Essa semana conheci Cesare Battisti

Por Gabriel Santos Elias

Foi de surpresa. Já era madrugada e eu estava desligando o computador para ir dormir quando o companheiro Paíque me chama no GTalk dizendo que precisava de alguém para levar a galera no dia seguinte para a Papuda, onde está preso Cesare Battisti. Preocupado com as faltas acumuladas nas matérias do dia seguinte e com uma reunião do PET ao meio dia, hesitei. Mas a oportunidade de conhecer Cesare Battisti falou mais alto e confirmei a disponibilidade.

Já estava envolvido com o movimento pela liberdade de Cesare tanto pelo B&D, como pelo DCE, que serve hoje de base de apoio para o movimento. Em parceria com o comitê pela libertação de Cesare Battisti e com os amigos do Crítica Radical, do Ceará, já havíamos realizado um seminário na UnB e uma audiência com o Ministro Dias Toffoli, mas confesso que a pauta ainda não tinha me tomado por completo.

Foi através do DCE que convidamos os nossos “caronas” daquele dia, o Jornalista e escritor Celso Lungaretti e Carlos Lungarzo, membro da Anistia Internacional. Militantes “das antigas”, nossos convidados estavam hospedados em uma pousadinha “de luta”, daquelas da W3, com uma entrada localizada em um beco, ao lado de uma serralheria. Foi tudo que nosso colega Paíque conseguiu encontrar com aquela urgência – no movimento estudantil ainda cultivamos o excitante hábito de deixar as coisas para a última hora.

Fomos com eles em direção à Papuda expondo nossas especulações a respeito da decisão do STF que estava marcada para alguns dias depois e as possibilidades de atuação no pouco tempo que nos restava. Chegando a Papuda, nossos nomes já estavam na lista de visita por intermédio da deputada distrital Érica Kokay, que nos apóia nessa luta. Fomos encaminhados para a sala da direção do presídio, onde seria nossa conversa.

A primeira impressão que tive de Cesare foi boa. Quando entramos, ele já estava com duas de nossas companheiras do Crítica Radical. Estava limpo, bem vestido. Fui apresentado a ele e me sentei à mesa, onde se dava a conversa. Ele falava um português intercalado com palavras do espanhol e com um forte sotaque não identificado, resultado de suas andanças pelo México e França depois de sua fuga da Itália.

Disse que não conseguia comer nem dormir, já tinha emagrecido cinco quilos nas ultimas semanas. Estava se sentindo muito deprimido. Havia uma garrafa de café em cima da mesa, que aos poucos cada um foi esvaziando. Nesse momento ele se mostrou realmente abatido. Acredita que a situação não estava boa para o lado dele. Por mais que tentássemos confortá-lo era muito difícil, pois se lembrava do que lhe ocorreu na França, segundo ele da mesma maneira como está acontecendo agora. Disse que a Itália se esforça muito para tê-lo de volta, que colocou tanto dinheiro na França até que o governo francês cedeu. Cesare diz que se aconteceu na poderosa e rica França, por que não aconteceria no Brasil?

Cesare nos explicou então que o governo italiano hoje está composto por todos aqueles que ele um dia combateu na Itália. E nos contou o caso de quando teve embate físico com Ignazio La Russa, atual ministro da defesa italiano, quando este era da juventude fascista no Movimento Social Italiano. Ele de um lado da rua, com seu movimento e La Russa do outro, com o dele. Foi esse mesmo ministro que ameaçou se acorrentar em praça pública em protesto caso a decisão do Brasil seja pelo refúgio.

Battisti não come nem dorme por medo. Percebe como a Itália está investindo em sua extradição no Brasil. Como na França, o governo italiano ataca primeiro através da mídia, vendendo a imagem de terrorista sanguinário. Mas desde que saiu da Itália, Cesare largou qualquer arma que tenha carregado e optou pela vida de escritor, tornou-se amigo da famosa escritora Fred Vargas e teve duas filhas. Com pesar lembrou, durante a conversa, da última vez que viu as filhas. Disse que não pôde ver a mais nova crescer, pois hoje, aos 14 anos, já é quase uma mulher.

Desconfiado, ele interrompeu a conversa para perguntar quem eu era e o que eu fazia. Aproveitei a oportunidade para tranqüilizá-lo com relação as nossas ações na UnB. Contei da exitosa articulação que estávamos fazendo, das atividades que já tínhamos feito e das que estávamos planejando ainda. Nesse momento apontou para os dois distraídos policiais que conversavam na porta da sala, como que dizendo para tomar cuidado com o que dizíamos. Insistimos na tentativa de tranqüilizá-lo falando da audiência que tivéramos com Dias Toffoli.

Naquele dia ele já não acreditava que Toffoli votaria. O que viria a me surpreender dias depois, para ele, naquele momento, já estava claro. O governo não quer se comprometer com a vida dele. Para Cesare, não há duvidas de que a Italia investe muito em sua extradição e o governo provavelmente cederá em troca de alguns benefícios econômicos e de política internacional. De qualquer forma, demonstramos nossa intenção em defender com todas nossas forças sua liberdade.

Quando foi questionado por uma colega sobre a possibilidade de fazer greve de fome, Battisti foi direto. Não quer. Apesar de tudo o que já aconteceu, ele acredita que a justiça será feita e por isso vai aguardar – sempre ansioso – a decisão do STF. Sabe que há uma possibilidade da decisão ser contrária ao seu refúgio. Ao pensar em voltar para a Itália e as implicações disso em relação ao risco que sua vida corre, considera sim declarar uma greve de fome. Para deixar claro que prefere qualquer coisa a ser extraditado para a Itália.

Cesare Battisti é flamenguista, como seu amigo, Paíque. Sabe a classificação de seu time no campeonato brasileiro, talvez por informação dos carcereiros. Diz que, quando consegue se concentrar, lê. Também escreve, quer fazer mais um livro, mas conta que está na mesma frase há algumas semanas. Despedimos-nos. Um longo abraço em cada um. Fomos embora e ele foi levado de volta à sua cela.

Saindo, pensei no caso do Cesare mais profundamente e lembrei-me dos inúmeros casos conhecidos no Brasil de pessoas que, por razões semelhantes às de Battisti, tiveram que sair de seus países, deixar suas famílias e amigos, e buscar refúgio em outros países que respeitassem sua condição política, qualquer que fosse. Lembrei também da condição das centenas de refugiados políticos existentes hoje no Brasil, que da mesma forma, pelos mais variados motivos, tiveram que deixar seus países em busca de um país amigável que os recebessem independente de seus atos e posições políticas.

Battisti viveu na Itália em um período de conturbação política, todos reconhecem. A prática de recursos investigativos, como a delação premiada para acusações de cunho político – como a que gerou a prova utilizada pela justiça italiana para condenar Cesare – é uma das evidências de um período de exceção do Estado Italiano. Além das acusações de tortura e morte de prisioneiros políticos, que a Itália ainda hoje sofre.

Todos que utilizamos nossas liberdades individuais para nos expressar politicamente – através da livre expressão e de ações políticas coletivas – devemos nos tocar com a restrição de liberdade de Cesare Battisti.

Conhecer Cesare pessoalmente me fez mudar a forma como encaro sua luta pela liberdade. Isso me fez refletir sobre a impessoalidade do nosso modo de ver o mundo. Todos os dias deparamo-nos com injustiças terríveis e é esse mecanismo que nos blinda de qualquer incômodo, a impessoalidade. E cada vez mais as pessoas deixam de ser pessoas e se tornam números. Mais dois nas estatísticas de violência. Mais dez nos números da fome. Mais uma morte? Não podemos seguir pensando que os problemas de alguém que sofre com uma injustiça não é problema nosso. Devemos nos incomodar com o sofrimento de cada um, como se fosse o nosso.

Trouxe o caso do nosso amigo Cesare, pois exige de nós uma ação urgente, qualquer que seja, em defesa de sua liberdade e de sua vida. Mas poderia ser o mendigo da esquina, o traficante, a mãe de família que não tem o que dar de comer aos filhos. Indigne-se com a injustiça! Incomode-se! Incomode!

*Cesare acaba de anunciar greve de fome. Ficou muito abalado com a última sessão do julgamento de sua extradição. Sua saúde já está comprometida com os danos psicológicos do processo. Não sabemos quanto tempo resistirá.

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15 respostas em “Essa semana conheci Cesare Battisti

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  2. Agora, me desculpe — eu realmente gostei muito do seu texto, você tem uma belíssima veia “new journalism” e a grande imprensa não havia nos mostrado Battisti tão de perto. Ainda não havia tido oportunidade de vislumbrar o “homem” Battisti antes desse seu belíssimo post.

    Mas como alguém que mexe um pouquinho com direito, eu acho que é necessário corrigir isso aqui: ” A prática de recursos investigativos, como a delação premiada para acusações de cunho político – como a que gerou a prova utilizada pela justiça italiana para condenar Cesare – é uma das evidências de um período de exceção do Estado Italiano. ”

    Em primeiro lugar, delação premiada é uma técnica investigativa entre outras — uma técnica muito eficaz diga-se de passagem — e que é utilizada em vários ordenamentos jurídicos. Na Itália, a delação premiada adquiriu especial relevância a partir desse processo judicial aqui — ver: http://en.wikipedia.org/wiki/Maxi_Trial — que quebrou a espinha dorsal da Casa Nostra, a máfia italiana, e que aparentemente sente o baque infligido até hoje.

    A delação premiada existe no Brasil, igualmente, e sua constitucionalidade não é questionada. Utiliza-se na investigação de vários crimes, como: crimes hediondos (homicídio qualificado incluso), crimes organizados, extorsão mediante seqüestro, lavagem de dinheiro.

    Em relação ao que você disse sobre a delação premiada ter sido utilizada para apuração de “crimes políticos”, gostaria de salientar que homicídio não é considerado crime político na Itália, nem no Brasil — sendo a discussão jurídica praticamente toda centrada exatamente nesse fato: diante do que prevê o art. 77 do Estatuto do Estrangeiro, poderia o ministro Tarso Genro — cuja suposta discricionariedade encontra-se na verdade firmemente restringida por leis — recusar-se a extraditar Cesare Battisti ao governo italiano?

    Vou transcrever o dispositivo em questão:

    Art. 77. Não se concederá a extradição quando:

    (…)

    VII – o fato constituir crime político; (…)

    § 1° A exceção do item VII não impedirá a extradição quando o fato constituir, principalmente, infração da lei penal comum, ou quando o crime comum, conexo ao delito político, constituir o fato principal.

    § 2º Caberá, exclusivamente, ao Supremo Tribunal Federal, a apreciação do caráter da infração.”

    Espero que com isso ter conseguido ao menos indicado para você que estamos tratando aqui de uma controvérsia legítima, e não apenas de uma mera luta entre “o bem e o mal”, ou entre “violência” e “justiça”.

    A realidade tem o detestável hábito de ser mais nuançada do que crassos dualismos como os apontados. É que ela é multicor — quiçá ainda mais colorida do que uma bandeira GBLTS hasteada em plena Av. Paulista: http://2.bp.blogspot.com/_BppJ1iQJtcs/SjUYWDSGqhI/AAAAAAAAAt4/rA-mR-BDkgk/s400/foto_parada_gay_geral_jpg.jpg

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  5. A propósito: se nada ainda nos houver conencido que o pobre Battisti não deve ser extraditado (nem mesmo as excelentes razões que recomendam extraditá-lo), acho que um empate polêmico e o sofrimento pelo qual o cara passou e as décadas de fuga e o final do Fausto vêm a propósito.
    “He who strives on and lives to strive/ Can earn redemption still”

    Que ele seja “libertado”. Que ele possa trafegar pelas belas areias de Ipanema. Mas que nos lembremos que sua utopia é passada e que nobres razões não justificam sórdidos meios.

    • acompanha gabriel, parana!!!!!
      deixa essa pora de jornalismo e a naugenta folha pra fazer o que vc sonha!! vc ja repetiu bastante que queria escrever pra colocar mao na massa !!!!!

      parabens de novo pra seu trabalho galera

  6. Me desculpem,
    Mas esse cara é um tremendo bandido e tem que sumir daqui! Já temos os nosso e já está difícil administrar.
    Agora ter sustentar um biltre desse com o meu dinheiro suado, aí é demais!
    Bandido, assassino e ordinário!
    Esse papo de dizer que é criminoso político, é criminoso mesmo!
    Fora!
    Chega de gente atoa locupletando desse povo.

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