Violência

Por Gustavo Capela

Violência. Nietzsche estava certo. Nós, como espécie, como animais que somos, adoramos a violência. Camuflamos todos os atos que a demonstram por questões éticas, políticas, morais, mas nossos rituais estão repletos de situações violentas que, em tese, amenizam os problemas sociais. Instalam a ordem aos nossos rituais. Ritual em que onze pessoas, escolhidas por uma outra pessoa, esta escolhida por várias pessoas, definem se um indivíduo de outra tribo pode ou não pode ficar conosco. Enquanto isso, ele, o estrangeiro, o que fala outra língua, espera, em um lugar recluso, sem contato conosco. Afinal, como permitir que ele conviva entre nós se os onze patetas, quer dizer, anciões ainda não tiveram tempo para decidir?

Violência. Derrida estava certo. Não há direito sem uma força que possa empregá-lo. Não há direito sem violência. O direito, em alguns momentos, não só instaura, como justifica a violência. Violência que impede que pessoas, nascidas aqui, em nossa tribo, possam falar o que pensam durante nossos rituais. Durante o circo armado para os onze magos decidirem, quando tiverem tempo, claro, sobre qual aspecto argumentativo utilizarão para justificar suas próprias intenções, somente eles, e os que eles permitem, podem se manifestar. Enquanto isso, dormem durante o ritual, conversam entre si – escutando pouco, lógico – e, por fim, atendem aos seus compromissos firmados. Afinal, quem seria capaz de adiar o compromisso de um de nossos anciões? Certamente não um estrangeiro. Estrangeiro doente. Sonhador de violência. Sonhador de pesadelos aos olhos de quem detém a violência.

Violência. Marx estava certo. O indivíduo que deixa de ser, de existir, para só ser trabalhador, o que deixa de ser Pedro, para virar pedreiro, sofre a pior das violências. Em nosso mundo de rituais, a forma diz mais que o conteúdo.  Uma vestimenta, um meio de transporte, um corte de cabelo, uma cor de pele, diz mais que a voz do homem. Violência. Violência com direito. Com direito a esconder vozes, sentimentos e sonhos por trás de formas bem elaboradas, bem desenhadas, bem calculadas.

Violência. Amiga de uma ordem caduca. Amiga de palavras bonitas. Flerta com liberdade. Flerta com igualdade. Flerta com democracia. Violência. Perde seu real significado quando utilizada contra certas pessoas. Ganha holofotes quando atinge quem a instaura. Violência. Sabe quem atinge, sabe quem a comanda. Violência. Palavra pequena, mas símbolo daquilo que é necessário para mantermos rituais belos e ordeiros. Violência. O que com freqüência condenamos ao utilizá-la.

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12 respostas em “Violência

  1. Pingback: Tweets that mention Violência « Brasil e Desenvolvimento -- Topsy.com

  2. Grita não só “o direito está nu” como também as pessoas que lidam com esse direito.
    E talvez, muito mais que isso. Grita sobre nós, por trás dos nossos discursos!
    Quanta violência não escondemos nos nossos debates…na nossa postura…na nossa não aceitação e compreensão do outro…

  3. Bela poesia.
    O direito não está nu, ele é nu. Por isso a formalidade, o simbolismo, as capas pretas.
    Palmas, senhores. Lá vem o Supremo Tribunal Federal.

    Ahh, e para alguns, as coisas acontecem em 24 horas…

  4. Bom texto. Observo apenas que se esse trecho aqui —

    “Afinal, quem seria capaz de adiar o compromisso de um de nossos anciões?”

    — estiver se referindo ao adiamento do julgamento por causa de um compromisso do min. Marco Aurélio, trata-se de uma pequena injustiça, uma vez que foi este o ministro que elaborou a melhor “defesa” até agora em favor da permanência de Battisti no Brasil.

    De qualquer forma, boas notícias para vocês, que tão unanimemente apóiam o ex-radical (e homicida condenado) italiano: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,stf-deve-deixar-para-lula-decisao-sobre-battisti,466435,0.htm

  5. Pingback: STF: comunicação institucional usada contra Battisti « Liberdade Política

  6. A propósito: se nada ainda o houver convencido que nos houver conencido que o pobre Battisti não deve ser extraditado (nem mesmo as excelentes razões que recomendam extraditá-lo), acho que um empate polêmico e o sofrimento pelo qual o cara passou e as décadas de fuga e o final do Fausto vêm a propósito.

    “He who strives on and lives to strive/ Can earn redemption still”

  7. Pingback: Liberdade para Cesare Battisti – Carta de Bernard-Henri Lévy « Brasil e Desenvolvimento

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