Debate com Emir Sader.

Por Rodrigo Santaella

No último dia 11, como parte do Festival de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará ( http://www.festivalufcdecultura.ufc.br ), fui convidado para, enquanto membro do Diretório Central dos Estudantes da UFC, compor a mesa de um debate sobre os novos caminhos da esquerda latino-americana. O convidado principal e palestrante da tarde era o sociólogo paulista Emir Sader. Grande estudioso da América Latina, Sader falou durante aproximadamente uma hora sobre temas relacionados ao seu novo livro, intitulado “A Nova Toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana”. Eu pude colocar as minhas concepções sobre o assunto durante mais ou menos15 minutos, antes da fala do Emir. Neste post, reproduzo a minha fala lá e depois coloco alguns pontos de discordância com relação às posições do Emir Sader. Tenham em mente que estou reproduzindo uma fala em uma mesa de debates na qual tinha 15 minutos para me colocar, então tudo acabou sendo tratado de forma bastante superficial.

Aqui vai a minha mini-palestrinha:

“Gostaria de começar falando um pouco do que é ser um militante de esquerda atualmente. A minha geração foi educada e iniciada na militância em um contexto fundamentalmente influenciado pelo neoliberalismo. Isso significa, na prática, uma mentalidade individualista generalizada, a falta de estímulo total para a organização coletiva, a falta de estímulo para pensar questões mais gerais (tanto na academia quanto na militância). Além disso, militamos em um tempo no qual o inimigo é difuso: a mídia, as grandes corporações, alguns partidos, alguns governos… tudo isso são espaços nos quais se diluíram um inimigo que outrora foi comum e de fácil percepção.

Tudo isso é em grande parte fruto da ofensiva neoliberal dos últimos 25 anos, que teve início na América Latina. E a América Latina paradoxalmente, mesmo tendo sido o primeiro laboratório do mundo do que foi e vem sendo o neoliberalismo, é o lugar no qual mais se contesta esse modelo atualmente, e é na opinião de grandes pensadores pelo mundo (Noam Chomsky, Boaventura de Sousa Santos, Atílio Borón, o próprio Emir Sader, entre outros), o lugar politicamente mais interessante da atualidade. Parece que a ressaca do neoliberalismo está sendo superada e estamos em uma fase de buscar alternativas no continente, em termos gerais.

Digo em termos gerais porque as experiências são muito diversificadas, cada estado tem suas próprias configurações sociais, políticas e culturais. Entretanto, para efeito analítico, creio que seja possível dividir a América Latina em três grandes blocos atualmente: o primeiro e menor deles seria o dos países assumidamente neoliberais, que seguem ainda hoje estritamente a agenda importada de Washington. Entre estes estariam a Colômbia, o Peru e o México, por exemplo. O segundo seria o bloco das experiências mais ambíguas do continente, de governos ditos de esquerda, mas que não rompem de forma completa em momento algum com a lógica imposta pelo neoliberalismo nas últimas décadas. Aqui estaríamos nós no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, entre outros. E o terceiro e mais radical bloco seria o que se pode chamar de tentativas concretas de experiências pós-neoliberais. Aqui estariam Venezuela, Bolívia e Equador.

Enquanto experiência pós-neoliberal, sem sombra de dúvidas o último bloco é o mais interessante. Os avanços sociais e políticos – participação direta dos movimentos nos governos (na Bolívia acontecem reuniões periódicas da CONALCAM, que reúne os movimentos com o presidente diretamente, por exemplo), erradicação do analfabetismo, entre muitas outras coisas – nos três países citados são inquestionáveis. É óbvio, entretanto que os três processos não são isentos de falhas. O personalismo e a tentativa de cooptação dos movimentos por parte de Chávez na Venezuela,  a fragilidade econômica da Bolívia e a aparente incapacidade do governo boliviano de efetivar concretamente um plano econômico pós-neoliberal que vá para além da exportação dos recursos naturais, por exemplo, são falhas graves e que podem prejudicar a consolidação em longo prazo dos avanços já obtidos.

Entretanto, a organização popular nesses países tem uma capacidade de pressão e de ingerência sobre o Estado que não é vista em outros lugares do continente e isso, por si só, representa um grande potencial de mudança concreta para esses países e para a região como um todo.

Quanto ao bloco moderado, apesar de não tratar das experiências mais interessantes em termos de alternativas ao modelo neoliberal, é fundamental para traçar linhas estratégicas para a esquerda no continente a compreensão sobre o que são esses processos, repletos de contradições e ambigüidades, que recuam, avançam, caminham de lado, agradam externamente enquanto desagradam internamente, enfim, são essencialmente ambíguos. É preciso entender de forma profunda e séria esses processos para pensar o futuro do continente.

Neste sentido, o caso do Lula é emblemático para este momento, tanto por fazermos parte da esquerda brasileira quanto pela importância do Brasil no continente. Negar que existem avanços, afirmando que o governo Lula é exatamente igual aos anteriores é de uma miopia analítica tremenda. Alguns avanços sociais como o aumento da qualidade de vida da maioria da população, passando das classes D e E para a classe C, ou os esforços, ainda que em alguns momentos bastante modestos, pela integração regional, são exemplos claros de avanços que não podem ser negados. Entretanto, assim como é miopia analítica não enxergar avanços, não entender que efeitos os aspectos negativos desses governos terão para a esquerda de seus respectivos países e para o continente, também é extremamente perigoso.

Voltando ao caso brasileiro especificamente, o governo Lula mantém a política macroeconômica neoliberal e segue implementando reformas neoliberais de forma fatiada (e aqui, pra não sair da Universidade, a reforma universitária muito parecida com a proposta pelo governo anterior, só que toda fragmentada – REUNI, novo ENEM, SINAES, etc. – é um exemplo claro). Quando se faz tudo isso tendo como pano de fundo um discurso progressista, o que se causa é uma deseducação política generalizada na população brasileira, ou pelo menos dos 80% da população que tem como referencia política principal o governo Lula. É a mesma deseducação política que se dá quando se afirma que nas eleições do ano que vem não teremos nenhum candidato de direita, por exemplo, ou quando se busca a integração regional no continente ao mesmo tempo em que não se toca jamais na questão do imperialismo norte-americano.

Além disso, a fragmentação da esquerda, seja a esquerda partidária ou a chamada “esquerda social”, fruto da tentativa de cooptação dos movimentos, sindicatos, entidades estudantis e etc., por parte do governo, é outra característica comum a essas experiências mais moderadas. E essa fragmentação, em longo prazo, também pode trazer conseqüências gravíssimas para a reorganização da esquerda no continente. Na medida em que se fragmentam os movimentos e se deseduca politicamente a maior parte da população, o pilar sustentador de qualquer mudança concreta – que é o movimento popular organizado – perde sua força e seu potencial de emancipação durante muito tempo.

Repito, negar os avanços do governo Lula e desses governos mais ambíguos do continente é ingenuidade, mas o que parece acontecer nessas experiências contraditórias é mais ou menos o seguinte: enquanto um projeto contra-hegemônico de esquerda poderia avançar 200 passos, com esses governos avança uns 30, 40… às vezes um pouco mais, às vezes um pouco menos. Entretanto, esse modelo de avanço, com as contradições e ambigüidades que lhe são intrínsecas, faz com que os outros 170 passos se tornem muito mais difíceis, muitos mais árduos e muito mais custosos. Então, avança-se um pouco, ao mesmo tempo em que se impede um avanço mais profundo em longo prazo.

Vivemos um processo de bastante efervescência política no continente e entender os avanços e contradições das experiências nacionais é fundamental. Pensar em maneiras de alinhar as estratégias vindas de baixo, através da sociedade civil organizada, com as que vem de cima, através de governos ou de possíveis governos que proponham um projeto efetivamente pós-neoliberal é condição necessária para a construção de um projeto contra-hegemônico de esquerda consistente e viável para o continente.

Não sou otimista a ponto de afirmar que vivemos já a ascensão de um projeto contra-hegemônico no continente, mas sim que a disputa pela hegemonia voltou à tona, ou que a toupeira – para usar a metáfora retomada no livro do Emir Sader – está saindo de novo à superfície, depois de pelo menos duas décadas de trabalho no subsolo.

Nessa disputa de hegemonia que se instaura novamente, o povo organizado, através dos movimentos sociais principalmente, deve ser o protagonista da construção desse novo projeto hegemônico que, enquanto estratégia para a esquerda do continente, deve ser essencialmente socialista, ou de superação do sistema capitalista, ou como queiramos chamá-lo. Os resultados dessa disputa na América Latina seguramente serão sentidos em muitas outras partes do mundo e, por isso, a responsabilidade da esquerda latino-americana é imensa.

Sei que o Emir Sader pode contribuir de forma brilhante no debate de todas essas questões colocadas e de muitas outras, então já passando do tempo previsto encerro minha apresentação e passo a palavra pra ele.

Muito obrigado pela atenção!”

O Emir Sader me cumprimentou e elogiou bastante pela fala, mas claramente discordou de mim – e eu dele, obviamente – em apenas um ponto de tudo o que foi dito anteriormente. Trata-se de um ponto fundamental: o papel cumprido por esses governos que chamei de ambíguos, em particular o governo Lula. Emir acredita que existem três grandes pontos falhos no governo brasileiro atualmente: a questão agrária, na qual se tem dado prioridade ao agronegócio, a política macroeconômica de aliança eterna com o capital financeiro e a pouca vontade política do Estado para a efetiva democratização da mídia brasileira. Emir acredita que essas questões são questões pendentes do projeto político do PT para o Brasil e que a continuidade de um governo petista poderia garantir a efetivação de mudanças concretas nesses três pontos falhos do atual projeto político vigente no país. Concordo plenamente com esses três pontos falhos no que diz respeito ao governo Lula, mas tenho plena clareza de que não são pendências a serem resolvidas por um governo que está em disputa, mas sim limitações de um projeto que não tem absolutamente nenhuma perspectiva de avançar nestes pontos.

Infelizmente, o PT como um todo terminou por confundir estratégia com tática e tornou o que poderia ser um projeto de esquerda para o Brasil um grande projeto de poder e de alianças que visa agradar a todos – dos representantes do capital financeiro aos moradores de rua – na medida do possível. A questão é que, para agradar ao primeiro lado, é preciso que se mantenha uma estrutura sócio-econômico-política intacta e que não existam possibilidades de uma mudança profunda em longo prazo, enquanto que para agradar ao outro lado, basta um pouco de assistencialismo e atendimento de determinadas necessidades imediatas. Assim se forjou o projeto do PT e assim ele tem se efetivado.

Sader afirma que considerar o governo Lula pior ou mais neoliberal do que os anteriores (o que algumas organizações afirmam claramente) ou negar que existem avanços pode trazer o enorme erro de se fazer oposição a qualquer custo e fazer o jogo político da direita. Concordo plenamente. Entretanto, apostar em um projeto que tem limites estruturais claros e que justamente por conta de todas as suas ambigüidades termina por fragmentar enormemente a esquerda partidária e os movimentos sociais parece ser apostar em algo que tende a eternizar a estrutura social a qual contestamos atualmente. O que Emir chama de pendências do projeto que o PT traz para o Brasil eu chamo de limites estruturais, e justamente por isso acredito que uma oposição de esquerda séria ao PT seja fundamental no atual contexto político brasileiro. É preciso que existam espaços de organização que vislumbrem e que demonstrem para a população brasileira que existem horizontes políticos diferentes do que está posto, e o PT claramente não é mais capaz de proporcionar isso.

Emir Sader é um sociólogo brilhante, extremamente didático e tem muito a contribuir com suas análises a respeito da esquerda na América Latina e no Brasil atualmente. Entretanto, quando passa da análise propriamente dita ao “portanto”, ou seja, à maneira de se colocar diante da situação que nos está posta, acredito que cai na vala comum do conformismo. A busca de uma nova realidade para o Brasil, para a América Latina e para todos os países supostamente “em desenvolvimento” requer muito mais do que resolver certas pendências de determinados projetos políticos que não se propõem a superar o sistema como um todo, ou que pelo menos não apontam perspectivas de resolução de problemas estruturais desse sistema. Não entender isso, em minha opinião, é também caminhar para trás. É claro que a volta do PSDB ao poder no Brasil representaria um retrocesso, mas acreditar que a continuidade do projeto vigente atualmente pode trazer soluções concretas para os problemas do Brasil é também contribuir com um cenário de entrave de avanços reais em longo prazo. É preciso que comecemos a buscar, seja no Estado ou não, alternativas a essa dicotomia que se nos impõe atualmente. Sem essas alternativas, é bem provável que estejamos, dentro de alguns anos, batendo no teto das possibilidades de desenvolvimento real para a grande maioria da população do nosso país.

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6 respostas em “Debate com Emir Sader.

  1. Rodrigo, texto maravilhoso. Análise, como sempre, de primeira linha. Mesmo. Orgulho de tê-lo ao meu lado no grupo. A luta pela hegemonia está posta, cabe a nós, cidadãos que aqui vivem hoje, lutar por dias melhores.

  2. Pingback: Tweets that mention Debate com Emir Sader. « Brasil e Desenvolvimento -- Topsy.com

  3. “É preciso que comecemos a buscar, seja no Estado ou não, alternativas a essa dicotomia que se nos impõe atualmente.Sem essas alternativas, é bem provável que estejamos, dentro de alguns anos, batendo no teto das possibilidades de desenvolvimento real para a grande maioria da população do nosso país’

    Marx também, já no século XIX, previa o fim do capitalismo, via como invevitável seu fim… só não sabia como seria esse mundo pós-queda, ou o que tomaria seu lugar, ou como o sistema funcionaria se não pela iniciativa privada…

  4. MIguel, não acho que o capitalismo vá terminar por conta própria não… Muita gente por aí acredita que, de fato, o capitalismo está batendo no seu teto. O capitalismo, por si só, arruma meios muitas vezes impensáveis de sair de suas crises. Atualmente, com a convergência de crises – financeira, ambiental, política, etc. – pode ser que de fato não exista muita saída por dentro do sistema (a questão ambiental é bastante ilustrativa nesse sentido), mas concordo que não podemos subestimar a capacidade do sistema de se adaptar a novas situações.
    O que acredito e reafirmo aqui é que a melhora de vida da maioria da população sob o governo Lula não é sustentável em longo prazo se não se consolidarem mudanças mais estruturais e profundas. O sistema por si só pode se adaptar, mas como sempre em detrimento dos interesses da maioria da população dos países “em desenvolvimento”.

  5. Pingback: Desapegar-se do “mito Lula” e não se iludir com a Lava-Jato – Brasil em 5

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