A política no Distrito Federal – Para contextualizar a Crise

Por Gabriel Santos Elias

Em 27 de novembro de 2009 a Operação caixa de pandora foi deflagrada pela polícia federal e revelou um esquema de pagamento de propina de empresas para obter vantagens de políticos aliados ao governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda.

Fazem parte do inquérito vídeos e áudios gravados pelo secretário de relações institucionais do GDF, Durval Barbosa. Os vídeos, com forte apelo na mídia, mostram inclusive deputados e secretários recebendo dinheiro e colocando em bolsas, meias e cuecas. Parte dos vídeos foram gravados por Durval Barbosa desde antes da eleição para o governo, outra parte foi gravada com instruções da Polícia Federal. A intenção de Durval é obter o benefício da delação premiada com a cooperação com as investigações, mas acabou contribuindo para tornar esse caso o mais bem documentado caso de corrupção da história do Brasil.

Mas vamos tentar entender como isso acontece, pois não foi de um dia para o outro. Não mesmo.

Durval é antigo aliado de Joaquim Roriz, primeiro governador eleito no DF, que já ocupou o cargo por quatro vezes. Veículos de comunicação dão conta de que Roriz comentava, poucos dias antes de estourar as notícias do caso de corrupção, que algo aconteceria que mudaria a conjuntura política de seu rival, o Governador Arruda.

A primeira vez que Roriz foi governador do DF foi por indicação do então presidente, José Sarney. Logo depois foi eleito por voto popular nas primeiras eleições diretas para governador no Distrito Federal. Foi na gestão de Roriz que Arruda começou a ocupar cargos no serviço público, passando de diretor da NOVACAP, para diretor da CEB, chegou até a ser chefe de gabinete do Governador Roriz para depois passar a chefiar a prestigiada pasta da secretaria de obras, cuidando de grandes obras como o metrô de Brasília.

Ainda com o apoio de Roriz, Arruda foi eleito Senador pelo Partido Popular (PP). Depois, rompeu as alianças, filiou-se ao Partido da Social Democracia Brasileiro (PSDB) e passou a ser líder do governo de Fernando Henrique Cardoso no Senado. Foi pego em um esquema ilegal de quebra do sigilo do painel de votações, mentiu até o último momento para manter-se no cargo, mas foi obrigado a renunciar para não ser cassado.  Pouco mais de um ano depois volta a ser eleito Deputado Federal, agora no Partido da Frente Liberal (PFL) e novamente com apoio de Roriz.

Quatro anos depois, Arruda abre uma disputa com dois grupos importantes na política do DF, a base do Roriz e a do Paulo Octavio, que voltava de um mandato com grande visibilidade no Senado. Com articulações bem feitas consegue sair como cabeça de chapa para o Governo tendo Paulo Octávio como vice e fazendo seu partido romper com Maria de Lourdes Abadia,sucessora de Roriz. Com essa articulação considerada um sucesso, venceu as eleições para governador do DF, em 2006.

Durval Barbosa era diretor da Codeplan – Companhia de Desenvolvimento do Planalto no governo Roriz. De acordo com o inquérito, foi nessa época que Arruda o procurou para articular a relação com as empresas para beneficiar posteriormente sua candidatura ao GDF. Em um desses encontros foi gravado o vídeo em que aparece Arruda recebendo dinheiro para sua campanha em um esquema não contabilizado, chamado de caixa dois. Ainda de acordo com o inquérito, todo o processo foi realizado com o conhecimento de Roriz.

Chegamos a um momento triste e preocupante no Distrito Federal. Os envolvidos no escândalo de corrupção e seus aliados ocupam os três poderes desta unidade federativa. A Câmara Legislativa do DF, que foi ocupada por seis dias pelo movimento que exige a renuncia de Arruda e seus cúmplices, mesmo desocupada não parece demonstrar nenhuma vontade em investigar os casos de corrupção do executivo. Em parte porque apenas cinco dos 24 deputados fazem oposição ao governo, mas pior ainda é que parte do esquema envolve o pagamento periódico a boa parte desses deputados em troca de apoio nos projetos de interesses de empresas que financiavam o esquema.

Se formos pensar que a saída é o judiciário, já que o legislativo não é capaz politicamente enfrentar os casos de corrupção do Executivo, também podemos nos decepcionar. Na semana passada a Revista Época trouxe denúncias que questionam o envolvimento exageradamente próximo do procurador geral do MP Leonardo Bandarra, acusando-o também de estar envolvido diretamente no caso de corrupção de Arruda. Além de tudo isso o Executivo se sente no direito de, após roubar o dinheiro do cidadão, utilizar a Polícia Militar do DF para atacar manifestantes contrários aos atos do governador em uma privatização explícita da instituição de segurança que deveria ser pública.

As instituições do Distrito Federal não funcionam a não ser para benefícios privados. Há muitos anos vemos esses mesmos atores contracenando em atos cada vez mais grotescos. A culpa é nossa. Deixamos tudo isso acontecer. Tomaram para si os espaços que deveriam ser nossos, do povo. Agora temos que pensar em como retomar as instituições para realmente trabalharem a serviço da população. O primeiro passo é tirar esses parasitas do espaço que ocupam. As instituições do DF não serão capazes de fazer isso.  A força desses poucos não pode ser maior que a de todo o povo unido em torno dessa causa. Devemos mostrar nossa força, e é nas ruas! Para re-fundar a política no Distrito Federal.

Quem é quem no escândalo do DF (Leandro Fortes – Carta Capital)

Alcir Collaço: dono da Tribuna do Brasil, foi gravado guardando dinheiro na cueca. É acusado
de lavar dinheiro do esquema com contratos de propaganda.

Benedito Domingos: deputado distrital e presidente regional do Partido Progressista (PP), é acusado de ter recebido cerca de 6 milhões de reais para aderir à coligação de Arruda.

Cristina Boner: dona do Grupo TBA. Segundo a PF, doou 1 milhão de reais para a campanha de Arruda e abocanhou um contrato “emergencial” com o GDF gerenciado pelo subsecretário de Justiça e Cidadania, Luiz França, outro que recebeu dinheiro de Barbosa.

Divino Omar Nascimento: presidente do Partido Trabalhista Cristão (PTC) no Distrito Federal, é acusado de ter recebido 100 mil reais para aderir à coligação de Arruda.

Domingos Lamoglia: ex-chefe de gabinete de Arruda na Câmara dos Deputados, atualmente ocupa o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF). Lamoglia recebia “lotes” de 1 milhão de reais repassados por empresários.

Eurides Brito: a líder do governo na Câmara Legislativa é acusada de receber 30 mil mensais.

Fábio Simão: ex-chefe de gabinete de Arruda, era responsável por gerenciar os contratos de terceirização. Arrecadaria dinheiro de propina das empresas. É o representante da CBF em Brasília.

Fernando Antunes: presidente regional do PPS e secretário-adjunto da Secretaria de Saúde, seria responsável por negociar o pagamento de propinas com empresas privadas.

Gilberto Lucena: dono da Linknet, aparece em um dos vídeos de Barbosa reclamando do valor das propinas cobradas pelo vice-governador Paulo Octávio.

João Luiz de Freitas: subsecretário de Recursos Humanos da Secretaria de Saúde, aparece recebendo 20 mil reais relativos a um contrato com a Uni Repro para serviços gráficos.

José Celso Gontijo: conhecido como Zé Pequeno, dono da construtora JC Gontijo, aparece em um dos vídeos entregando a Barbosa dois pacotes de dinheiro.

José Geraldo Maciel: ex-chefe da Casa Civil, seria o encarregado de operar o chamado “mensalão do DEM”.

José Humberto de Araújo: homem de confiança de Arruda, seria um dos responsáveis por receber o dinheiro recolhido por Barbosa.

José Luiz Valente: ex-secretário de Educação, é acusado de ter recebido 60 mil reais da InfoEducacional, contratada do governo.

Júnior Brunelli: atual corregedor da Assembleia Legislativa, é acusado de receber 30 mil mensais.

Leonardo Prudente: presidente da Assembleia, é o homem que guarda a propina na meia, em um dos vídeos.

Márcio Machado: é presidente do PSDB no Distrito Federal. Distribuiria a propina a partidos aliados.

Marcelo Carvalho: diretor do Grupo Paulo Octávio, seria responsável por recolher as propinas para o vice-governador.

Nerci Soares Bussamra: diretora-comercial da Uni Repro Serviços Tecnológicos, foi gravada quando entregava a Barbosa uma sacola com dinheiro. No vídeo, acusa o PPS de chantageá-la.

Omésio Pontes: assessor de Comunicação Social, aparece recebendo mais de 200 mil reais.

René Abujalski: apontado por Barbosa como “laranja” de Arruda na empresa Nova Fase, dona de um contrato de 27 milhões de reais com o governo.

Roberto Giffoni: secretário de Ordem Pública, é mencionado pelo empresário Gilberto Lucena, da Linknet, por ter cobrado um “pedágio” de 280 mil reais para reconhecer e saldar dívidas do governo com a empresa.

Ricardo Pena: secretário de Planejamento, é dono da empresa Soma, contratada para prestar serviços de pesquisa de opinião para o governo.

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