As liberdades e as mulheres

Por Saionara Reis

O dia 22 de outubro de 2009 ficou marcado por um fato “surpreendente”. A estudante de Turismo da UNIBAN, Geyse Arruda, foi agredida moralmente por estudantes daquela instituição, por trajar um vestido considerado “curto” na Universidade. Após o incidente, que gerou uma sindicância sobre o fato, a garota foi punida com expulsão e reintegrada posteriormente por pressão da mídia, de movimentos sociais e de grupos organizados que trabalham a questão de gênero e direitos da mulher.

O caso tomou proporções tais que gerou manifestações em vários lugares do país sob o mote da discriminação exercida contra aquela estudante, em nome de todas as mulheres. Na Universidade de Brasília, estudantes tiraram toda a roupa, ou parte dela, e saíram a protestar por garantias ao exercício da liberdade e da dignidade da mulher dentro do espaço universitário, como segurança, construções de creches e criação de um Centro de Referência à Mulher no campus.

Em Porto Alegre, o tema alcançou o evento de abertura dos 16 dias de ativismo na luta pela não violência contra a mulher, que acontece em 154 países, sob o mote do “Saia de Saia”, onde manifestantes mulheres de todas as faixas etárias foram às ruas usando saias. Protestos também aconteceram, e ainda estão acontecendo, em várias outras localidades, levando a público debates sobre as formas de discriminação e violência que sofrem as mulheres em todo o mundo.

De tempos em tempos alguns casos como este são postos em evidência, nos fazendo refletir sobre as condições e posições que ambos os gêneros ocupam na sociedade ainda nos dias de hoje. A violência e a discriminação contra a mulher estão presentes nas relações sociais, afetivas ou não, de forma constante e imperativa, apesar de muitos homens e mulheres afirmarem que as desigualdades baseadas no fator gênero já foram ou estão sendo superadas de forma considerável.

O caso da estudante Geyse vem exatamente no sentido oposto, demonstrando que o preconceito, muitas vezes velado e sutil, pode assumir facetas aterrorizantes quando encontra espaço para isso. Tanto é que o fato dividiu opiniões, entre aqueles/as que defendiam o direito da mulher de portar-se e vestir-se da maneira que melhor lhe convier, e as/os que julgavam aquele traje “realmente inapropriado para uma mulher de respeito”.

“Mulher de respeito”. As mulheres estão invariavelmente submetidas a padrões que condicionam o seu comportamento, o exercício da sua sexualidade, o desenvolvimento das suas habilidades enfim, a sua própria condição de atuar de forma autônoma e livre nas suas relações sociais e afetivas. Estes padrões são incorporados na sociedade na construção de uma hegemonia histórica, sendo adaptadas e modificadas de acordo com interesses sociais, políticos, econômicos e culturais da época.

O ideário de prepotência masculina foi e é responsável pela construção de grande parte do modelo estrutural de disposição das relações de poder, tanto nos espaços públicos quanto nos privados. Vale ressaltar que durante muitos séculos a mulher não podia participar dos espaços de decisões públicos ou privados, estavam excluídas de ocupar os altos cargos da Igreja e estavam condicionadas e submetidas à figura masculina, fosse o pai ou o marido.

Hoje é possível afirmar que as condições de vida e dignidade da mulher, de maneira geral, vêm melhorando de forma determinante, ainda que não definitiva. No entanto, surgem sempre novos formatos de perpetrar a situação de desigualdade entre os sexos, com a imposição e reforço de práticas que limitam o seu poder de decisão e atuação sobre a própria vida ou o próprio corpo, por exemplo, com a regulação restritiva e punitiva aos direitos reprodutivos.

Um outro exemplo marcante é a mercantilização do corpo da mulher que, da forma sofisticada e institucionalizada em que se encontra, acaba sendo um fortíssimo artifício de sustentação da discriminação. A partir disso, a mulher e o mercado econômico fazem uso do seu corpo sem questionar a lógica opressora que permeia esse comportamento. A imagem da mulher fica associada a objetos de consumo, imateriais e não pensantes, na busca da satisfação do prazer do homem, visto que normalmente está relacionado com produtos visados a atrair o público masculino.

Em decorrência dessa prática nefasta, explode um grande problema: o padrão imposto pela “ditadura da beleza” tem a cruel característica de forçar as mulheres a se tornarem atraentes, da forma mais irracional possível. Vestir-se de forma “ousada”, tal como as propagandas expõem o padrão de mulheres sexualmente desejadas, pode transformá-las em “vulgar”, para não utilizar outros termos. Vestir-se de forma “recatada” traduz-se em “caretice”. Ser inteligente é sinônimo de “mal-amada”. Ser bonita, mas não ser inteligente é mero “objeto sexual”.

Os esteriótipos criados e reforçados sobre a mulher, ou “todos os tipos de mulher”, contribuem para que situações como o ocorrido na UNIBAN continuem existindo em todos os espaços, em graus mais ou menos perceptíveis. No ambiente familiar, ainda está mantida uma estrutura patriarcal que, em casos extremos porém corriqueiros, “justificam” a violência e a tolerância à violência contra a mulher. Os diálogos informais estão carregados de piadas “inocentes” que humilham e desrespeitam as mulheres, sejam elas negras, loiras, altas, baixas, pobres, ricas, bonitas, feias, motoristas, donas de casa, inteligentes ou não, gordas ou magras e mais uma infinidades de outros esteriótipos destinados a nós, mulheres.

Na política, as mulheres têm que batalhar para ganhar voz e espaço num ambiente tradicionalmente masculino, onde a imposição de idéias está muito mais baseado na força e no poder de agressividade do que no diálogo sincero. Sobre os direitos reprodutivos, a mulher está submetida à legislação, à religião, à vontade do marido, às críticas e opressões sociais, mas jamais lhe é dado o reconhecimento de tratar a matéria como direito privado e individual, que merece respeito, atenção e acolhimento por parte do Estado.

Enfim, são inúmeras as situações de violência e afronta à condição de liberdade e dignidade humana da mulher. Então quando se fala de Gyese Arruda, não se está apenas aludindo a uma pessoa, mas dando significado a todo um contexto de preconceitos velados, de situações onde as mulheres, apenas por pertencerem a esta categoria, são cotidianamente oprimidas, violentadas, execradas, expostas e agredidas.

O fato de termos um “Dia Internacional da Não Violência Contra as Mulheres”, celebrado em 25 de novembro, não é mera vaidade. Vivenciamos situações de violência contra a mulher, tanto física quanto moral e psicológica, em comportamentos explícitos ou aparentemente inofensivos. È importante ter claro que a reação dos/as estudantes da UNIBAN para com Geyse não foi exceção ou exclusividade. Foi um coro de preconceito e discriminação incrustado nessa sociedade que se julga tão liberal; foram vozes do Brasil que juntas eclodiram naquele fato pontual, que por acaso tomou espaço na grande mídia.

Diante disso, é preciso questionar todos os dogmas culturalmente instituídos sobre ambos os sexos. Não é possível admitir que se exija do homem ser forte, heterossexual, insensível e provedor. Da mesma forma, é inadmissível conservar a figura da mulher frágil, “de respeito”, submissa, mãe/dona de casa, objeto. Os padrões e esteriótipos precisam ser desconstruídos para que cada um/a possa exercer com liberdade e autonomia o domínio sobre a própria vida.

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6 respostas em “As liberdades e as mulheres

  1. Entaõ gostaria de convidar você para visitar o Blog: RIO ENTERTAINMENT/ jafogandooganso.wordpress.com/ e conhcer a hist´roria de uma das mulheres mais revolucinárias de costumes do Brasil. Leila Diniz.
    Visita e deixa um comentário, ok?

  2. Muito bom o texto!
    Hoje, se uma mulher quiser ser bem sucedida na carreira, não pode ter filhos. Se os tiver, tem de dar uma grande pausa na profissão, pois se ela voltar logo ao trabalho (por opção e não necessidade), é considerada sem coração, por deixar seu filho com a babá.
    Já para os homens, tudo bem se não aparecer em casa nunca, por estar sempre trabalhando.
    Mulheres, ainda há muito a ser feito… Mãos a obra!
    🙂

  3. Pingback: Retrospectiva 2009 « Brasil e Desenvolvimento

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