Um pulo à esquerda

Por Gustavo Capela

 Esse post é em resposta à matéria publicada no Blog do Noblat. É um artigo retirado da Folha de São Paulo, subscrito por Jânio de Freitas.

 O artigo pode ser encontrado aqui.

 Em resumo, o Jornalista de renome faz uma pergunta muito séria e que deve ser abordada ao longo do post. Questiona: “Em que circunstâncias o direito à rebeldia contra a opressão e os movimentos autodefinidos como revolucionários sociais podem matar sem trair suas premissas?” 

O jornalista utiliza essa pergunta para referir-se a dois crimes pelos quais Battisti é acusado na Itália. Neles, as vítimas supostamente reagiram a “assaltos ou ações expropriatórias do PAC”. Segundo Jânio, exterminar um indivíduo que utilizou de seu direito de defesa não faz parte de ideologia de esquerda, mas sim da extrema direita, de governos militares. Por fim, expõe um caso em que uma menina, a mando do Partido Comunista, foi morta por suspeita de ser informante. Segundo o livro citado por Freitas, “Elza, a garota”, de Sérgio Rodrigues, foi morta injustamente. 

De fato, existe um extremismo atrelado a algumas atitudes de esquerda. Assim como nossos colegas do outro lado do muro, existem aqueles entre nós, canhotos por excelência, que não medem meios para atingir seu fim. Possuem compromisso com a mudança antes de qualquer coisa. Entendem e enxergam um novo sistema como salvador do mundo, como capaz de expurgar todos os males que nos afetam hoje, como sociedade, como indivíduos. Para esse pensamento, matar um, matar dois, faz pouca diferença. Até porque são 30 mil crianças que morrem por dia com doenças curáveis. Matar um para salvar 30 mil parece ser a conta. Conta que só leva em conta números. Conta que, por isso, como bem ilustrou o Jornalista de renome, não é coisa de esquerda. 

O direito à resistência, ou à rebeldia contra a opressão, é uma necessidade no regime democrático. Depender dos meios institucionais eleitos por uma maioria branca, rica, cheia de terra e incapaz de enxergar o outro como “eu”, é se conformar com o sistema em que vivemos. A esquerda é, antes de mais nada, um grupo que se reúne por trás da ideologia que a lógica que nos envolve não é benéfica para a grande maioria. O sistema – a lógica que nos envolve – não resolve problemas de cunho humanístico, não se preocupa com o estrago que gera, não respeita direitos, não encontra um homem por trás de um nome, de um número, não enxerga todos como iguais, não dá iguais possibilidades, não procura dar ao homem e ao mundo um senso de solidariedade, e não perde tempo. Passa por cima de tudo. Antes que alguns se animem, falo sim do sistema econômico que nos envolve. E tudo que vem junto com ele. 

Em nosso país, em especial, cortar árvores da Cutrale, em terras que não lhe pertencia, é uma forma de falar ao mundo que árvores de laranja, cujo fruto não serve à uma comunidade que passa fome no sertão do país, na áfrica subsariana, num bairro pobre da Índia, da África do Sul, da China, dos Estados Unidos (sim existem pobres miseráveis lá também) não merecem maior tutela que a vida das pessoas que o sistema todo explora. É dizer: “O que vale um pé de laranja, quando vocês fecham os olhos para milhares de pessoas sem-terra? Quando fecham os olhos para milhares de trabalhadores em situação análoga à escravidão? Quando fecham os olhos para milhares de pessoas morrendo de fome?” Mas, obviamente, as árvores eram da Cutrale. Os frutos lhes renderiam lucro. Lucro suado. Nunca suado da Cutrale, mas, nevertheless, suado. 

Um olhar para toda essa situação não quer justificar a morte de quem quer que seja, por qualquer razão que seja. Não há dúvidas que a ideologia da revolução burguesa, que elevou o status da vida, da liberdade e da igualdade ao patamar que temos hoje reina em nós, esquerdistas, ou comunistas, como preferem alguns simplórios de plantão. Por isso, nos é muito caro o valor da vida. Também da liberdade e da igualdade. Quem sabe não nos daríamos por satisfeitos se as promessas do céu na terra, como as feitas pela burguesia com seus planos magníficos para o novo status quo, fossem cumpridas? Para que isso ocorra, o primeiro passo é acabar com o reinado do capital, com a adoração do acúmulo, com a obsessão por lucro. 

Para responder a pergunta de forma direta, a esquerda não deve se pautar por ações que levam à morte de ninguém. Disso já se encarregam nossos ótimos e maravilhosos capitalistas. Sabe? Aqueles que nos dão um PIB magnífico, que fazem propaganda falando que se importam conosco, que falam a quem quiser ouvir que são bons moços. Não podemos, no entanto, fingir, que a luta é sempre feita por argumentos, que a melhor razão sempre vence. Se fosse assim, acho que nosso mundo seria menos maldoso, não? 

A mídia diz que a situação de Battisti se deu por X + Y. Assim como a senhora Fred Vargas – que deve ser uma lunática de esquerda, em vossa concepção – duvido muito dos fatos que nos foram narrados. Até porque, somas, múltiplos, números, desacompanhados de pessoas,  não é coisa de esquerda.

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7 respostas em “Um pulo à esquerda

  1. Muito importante esse convite a darmos um “pulo à esquerda”. Excelente texto!

    Confesso, entretanto, que senti um incômodo em uma passagem do texto, qual seja, a idéia de “acabar com o reinado do capital, com a adoração do acúmulo, com a obsessão por lucro”. A avareza expressa na sociedade como um valor é infinitamente lamentável, isso é verdade. Contudo, não podemos deixar de considerar que o “crescimento contínuo e infinito” é a sustentação da economia capitalista, sendo impossível simplesmente abandonar o acúmulo e os lucros sem gerar uma crise devastadora.

    Cada vez menos acredito nas mudanças de sistemas, chegando cada vez mais perto de achar o capitalismo, de certa forma, natural. Creio que a avareza já era um problema muito antes do sistema capitalista, embora acredite também que sua lesividade foi imensuravelmente potencializada pelo sistema capitalista.

    De qualquer forma, parece-me que o problema somos sempre nós, as pessoas. Não que devamos cair no conformismo de simplesmente não acreditar no ser humano, mas ainda acredito que nossos anseios encontram amparo na formação cultural.

    Mesmo com a tendência capitalista pela avareza, acredito ainda no valor da distribuição de renda e da formação cultural, independentemente do sistema. Ao pensarm muito na idéia de sistema, sempre tenho a sensação pessimista de Murph, no sentido de que toda solução gera um novo problema.

  2. Sinto que estão voltando atrás na defesa do Battisti? Muito bom! Sinal de que até mesmo a esquerda pode aprender com seus erros do passado. Ou, como disse uma refugiada iuguslava, que fugiu daquele ex-país (comunista) durante a guerra civil nos anos 90 e veio pro Brasil:

    “Sou refugiada política pois eu salvei minhas filhas de uma guerra, e não porque eu matei pessoas”

    • Thiago, você parte da premissa de que Battisti de fato matou pessoas. Mas ele afirma que é inocente, e não teve direito ao justo processo. É justo condenar uma pessoa nessas condições? Esse é o primeiro grande ponto da nossa defesa, sempre foi. O segundo é a defesa de que o Judiciário não deve invadir a esfera do Executivo para relativizar a garantia do direito ao refúgio. Se há uma extrema-esquerda que defende assassinatos políticos “revolucionários” e por isso defende Battisti, não somos nós. Defendemos por outras razões, absolutamente diferentes. Não façamos confusão, não enxergue em nós o que não somos. abs

  3. Na vida, devemos escolher, dentre soluções sempre provisórias e sempre profundamente insatisfatórias, a menos pior. Creio que essa dicotomia é muito bem posta pelo ancião doente, que, perguntado sobre o que achava dos males da velhice, respondeu: “A alternativa é bem pior!”.

    Da mesma forma, se me questionassem sobre Estados Unidos, capitalismo, Milton Friedman — eu responderia:

    “A alternativa (Cuba, comunismo real, Marx) é bem pior!”

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  5. Pingback: Liberdade para Cesare Battisti – Carta de Bernard-Henri Lévy « Brasil e Desenvolvimento

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