David Harvey e a crise

Por Laila Maia Galvão

Nesses tempos atuais, em que se falar em Marx e em marxismo é praticamente uma blasfêmia, aproveito para trazer um gostinho de contra-hegemonia, apresentando para vocês certa interpretação de mundo, um pouco diferente daquelas com as quais estamos acostumados. Trata-se de um vídeo de uma palestra proferida em 5 de julho de 2009 pelo professor e geógrafo, mundialmente conhecido e reconhecido, David Harvey.

Uma breve introdução: Em livro dedicado à análise da obra de Harvey, Trevor Barnes tenta responder à pergunta “Why Marx?”, por que Harvey teria se dedicado ao estudo de Marx? Barnes cita que no início da carreira acadêmica de Harvey, emergia nos Estados Unidos a geografia radical. Era publicada a primeira edição de Antipode: A Radical Journal of Geography e no mesmo ano Harvey passou a lecionar em Johns Hopkins University em Baltimore – EUA. Nessa época, diversos alunos de Harvey em Hopkins estavam interessados em Marx. A iniciativa de se criar um grupo de leitura de O Capital veio dos alunos, e Harvey, como professor, ajudou a organizar tal grupo. Ele não era marxista naquela época e sabia muito pouco de Marx. Havia tido pouco contato com Marx, quando ainda era estudante, com seu professor Tony Wrigley, co-fundador do Cambridge Group for the History of Population and Social Structure. Segundo Harvey, a experiência do grupo de leitura foi muito positiva e gratificante. Lá ninguém sabia mais do que ninguém e todos foram aprendendo juntos.

Outro fator relevante sobre “why Marx”: Baltimore, naquela época, abrigava uma série de problemas sociais e altos níveis de pobreza. Harvey tinha publicado, em 1969, Explanation in Geography. No entanto, ele sentiu que Explanation havia falhado como texto político. Harvey queria tratar das questões referentes ao capitalismo e às injustiças sociais e percebeu, então, que apenas Marx poderia lhe oferecer os conceitos para entender melhor o que estava acontecendo, a fim de proporcionar uma alternativa para uma transformação profunda da sociedade.

Tentei transcrever e traduzir alguns dos pontos principais da palestra de Harvey. Peço desculpas pelos erros na tradução e por não ter tido tempo hábil para traduzir os 25 minutos de fala. Segue, abaixo, o resumo:  

Harvey enxerga a crise como irracional racionalizador de um sistema irracional.

A irracionalidade do sistema agora é bastante evidente. Você tem massas de capital e massas de trabalhadores desempregados, lado a lado em um mundo que é cheio de necessidades sociais. How stupid is that?

A racionalização que o capital está buscando é para restabelecer o direito ao lucro. A maneira irracional que eles estão fazendo isso é acabar com essas possibilidades, por reduzir o trabalho e reduzir a circulação de capital. É isso que eu queria dizer por irracional racionalização de um sistema irracional. Como um socialista eu acho que há outra maneira de racionalizar isso. Pra mim a questão é: como tomar todo esse equipamento do capital e unir ao trabalho para que ele possa de fato atender às necessidades humanas. Essa deveria ser a racionalização que nós deveríamos estar procurando agora.

 Acho que nós precisamos, para isso, incentivar um fervor revolucionário. Mas pra mim há um risco de que esse fervor revolucionário de torne vazio de significado. Afinal, hoje temos hairsprays revolucionários e tudo mais revolucionário!! Eu não quero ser um revolucionário hairspray expert. Então como um movimento revolucionário tem que ser?

Precisamos de uma teoria da mudança social, para discutirmos como um movimento social poderia se mover para algo que um tipo de sociedade radicalmente diferente. Para isso eu vou usar a teoria da mudança social de O Capital do Marx. Há uma nota de rodapé: quarta nota de rodapé no cap 15. Marx fala de tecnologia e relação com a natureza, que estão juntas em uma configuração dialética. Vamos olhar para esses diferentes elementos e fazer essas diferentes perguntas sobre o futuro e sobre onde estamos agora… e como vamos chegar daqui até um outro tipo de configuração:  

1- relação com a natureza

2- olhar para o momento da tecnologia (tecnologia para Marx não era apenas relacionado ao hardware, mas era conectado à divisão do trabalho, às formas de organização social, software… etc). Quais tecnologias usaremos no socialismo? O capitalismo evolui e sua tecnologia também. Como progrediremos de uma tecnologia capitalista para uma tecnologia socialista totalmente nova?

3- relações sociais   Que tipo de relações sociais temos agora e quais queremos ter? (referentes a classe, gênero, raça).

4- organização da produção Produção pode ser organizada de várias formas (organização do trabalho)

5- concepções do mundo (mental conceptions of the world) precisam mudar!!!

6- cotidiano Como será nossa vida cotidiana?

7- arranjos institucionais

 Todos esses momentos devem mudar, devem se desenvolver, em conjunto para que haja uma grande transformação. Nenhum desses pontos é determinante. É como um sistema ecológico. Envolve transformações em todos esses aspectos.  Capitalismo passou por várias revoluções, tecnologias se transformaram. História do capitalismo é a história de radicais reconfigurações. Crises são momentos de reconfigurações.

Crise: momento para restabelecer as bases para atender necessidades humanas. É preciso criar um movimento que envolve todos aqueles pontos (relações dialéticas). O capitalismo não sabe qual reconfiguração vai haver. Precisamos de imaginação, recursos para mobilizar esses recursos…  Esses recursos em potencial hoje estão presos, ideologicamente, nas estruturas institucionais. Mas para mobilizar esses recursos é preciso ter uma visão! Uma visão que diga: há uma saída, que não é a que eles estão apontando. É uma transição que vai demorar, que será complexa. Não é apenas trocar o governo, pensar é criar novas estruturas institucionais. Podemos tomar o Estado, mas precisamos reconfigurá-lo. Precisamos ter imaginação, precisamos nos mobilizar, precisamos ter uma visão mais ampla. 

Quanto as respostas de Harvey às perguntas: Cita questões de classe: pessoas excluídas acham que culpa é apenas delas mesmas. Diz que os problemas são distintos em países distintos, mas que precisamos pensar em trazer esses elementos juntos. Diz que é preciso atacar. A crise é momento de fraqueza dos poderes. Precisamos garantir que vamos sair dessa crise do jeito que queremos. Esse sistema que temos não é sustentável. Ou vamos nos mobilizar agora, ou vamos nos preparar mais a próxima vez (para a próxima crise).

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3 respostas em “David Harvey e a crise

  1. Algo tocante na palestra dele é quando ele destaca que, perguntadas sobre a perda de suas casas ou de suas economias na crise americana, as pessoas respondiam que elas culpavam a si mesmas. Isso é sintomático de que enquanto problemas estruturais e coletivos forem percebidos e apreendidos como falhas individuais e pontuais dificilmente estarão aptos a serem superados.

  2. Pingback: Avaliação do Fórum Social Mundial « Brasil e Desenvolvimento

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