regõies mais vulneráveis e que, tragicamente, são algumas das mais populosas e pobres do mundo: Afeganistão, Bangladesh, maior parte da América Central, Oeste Africano e maior parte do Sudeste Asiático.

O que faz desse quadro perverso é saber que todas essas pessoas estarão condenadas a se amontoarem em terrítorios reduzidos pelo aumento do nível do oceanos, estimado no mínimo de 1,5 m com o derretimento do gelo da Groenlândia. As estimativas dão conta de que esse derretimento (80% dos 2,1 milhões de quilômetros da ilha, sem levar em conta a espessura) seria capaz, por exemplo, de submergir parte de New Orleans e de New York.

No Brasil, o quadro não será mais otimista que no restante do mundo, outro estudo apresentado na COP 15 realizado pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) em parceria com o Met Office Hadley Centre, da Grã-Bretanha, utilizando diferentes sofwares de simuladores climáticos, fizeram a previsão de que apenas 2°C a mais na temperatura da região são suficientes para reduzir o volume de chuvas da Bacia Amazônica em 12% e da Bacia do São Francisco em 15%. Com isso, o Brasil adquire dois problemas graves: a produção de energia e a agricultura.

Atualmente a energia produzida no Brasil é 70% proveniente de hidroelétricas e 50% do Produto Interno Bruto brasileiro é proveniente da atividade agrícola. As hidroelétricas são sensivelmente afetadas pela falta de chuvas, o que ocasiona a diminuição dos reservatórios levando à subprodução e ao risco de carência. O vale do São Francisco, no cenário mais otimista, perderá 15% no volume de chuvas, entretanto essa região é marcada pelos conflitos relacionados à transposição do rio e por ser um dos pólos de fruticultura, uma das atividades mais rentáveis da região. A transposição, nesse contexto, ameaçaria seriamente a sobrevivência do rio.

A COP 15 terminou, sem a foto feliz de encerramento e novamente sem acordos práticos, apenas foram acertadas medidas para amparar o desenvolvimento sustentável sem valor legal e muito menos, unanimidade. Dentre todas, a polêmica girou em torno do fundo financeiro através do qual os países ricos ajudarão aos pobres no desenvolvimento de tecnologias limpas e outras necessidades relacionadas aos impactos do clima. Todos querem saber quem vai pagar a conta. E, quanto a isso, a opinião dos futuros presidenciáveis se dividiu. Serra e Marina Silva acreditam que o Brasil deve mobilizar recursos para o fundo, já Dilma prefere não contribuir.

A questão que os didvide é certamente a dívida histórica que permeia o debate entre os desenvolvidos, em desenvolvimento e/ou subdesenvolvidos. Quem deve honrar essa dívida? É importante ressaltar que, embora as catástrofes ambientais não estabeleçam fronteiras, os países em desenvolvimento e subdesenvolvidos não podem pagar a conta para reverter uma situação criada pelos já desenvolvidos. Fundamentalmente deve-se rever o modelo de desenvolvimento, mas essa revisão não é aplicável apenas à parcela “em desenvolvimento”, é aplicável a todos. Se o Brasil for contribuir, certamente os valores deverão ser infinitamente menores que os Estados Unidos e Europa, por exemplo.

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Sobre Ana Rodrigues

Ana é uma criatura insurgente contra as idéias consagradas que permeiam a sociedade. Graduanda em Agronomia, tem colaborado em trabalhos que contemplam o caráter social e distributivo da agropecuária. Atuou em pesquisa científica junto à Fundação Banco do Brasil orientada por professores do Centro de Desenvolvimento Sustentável, estagiou no Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural do Ministério do Desenvolvimento Agrário e colaborou com o Projeto Precoce (extensão) durante um semestre. Atualmente realiza pesquisas acadêmicas em Agricultura Orgânica e colabora em trabalhos de Paisagismo. Inicia uma nova etapa pessoal na militância política com a consciência de que muito ainda precisa ser feito para de fato construirmos o desenvolvimento capaz de promover justiça social no Brasil.

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