Fome

Por Laila Maia Galvão

Em um dos encontros do grupo, realizamos uma dinâmica em que cada membro deveria ler um poema ou um trecho de livro com o qual tivesse alguma afinidade. Durante alguns dias, fiquei na dúvida sobre o que levar para o encontro do grupo. Logo me veio à mente um trecho de “O Quinze”, de Rachel de Queiroz, que eu havia lido ainda quando criança e que havia me sensibilizado bastante à época. Para mim, uma das mais belas passagens da literatura brasileira. Aproveito para transcrever alguns trechos: 

Chegou a desolação da primeira fome. Vinha seca e trágica, surgindo no fundo sujo dos sacos vazios, na descarnada nudez das latas raspadas. (…) Chico Bento estirou-seno chão. Logo, porém, uma pedra aguda lhe machucou as costelas. Ele ergueu-se, limpou uma cama na terra, deitou-se de novo.

– Ah! Minha rede! Ô chão duro dos diabos! E que fome!

Levantou-se, bebeu um gole na cabaça. A água fria, batendo no estômago limpo, deu-lhe uma pancada dolorosa. E novamente estendido de ilharga, inutilmente procurou dormir. A rede de Cordulina que tentava um balanço para enganar o menino – pobrezinho! O peito estava seco como uma sola velha! – gemia, estalando mais, nos rasgões. E o instestino vazio se enroscava como uma cobra faminta, e em roncos surdos resfolegava furioso: rum, rum, rum… (…)

Parou. Num quintalejo, um homem tirava o leite a uma vaquinha magra. Chico Bento estendeu o olhar faminto para a lata onde o leite subia, branco e fofo como um capucho…

E a mão servil, acostumada à sujeição do trabalho, estendeu-se maquinalmente num pedido… mas a língua ainda orgulhosa endureceu na boca e não articulou a palavra humilhante.A vergonha da atitude o cobriu todo; o gesto esboçado se retraiu, passadas nervosas o afastaram. Sentiu a cara ardendo e um engasgo angustioso na garganta. Mas dentro da sua turbação lhe zunia ainda aos ouvidos: “Mãe, dá tumê…”

E o homenzinho ficou, espichando os peitos secos de sua vaca, sem ter a menor ideia daqueloa miséria que passara tão perto, e fugira, quase correndo…

A temática da fome é algo que acompanha a sociedade brasileira durante séculos e que segue nos acompanhando no presente. Lula participou, na semana passada, de reunião em Roma sobre segurança alimentar. Afirmou não acreditar que exista uma verdadeira carência mundial de alimentos. Logo em seguida, definiu a fome como “a mais terrível arma de destruição em massa do planeta” e pediu que se vença esse problema para abrir caminho a um mundo “justo, livre e democrático”.

Criticou a enorme quantidade de dinheiro injetado no mercado em decorrência da crise financeira, que poderia ter sido utilizada também para erradicar a fome: “Com menos da metade desses recursos, seria possível erradicar a fome do mundo. A luta contra a fome segue, no entanto, praticamente à margem da ação dos governos. É, por assim dizer, invisível”. Dessa forma, o presidente aproveitou para apontar o descaso dos líderes mundias em relação ao enfrentamento do problema.

Ao final, Lula desabafa: “Muitos parecem ter perdido a capacidade de se indignar com um sofrimento tão distante de sua realidade e experiência de vida. Mas os que ignoram ou negam esse direito, acabam perdendo sua própria humanidade”.

Na mesma viagem, Lula foi homenageado pela ONG ActionAid Internacional, pelos bons resultados que o Brasil obteve nos últimos anos na luta contra a fome, e, também, quanto à diminuição em 73% do índice de desnutrição infantil.

No ano passado tivemos a comemoração do centenário de Josué de Castro, autor de Geografia da Fome, de 1946. O famoso livro apontou que a falta de nutrientes na comida dos moradores das regiões Norte e Nordeste se dá por características climáticas, culturais e do solo, próprias de cada localidade, além do motivo principal: a concentração de terra na mão de poucas pessoas. À época do lançamento do livro, acreditava-se que a fome era um fenômeno natural e, de certo modo, irreversível. Falar sobre fome era um grande tabu, especialmente na sociedade brasileira. Josué de Castro e suas pesquisas foram muito relevantes para demonstrar que a fome e a miséria não são fenômenos naturais, mas sim criações de nossa sociedade, fruto de ação do homem e de suas opções políticas e econômicas.

Josué de Castro estudou profundamente a questão dos nutrientes necessários à subsistência humana e dos males advindos de uma má alimentação. Em decorrência de seus estudos, passou a abordar temáticas mais próximas das ciências sociais, passando a defender arduamente a inclusão social. Foi um dos precursores na defesa do salário mínimo e ajudou a formular a política de merenda escolar. Na luta pela agricultura familiar, foi um dos críticos dos latifúndios e pregou a reforma agrária.

Em uma época em que se falar de desenvolvimento sustentável e de ecologia ainda não era muito comum, Josué de Castro denunciou as agressões sofridas pelo meio ambiente. Recebeu o Prêmio Internacional da Paz e concorreu ao Nobel da Paz. Durante o regime militar, foi exilado. Morou em Paris por alguns anos e lá faleceu no ano de 1973.

São dele frases como: “Denunciei a fome como flagelo fabricado pelos homens, contra outros homens”, “Metade da população brasileira não dorme porque tem fome; a outra metade não dorme porque tem medo de quem está com fome”, “Só há um tipo verdadeiro de desenvolvimento: o desenvolvimento do homem”, “O que divide os homens não são as coisas, são as idéias de que eles têm das coisas, e as idéias dos ricos são bem diferentes das idéias dos pobres”, “Fome e guerra não obedecem a qualquer lei natural, são criações humanas.”

Por mais bem-sucedidos que tenham sido os resultados dos programas do atual governo federal quanto ao combate à fome, é preciso lembrar que, de acordo com a FAO, Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, ainda temos no Brasil por volta de 10 milhões de desnutridos. No mundo, 1 bilhão de pessoas passam fome. Chegamos ao século XXI e ainda temos a questão da fome pela frente. Obviamente, a fome é um dos aspectos relacionados a diversos outros problemas tais como concentração fundiária, miséria, desigualdade social entre outros. É evidente que todas essas questão estão interligadas e que se falar em fome é também falar de baixos salários, de exploração, de opressão e de indiferença. No entanto, a fome parece evidenciar, na minha opinião, de forma mais explícita e direta, as perversidades do mundo em que vivemos.

O enfrentamento do problema da fome e das demais injustiças do sistema pode parecer tarefa árdua e difícil. E é. No entanto, creio que fica a lição de Josué de Castro que, na dura experiência do exílio, se definiu, existencialmente, como um “homem profundamente interessado pelo espetáculo do mundo” com suas dores, suas mazelas, suas dúvidas, suas conquistas, suas potencialidades e suas esperanças. A desnaturalização do fenômeno da fome exposta por Josué faz com que possamos imaginar e lutar por um mundo em que não se admita a desnutrição, assassinato lento e cruel do ser humano, que o reduz a uma carcaça, anulando todas suas possibilidades e potencialidades.

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5 respostas em “Fome

  1. Pingback: Tweets that mention Fome « Brasil e Desenvolvimento -- Topsy.com

  2. Seu texto, Laila, tem a dimensão humana e a sensibilidade da Rachel de Queiroz ao tempo em que ela vivenciou a sua narrativa, quando era nordestina.
    Enche a minha geração, a dos pais, de esperança.
    Sua sensibilidade & competência, Laila, é um conjunto legado a poucos, muito poucos, como muitos de voces do B&D.
    Quando a Rachel migrou para o Rio, arrefeceu seu “punch” de esquerda, “sua pegada” … Jamais se esqueçam disso …
    A SBPC deste 2010 será na terra de João Telésforo Filho, JTF. Vizinho à Fortaleza do Rodrigo Santaella Gonçalves, que tem demonstrado o feeling do Ledo, o Gonçalves, em seus textos e ações que nos encantam, igualmente. Por tais razões …

    Que tal o B&D invadir a SBC de Natal ? Abertas as portas …

    Parabéns a todos ! Pros-SIGAM ! E provoquem o JTF que, neste instante, anda por Sorbonne e Paris, divulgando o B&D e suas idéias libertárias …

  3. O homem nasce em igualdade de direitos independente de sua origem, cor da pele, raça ou credo religioso. A alimentação é um direito fundamental á sobrevivência de todo o ser vivo. Embora as Ações de Combate a Fome hoje existentes seja comparável a um lago no oceano, o apelo mundial sobre o tema em questão nos da esperança que num futuro próximo possamos ao menos ver diminuir o número de pessoas morrendo em consequência da fome.

  4. Laila, suas colocações foram muito positivas. Especialmente a parte que fala de Josué de Castro. Ele foi, de fato, um pioneiro em pesquisas sobre a fome no Brasil. E é interessante percebermos, a partir das conclusões dele, um fato que contradiz a idéia de eficiência da concentração dos meios de produção defendida pelo sistema em que vivemos.
    Outras pesquisas realizadas posteriormente dão conta do mesmo resultado: a incapacidade do latifúndio de extinguir a fome, mesmo que esta seja a principal razão pra se defender o aumento nas plantações de grãos em todo o mundo. Quer seja pela produção de gêneros alheios ao consumo ou pela perda astronômica que ocorre ao longo das cadeias de produção e comercialização, os alimentos que se produz nos latifúndios tem pouca função social, isto é, aumentam o PIB, mas não reduzem a disigualdade social e muito menos garantem segurança alimentar à população.

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