“A onda” e Arendt

Por Gustavo Capela

Uma nova ditadura. Jamais isso acontecerá. Jamais nosso país será tomado por militares ou força outra qualquer que limite nossos direitos. Jamais aceitaremos a não-existência do que hoje nos é fundamental: liberdade, igualdade e todos os direitos que desses derivam.

Um novo Reich. Jamais isso acontecerá. Jamais o mundo aceitará que um indivíduo, um grupo, ou uma ideologia massacre milhões por razões étnicas, de raça, de gênero ou de crença. Jamais aceitaremos o extermínio de um povo e viraremos a cara, como se nada estivesse acontecendo.

É com base nesse pensamento, comum hoje em dia,  que o professor do filme “A onda” (Die welle) começa o projeto semanal de uma escola na Alemanha sobre autocracia. “O III Reich foi horrível e já sabemos disso”, uma das estudantes proclama na segunda feira. É a mesma que, ao final da semana lotava um auditório em prol de um movimento autocrático, fundado na sala de aula onde ela proferiu as palavras.

Hannah Arendt, no livro Crises da República, alerta a sociedade para o perigo de não respeitar o passado, de brincar com as chances de um acontecimento. Como ela mesmo ordena, um novo movimento nazismo é tão difícil quanto uma célula se dividir algumas vezes e formar um ser vivo, que, ao longo do tempo, evolui ao que hoje chamamos de espécie humana.

Não podemos nos iludir quanto aos perigos da vida social e as várias tentações que nos envolvem durante a história. Em momentos difíceis, nas situações de baixa auto-estima todos nós estamos suscetíveis a atos que passam por cima de valores que nos são caros, que são essenciais para a convivência pacífica entre os plurais.

O Grupo Brasil e Desenvolvimento, como um coletivo que se dispõe a agir a favor da mudança social também precisa ser cauteloso. Não nos furtemos dos valores que aceitam a idéia contrária, que debate publicamente os problemas sociais e que, acima de tudo, escancara os problemas e contradições dentro do nosso próprio projeto. O controle democrático e plural só se efetiva quando a minoria, quando aquele que não detém a hegemonia também é respeitado e ouvido.A construção de um plano para o Brasil, vasto e cultural, social e historicamente diversificado, só se concretiza por meio de uma abertura imensa ao plural, ao outro-diferente-de-nós.

Nesse sentido, recomenda-se o filme como um alarme à ideologia massificada, aos perigos de uma crença cega e à necessidade de abertura dentro do próprio grupo.

Die Wielle – Trailer:


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11 respostas em ““A onda” e Arendt

  1. Em entrevista à 6ª Edição da Revista dos Estudantes de Direito da UnB, o ministro aposentado do STF, ex-vice presidente da UNE e advogado de presos políticos, Sepúlveda Pertence, nos disse que, para ele e para seus colegas, que viviam em 1963-1964, a democracia brasileira, que completava quase 20 anos, já estava consolidada e que não era corrente entre os círculos intelectuais que um golpe ou ditadura fosse viável. O país já estaria acostumado com as instituições democráticas. Mesmo após o golpe de 30 de março, muitos acreditavam, segundo ele, que era uma insurreição temporária, e que a democracia viria a prevalecer.
    Não foi o que aconteceu.
    Fica a lição. Sempre é cedo demais pra se afastar o risco de regimes autoritários numa sociedade.

  2. Também não devemos deixar de ser vigilantes em relação às ditaduras de esquerda. Sempre está presente o risco de um novo genocídio stalinista ou de uma revolução cultural maoísta. O socialismo do século XXI já tem reeditado os ataques à mídia, tem sido ingerente com o Judiciário, objetiva se perpetuar no poder por meio de uma democracia plebiscitária. Em menos de 20 anos já esquecemos os males do socialismo real.

    • Ué, Thiago, onde você viu que eu estava falando somente de ditaduras de direita? Não falei de autocracia em geral? Acho que autocracias não têm lado justamente por não respeitarem o outro(lado).

  3. Referi-me ao filme. Sempre nos impressionamos com o apoio que a sociedade alemã deu ao nazismo. Eu me impressiono muito mais com o apoio que os intelectuais dão ao socialismo.

  4. “Eu me impressiono muito mais com o apoio que os intelectuais dão ao socialismo.”

    Gol!

    Mas é isso que vc disse Capela, autocracias são o mesmo lixo.
    Isso é consenso no Brasil&Desenvolvimento?

  5. Poxa, pessoal, grandes pensadores respeitáveis como Schumpeter defendem o socialismo em algumas hipóteses. Socialismo, assim como capitalismo, é uma forma de divisão dos bens escassos de uma sociedade. Vocês acham que o socialismo se compara ao nazismo? Eu realmente os enxergo de forma totalmente diversa. Um suprime o outro, persegue uma etnia e só se sustenta por medo. Vocês podem achar que o socialismo não é um modo de produção satisfatório, mas acho que a comparação, tal como feita – “acho muito pior” – é lamentável. Realmente não enxergo os dois como iguais. Portanto, vejo o socialismo como algo muito melhor que o nazismo, pelo menos como os intelectuais o defendem (esse foi o objeto da crítica, não?)

    E sim, andré, certamente é consenso o desprezo por autocracias. Acho que qualquer grupo que se preze quer discutir seu plano com outros, tentar construir um projeto que envolva opiniões diversas e respeite o pensamento contrário. O sistema que realmente se fecha é sempre oq ue está aberto ao seu ambiente, como ensina Luhmann.

  6. Opa,opa. Senti um ForaFidel aqui! Cool!

    Se falarmos de sistemas reais, pois é até tosco falar em nazismo como idéia, o socialismo foi muito mais destrutivo, ao menos contra suas próprias populações.

    Eu não acho que o socialismo, no modelo marxista-leninista/stalinista/trotskysta de extermínio possa ser considerado melhor do que qualquer coisa ou que possa ser considerado aceitável em qualquer nível ou esfera (político/econômico/societal).

  7. O compromisso do B&D com a democracia é inegociável e integral, de todos os pontos de vista – o que implica não só dizer “Fora Fidel”, mas também “Viva o MST!”, por exemplo.

    Eu digo Fora Fidel, sem dúvida! E comemoro a queda do muro de Berlim. Os países da Europa Oriental eram oprimidos pelo imperialismo soviético, assim como vários povos e os próprios russos. Nenhuma saudade. Mas não subscrevo a versão do “fim da história”, não acho que o capitalismo seja o melhor sistema social que podemos ter e considero Marx, por exemplo, um autor fundamental. O Muro caiu faz 20 anos, André. Não busquemos enquadrar ainda hoje todo mundo naquelas mesmas categorias (que já para a época eram inadequadas).

    Não existem apenas duas formas de organizar a sociedade, o “capitalismo” e o “socialismo”. O que há na história é uma pluralidade de modelos econômicos, modelos diversos de organização do mercado (o que se faz por meio das instituições – formais ou não) e da atuação do Estado. Existem mil formas mediante a qual pode funcionar uma economia de mercado. Formas mais ou menos produtivas, mais ou menos justas; a nós cabe buscar o máximo de justiça e de maximização da fruição sustentável de direitos de todos, como cidadãos livres e iguais responsáveis pela construção da sociedade.

  8. “O Muro caiu faz 20 anos, André. Não busquemos enquadrar ainda hoje todo mundo naquelas mesmas categorias (que já para a época eram inadequadas).”

    Telésforo, não mudo uma vírgula, até pq não disse em nenhum momento de uma limitada dicotomia entre socialismo e capitalismo. Até pq eu usei a expressão “no modelo marxista-leninista/stalinista/trotskysta”. Acredito sim em projetos e idéias de socialismo e democrático. Melhor, acredito na existência sincera e honestas de tais projetos e ideais. Só não acredito, pois até aqui não há exemplo fático que me faça acreditar, que isso seja possível. (socialismo e democracia)

  9. Ora, Thatcher, onde você colocaria os diversos capitalismos de estado, as social-democracias de estilo europeu, o glorioso capitalismo anglo-saxão pós-obama, operador de companhias de automóveis e (na prática) instituição de empréstimos a granel para os pequenos?

    Creio que a preocupação do Telésforo com a “crassidão” de certos termos/dicotomias (socialismo vs. capitalismo; direita vs. esquerda) é perfeitamente justificada.

  10. Veja, o que passo a narrar é um pesadelo (agorista), mas uma realidade, hehehe:

    The United States government is now the nation’s biggest lender, insurer, auto maker, and guarantor against risk. President Obama plans to commemorate the one-year anniversary of the financial crisis on Monday by giving a speech about the needs to wind down the government’s role in the financial sector and for new financial regulations.
    http://www.boston.com/news/nation/washington/articles/2009/09/14/obama_will_urge_wall_street_to_back_new_rules/

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