Muros de vidro

Por Edemilson Paraná

Há exatos 20 anos caia o muro de Berlim. Entusiasmados com um comunicado do governo que permitia viagens e emigração, milhares de alemães se aglomeraram na fronteira. As filas, as reclamações e a pressão popular precipitaram o inevitável. Nada poderia contê-los. Eram 28 anos de desilusão e supressão de liberdade contra a concretude débil de um muro sem alma. 28 anos de famílias divididas, vidas perdidas e grandes tragédias contra a irracionalidade institucional de um sistema obsoleto, falido. Sem meias palavras: uma inquestionável vitória da liberdade.

Espetacular, a mídia romantizou cada pedaço da queda. Saboreou o fim do comunismo real como a vitória final do capitalismo, como o deleite triunfal do consumismo hedonista, como a emancipação do homem Coca-Cola. Enquanto políticos trocavam apertos de mão, cientistas sociais discutiam uma nova ordem global, o triunfo do mercado livre e da democracia representativa; o fim da história.

O mundo deixava de ser bipolar. O enquadramento forçado, o entendimento “confortável” de um mundo dividido pela cortina de ferro chegara ao fim.

Para isso foram necessários esforços incansáveis de um papa político, escolhido politicamente, de batalhas diplomáticas, artimanhas políticas, medidas econômicas, elaborações ideológicas, culturais. A força avassaladora do capitalismo havia enfim derrubado o gigante de aço e concreto.

O neoliberalismo vinha com força total. Inundava o governo, a academia, a sociedade. E na euforia delirante anunciava o mundo sem regulação, sem estado, sem ideologia. Durou pouco.

A euforia cedeu lugar ao medo e as fraquezas do mundo mágico não demoram a despencar tal qual o muro que caia anos antes. Crises econômicas, desemprego, guerras étnicas, terrorismo, desigualdade crescente, concentração de renda, abuso de poder. O mundo estava longe de ser resolvido.

Símbolos do aparte, da opressão, e da divisão humana, os muros continuaram a marcar nossa história. Dos destroços do muro de Berlim, erguemos sem nenhum remorso os muros em Israel, na fronteira com o México. E, sem olhar para trás, continuamos separando vidas, famílias inteiras, sonhos, desejos de liberdade.

Na Europa livre e unificada, do discurso liberal, muros continuam a ser construídos todos os dias contra africanos, hispanos e muçulmanos. No Brasil, seguimos construindo muros contra pobres, negros, mulheres, homossexuais.  Em nossas próprias casas muros já não bastam. Apartamos-nos do contato social por meio de câmeras de monitoramento, cercas elétricas, guardas armados até os dentes. E na blindagem dos carros de luxo, tomamos nossos calmantes e antidepressivos. Liberdade? Pelo bem da sanidade e pela esperança no potencial do ser humano prefiro acreditar que não.

Em Brasília? Mais muros. No Plano, no Lago, trabalhadores vão e voltam como quem recebe carimbadas no passaporte. Só tem direito a vir, trabalhar e voltar para o lugar que lhes foi reservado. Viajar? Emigrar? Tais quais os alemães orientais, eles também foram privados do direito de ir e vir. Um muro gigante separa Brasília das cidades satélites: o muro da vergonha. Periferias, favelas, guetos. Seguimos murando o direito á cidade.

E se a mais forte das dominações é a dominação da mente, seguimos marchando totalitariamente á eterna opressão do homem pelo homem.  Com o tempo, aprendemos a construir muros. Eles são agora de vidro. Vemos o outro lado, temos noção de espaço e por isso nos sentimos mais confortáveis. Mas a bem da verdade continuamos murados, continuamos separados, como em um aquário.

E com muros de vidro edificamos um mundo doente, autodestrutivo, incapaz de resolver a destruição da natureza, a falta de dignidade humana. Na relativização cômoda que só chama de muro o berlinense nos esquecemos dos muros que construímos em volta de nós mesmos.

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Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é sociólogo e jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB, com período sanduíche na SOAS – University of London. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atuou como pesquisador-bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional (2015-16). Além de trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de Sociologia Econômica, Economia Política e Teoria Social, é autor do livro A finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016). Também publica intervenções sobre economia e política em sítios como Blog da Boitempo, Carta Capital, Congresso em Foco, Outras Palavras e Brasil em 5.

6 respostas em “Muros de vidro

  1. Pingback: Tweets that mention Muros de vidro « Brasil e Desenvolvimento -- Topsy.com

  2. Grande texto, Paraná. O intenso debate de ontem no twitter demonstra como os muros de vidro ainda são invisíveis para muitos e como é mais fácil para alguns simplesmente fingir que eles não existem. Aos que se aproximam da fronteira, por outro lado, o muro está lá, grita e oprime você de volta ao lugar predeterminado.
    Destruir esses muros sem construir outros, de vidro, âmbar ou concreto. É uma luta que vale a pena lutar.

  3. Emocionante de ler. Mais emocionante perceber que até mesmo quem luta, traz os muros em si. E que me confrontar com um texto desses de um cara a quem eu tanto admiro e tenho tão próximo, só me faz perceber que os muros estão mais perto do que medimos. Os muros estão dentro. Queremos nos quebrar?

  4. Pingback: Mia Couto: Murar o medo « Da Planície

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